Está
sobrando onça
Elas
atacam o gado no Pantanal e os
fazendeiros reagem com a caça ilegal
Ricardo
Villela
André Penner
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| Onça-pintada:
aumento da população começou na década
de 70 |
Os
fazendeiros do Pantanal Mato-Grossense andam às voltas com
um problema que pode ter atormentado seus avós, mas que seria
impensável há poucos anos. Está sobrando onça
na região. Há uma década, era necessário
sorte de ganhador de bingo e paciência de ermitão para
topar com uma onça na região. Mesmo nos pontos mais
remotos, passavam-se semanas sem que se visse uma única pegada
do bicho. Hoje em dia, no entanto, quem desce o Rio São Lourenço,
no coração do Pantanal Mato-Grossense, dificilmente
deixa de avistar pelo menos uma onça. Em municípios
como Miranda e Aquidauana, pontos de trânsito de pescadores
no Mato Grosso do Sul, as onças também têm aparecido
com freqüência cada vez maior. O Ibama não faz
contagem regular da população de felinos no Pantanal,
mas há estimativas de que exista na área uma população
de 1.400 onças-pintadas e mais
de 2.500 onças-pardas. E essa
mesma notícia que alegra turistas põe em estado de
guerra os fazendeiros da região. Uma das presas mais fáceis
para as onças é o gado, e algumas fazendas estão
perdendo para o predador até 10% dos bezerros recém-nascidos.
Só na Fazenda Caiman, o refúgio turístico cinco-estrelas
do empresário Roberto Klabin, elas devoram entre quinze e
vinte bovinos por mês. "Esse problema já está
pior do que o dos sem-terra", desabafa Magno Coelho, fazendeiro
que perdeu trinta reses nos últimos dois meses.
A
hipótese mais provável para o surgimento de tanta
onça tem origem no atual ciclo de cheias por que passa o
Pantanal. De 1974 para cá, a região vem atravessando
enchentes bem maiores que no passado. Com isso, muitas áreas
anteriormente usadas para a criação de gado tornaram-se
inacessíveis e foram abandonadas. A ausência do homem
teria permitido que as onças se multiplicassem. "A alta densidade
de onças encontrada hoje é, na verdade, apenas resultado
de um processo lento que começou na década de 70",
explica o biólogo Peter Crawshaw, gerente do Centro Nacional
de Pesquisa para a Conservação de Predadores Naturais,
órgão do Ibama.
Uma
das formas de controle de animais silvestres mais usadas no mundo
surge em razão do excesso de onças e dá calafrios
nos ambientalistas mais xiitas. Proibida por lei desde 1967, a caça,
regulamentada e bem fiscalizada, poderia ser uma eficiente ferramenta
para reduzir a população de felinos. Hoje, em países
como a Argentina, turistas chegam a pagar 2.000
dólares pelo direito de caçar uma onça. A esse
preço, a caçada de um único animal seria suficiente
para cobrir o prejuízo causado pela morte de quinze bezerros.
O primeiro passo nessa direção seria um levantamento
detalhado do número exato de felinos no Pantanal. O segundo
seria enfrentar a gritaria de ambientalistas. Não é
fácil, mas certamente é mais sensato que fazer vista
grossa às caçadas informais que os fazendeiros locais
já vêm promovendo. Afinal, é como diz Crawshaw:
"Talvez nunca tenha havido tanta onça no Pantanal. E também
nunca se mataram tantas".
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