Em terra inimiga
Com
câmaras escondidas, cineasta argentino
filma em segredo uma comédia nas Malvinas
Raul
Juste Lores, de Buenos Aires
Fotos Divulgação
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| Stratas
e a inglesa Camila: únicos atores de verdade
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Um
argentino desembarca nas Malvinas dezoito anos após a derrota
na guerra contra a Inglaterra com um plano ousado para reconquistá-las:
ele pretende engravidar o maior número possível de
nativas, de forma que a próxima geração seja
predominantemente argentina. Esse é o enredo de Fuckland
(trocadilho malvado com o nome inglês das Malvinas,
Falklands), gravado secretamente nas ilhas pelo cineasta José
Luis Marqués. Nada é convencional nesse longa-metragem,
o primeiro feito por um argentino nas Malvinas. "Para recuperar
as ilhas, a solução é fazer amor, não
a guerra. É minha maneira de falar de soberania", diverte-se
o diretor, que tem 41 anos e é publicitário em Buenos
Aires. O filme estréia nesta semana em quarenta salas na
Argentina e já conseguiu o badalado reconhecimento do Dogma
aquele movimento dinamarquês com uma câmara na
mão e muitas idéias na cabeça, na linha de
filmes como Mifune.
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| Campo
minado para conter os argentinos: uma comédia com ar
de documentário |
O filme
é uma grande brincadeira, misturando ficção
e realidade. O ator Fabián Stratas tenta se aproximar de
verdade dos malvinenses, que não sabiam que estavam sendo
filmados, visita um campo minado e chega a se misturar com um desfile
militar. Moradores de Port Stanley, a capital, são vistos
levando sua vidinha normal no hospital, no salão de beleza,
no bar e no supermercado, elementos que dão ar de documentário
à película. Ninguém deve deixar-se enganar,
pois se trata de ficção. A única mulher com
quem tem relações sexuais no filme é a atriz
inglesa Camila Chatney, que faz parte do elenco. A filmagem foi
uma aventura. Realizada em apenas uma semana com câmaras digitais,
custou menos de meio milhão de dólares, ninharia para
um filme. O equipamento da exígua equipe esteve todo o tempo
escondido ou camuflado. "Vivíamos paranóicos, não
podíamos ter a noção se havíamos sido
descobertos ou não. Lá só há um jornal
semanal e uma rádio, e não existe TV local", diz o
cineasta.
Fuckland
é o momento mais criativo da pendenga entre argentinos e
ingleses sobre quem é dono daquele lugar no fim do mundo.
A Inglaterra domina o arquipélago desde o século XIX.
Em 1982, os generais da ditadura argentina inventaram de invadir
as ilhas e foram surrados pelas tropas de Sua Majestade. Quase tudo
já foi feito para tentar reconciliar os dois países.
O então chanceler Guido di Tella chegou ao ridículo
de presentear com um ursinho de pelúcia cada kelper,
como são chamados os malvinenses. A questão anda ausente
das preocupações da maioria dos argentinos. Desde
o ano passado, quando a Inglaterra liberou a entrada de turistas
argentinos, apenas 270 estiveram nas Malvinas, a metade deles jornalistas
e parentes de militares enterrados ali, todos com passagens pagas
pelo governo de Buenos Aires. A discussão sobre a soberania
das Malvinas, como Marqués descobriu, está virando
uma anedota.
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