Estilo sensual
na prancheta
Mestre
do design de automóveis,
o italiano Giugiaro vem ao Brasil
para lançar novos modelos
Angela
Nunes
Divulgação
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EB 118 da Bugatti: luxo compacto que casa bem com a alta tecnologia
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No princípio, era a carroça. As primeiras versões
do automóvel, construídas no final do século
XIX, pareciam prontas a receber um par de cavalos, capazes de puxar
o veículo com a força de seu tropel. Ao longo das
décadas, poucas invenções do ser humano tiveram
um aperfeiçoamento tão contínuo e radical,
embora permaneça basicamente o mesmo meio de transporte sobre
quatro rodas. Entre o modelo pioneiro criado pelo alemão
Gottlieb Daimler, em 1887, e os carrões de luxo que estampam
escudos como Maserati, Bugatti, Ferrari, Mercedes ou BMW, a história
do veículo reservou um espaço todo especial para aquele
que é considerado o mais importante designer de automóveis
de todos os tempos: o italiano Giorgetto Giugiaro, que desembarca
no Brasil nesta semana. Trazido pela Fiat, ele será a estrela
do lançamento mundial das novas versões da família
Palio, a ser realizado no Rio de Janeiro, em uma grande festa na
Base Aérea de Santa Cruz, no mesmo hangar que abrigou o Zeppelin,
quando o dirigível passou pelo país em 1937. Leva
a assinatura de Giugiaro a remodelagem do Palio tradicional, do
Weekend e do Siena. "Ele costuma ser genial em todo tipo de projeto
com que se envolve", define o engenheiro Gianni Coda, superintendente
da Fiat na América Latina.
Marco de Bari
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Maserati 3200 GT: carroceria sobre base da Ferrari, uma fusão
feliz de marcas |
E Giugiaro
se envolveu com projetos de todo tipo, além da criação
de modelos de automóveis. Já desenhou máquina
fotográfica para a Nikon, relógio para a Seiko, equipamento
de informática para a Apple e até um macarrão
comercializado pelo gigante Barilla, maior fabricante de massas
em seu país. No caso, desenvolveu um tipo de fusilli capaz
de reter maior quantidade de molho de tomate. Sem falar em eletrodomésticos,
cosméticos, óculos, bicicletas, motos e barcos. Os
filhos o acompanham na jornada Fabrizio dá uma mão
nos automóveis e Laura comanda os demais produtos, inclusive
a grife de roupas femininas e masculinas. No currículo de
Giugiaro podia estar faltando algo de muito inusitado, como ser
artista de cinema. Mas não está. Uma de suas criações
acabou imortalizada num dos filmes de maior bilheteria, o eletrizante
De Volta para o Futuro. O carro desenvolvido pelo professor
maluco que leva o jovem Michael J. Fox ao passado é nada
menos que um De Lorean, uma encomenda que só deu certo fora
da vida real.
Fotos Divulgação
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| Novidades
na família Palio: apresentação com pompa
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Sem nenhum tipo de exclusividade com a Fiat, Giugiaro firmou seu
nome prestando serviços para uma grande lista de marcas concorrentes.
Somente pela Italdesign, empresa que montou em 1968, produziu mais
de oitenta modelos para produção em série de
fabricantes da Itália, da França, da Alemanha, dos
Estados Unidos ou do Japão. Das pranchetas, brotaram também
dezenas de protótipos que brilharam nos salões anuais
especializados, sem chegar ao mercado, mas com uma contribuição
marcante de beleza e ousadia ao delinear novas tendências
para o perfil dos carros. Ao lado dos luxuosos, como os recentes
Maserati 3200 GT e o Bugatti EB 118 (ambos de 1998), convivem sucessos
de grande público como o Passat e o Golf, da Volkswagen (1973
e 1974), e o Panda e o Uno, da Fiat (1980 e 1983).
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Nazca M12, para a BMW: 1 milhão de dólares seria
o preço se vendido no mercado |
A trajetória
para alcançar tal conceito foi longa e começou por
acaso na vida de Giugiaro, em 1955, quando dividia os estudos em
um liceu artístico de Turim com um curso noturno de desenho
técnico. Um diretor da Fiat visitava uma dessas entediantes
mostras escolares de fim de ano e tropeçou em esboços
de automóveis desenhados por Giugiaro, logo contratado para
um departamento de estilo de veículos especiais. Quatro anos
depois, ele saltou para o ateliê do designer Nuccio Bertone,
um dos feras daquela época, que contribuiu para desenvolver
e amadurecer seu talento, embora até hoje ainda reclame do
salário, com bom humor. "Em 1960, eu já havia projetado
uma Ferrari, uma Maserati e um Alfa Romeo, mas não tinha
dinheiro para comprá-los", lembrou a VEJA, na última
terça-feira. Quando os amigos perguntavam por que desenhava
aqueles carrões e circulava em Turim a bordo de um carrinho
barato, Giugiaro respondia: "É porque eu gosto mais". Depois
de polir seus atributos técnicos na Carrozzeria Ghia, ele
estava finalmente pronto para correr em faixa própria, em
1967, quando fundou sua primeira firma independente, a Ital Styling,
que no ano seguinte se tornaria a Italdesign.
Nascido
no vilarejo de Garessio, noroeste da Itália, Giugiaro, hoje
aos 62 anos de idade, representa uma corrente que se diferenciou
em seu campo de atividade. Até os anos 60, reinavam os "estilistas",
como Nuccio Bertone e Giuseppe Farina, mais conhecido por Pininfarina.
Havia menos interferência dos fabricantes e mais liberdade
de criação. Depois, vieram os "designers" propriamente
ditos, que passaram a enfrentar exigências cada vez maiores,
ditadas pela concorrência mais apertada, pressões por
custos menores e normas de segurança rigorosas, além
da necessária economia de combustível. Na última
década, passou a agir a globalização, disseminando
o conceito de carros mundiais. "A organização da indústria
automobilística tornou-se muito complexa, as responsabilidades
aumentaram e o controle das decisões saiu das mãos
de quem faz a criação", explica Giugiaro.
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Calà, da Lamborghini: linhas que seguem a herança
italiana no campo das artes |
Mesmo
com mudanças desse porte, os profissionais do setor souberam
preservar as características que diferenciam os estilos nacionais,
muito semelhantes a certos traços da cultura de cada país.
O professor de desenho industrial das Faculdades Armando Álvares
Penteado Auresnede Pires Stephan explica que os alemães adotaram
um caminho mais austero e funcional, que combina com a precisão
e o rigor tecnológico de sua produção. Os americanos
evoluíram pela rota da imponência e do porte avantajado,
como nos célebres rabos-de-peixe de décadas passadas.
Os japoneses combinaram disciplina e persistência, de certa
maneira espelhadas em veículos insossos. Já os italianos
cunharam a marca do romantismo e da sensualidade. "As linhas são
femininas, delgadas, leves, torneadas, aconchegantes", diz Stephan.
De acordo com ele, Giugiaro soube adequar-se às necessidades
da grande produção industrial pós-anos 60 e
ajudou a integrar o design com a engenharia, sem, contudo, abrir
mão da estética e da aura de sofisticação
e refinamento da escola italiana. "A Itália tem uma vocação
para o design que honra as melhores tradições históricas
na arquitetura, na pintura ou na escultura", define o próprio
Giugiaro. Leia-se, no caso, uma herança que inclui Leonardo
da Vinci, Michelangelo, Rafael, Florença e Veneza.
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