O
pior lugar do mundo
Ingleses
destroem milícia em Serra
Leoa, país onde a guerrilha corta
a mão de crianças
Cristiano
Dias
A
Inglaterra perdeu a paciência e, na semana passada, mandou
um pelotão resgatar onze de seus soldados seqüestrados
por uma milícia de Serra Leoa, os West Side Boys. No domingo
10, 110 pára-quedistas de sua majestade libertaram os reféns,
que fazem parte das forças de paz da ONU, mataram pelo menos
25 seqüestradores e capturaram o chefe, Foday Kallay. Os West
Side Boys, com seu estapafúrdio nome de banda de rock, são
os típicos combatentes de uma guerra cujas atrocidades conseguem
ser mais chocantes que qualquer outra das barbaridades em curso
na África. As tropas são formadas por adolescentes
movidos a drogas cujo mais abominável hábito é
cortar as mãos de civis escolhidos a esmo, inclusive mulheres
e crianças. Kallay apresentava-se nas negociações
para a libertação dos ingleses como "general-de-brigada",
mas, até que o país mergulhasse no banho de sangue,
ele era apenas o porteiro do Ministério da Defesa. Só
neste ano, os grupos armados seqüestraram mais de 700 soldados
e funcionários das forças de paz da ONU, que tentam
impor um pouco de lucidez no desvario de uma guerra cujo único
objetivo é ver quem vai roubar maior quantidade de diamantes,
a única riqueza do país.
O
garimpo de diamantes não é apenas o melhor negócio,
mas também a única mercadoria de valor de Serra Leoa.
Impressiona como tal riqueza acabou levando o país a se tornar
o pior lugar do mundo. Serra Leoa foi criada em 1787 para ser uma
colônia e receber escravos emancipados pelos ingleses após
a independência dos Estados Unidos. Mas só despertou
o interesse dos europeus quando o mineral foi descoberto, em 1930.
Até 1963, dois anos após sua independência,
apenas os brancos exploravam a pedra. Desde que as minas foram nacionalizadas,
não houve mais paz. Metade dos habitantes já perdeu
suas casas e o país despencou para o último posto
no índice de desenvolvimento humano da ONU. Sua renda per
capita de 130 dólares é uma das mais baixas do mundo
e 70% da população está desempregada e vive
abaixo da linha de pobreza. Sete em cada dez adultos são
analfabetos e a expectativa de vida de 35 anos é a mais baixa
do planeta. Serra Leoa é a campeã mundial em mortalidade
infantil, com 170 mortes a cada 1.000
nascimentos. O banco central, os serviços públicos
essenciais, a polícia e os últimos resquícios
de um Estado organizado desapareceram.
A
guerra começou há quase uma década. O grande
vilão é um contrabandista de diamante chamado Foday
Sankoh. Ele foi cabo no Exército, passou sete anos na cadeia
por conspiração nos anos 70 e outros tantos treinando
guerrilha na Líbia. No início da década, entrou
no país com um bando de guerrilheiros esfarrapados. Apesar
da tropa mambembe, não foi difícil derrotar o Exército
nacional. Com um efetivo mínimo, desorganizado e mal equipado,
o Exército leal ao governo debandou. Em 1995, para evitar
a derrota, a solução encontrada foi pagar 35 milhões
de dólares a uma firma de mercenários da África
do Sul. Pouco mais de 200 homens bem treinados e equipados com helicópteros
foram capazes de expulsar a guerrilha de Sankoh de volta para o
interior do país.
No
ano seguinte foi eleito um presidente, Ahmad Tehan Kabbah. Não
demorou para que a soldadesca se amotinasse devido ao atraso nos
soldos. Os amotinados libertaram os guerrilheiros presos e convidaram
Foday a fazer parte de um novo governo. A intervenção
de uma força de paz africana repôs Kabbah no palácio,
que mandou fuzilar 24 oficiais e condenou Foday à morte.
Antes de sua execução, uma coligação
de desertores e guerrilheiros atacou Freetown, a capital do país.
Foi então que se espalhou o terror para valer. Moradores
de bairros inteiros eram reunidos por guerrilheiros adolescentes
e metralhados nas ruas ou queimados vivos em suas casas. Esquadrões
especiais, na maioria formados por crianças, circulavam com
facões e machados mutilando as pessoas. Gostavam de perguntar
às vítimas se preferiam "manga curta ou longa". Significava
perder a mão ou todo o membro. O objetivo era aterrorizar
a população e estima-se que 100.000
foram mutilados. Sankoh foi capturado pelo governo no início
deste ano e não se sabe com certeza se está preso
ou morto.
Não
existe outro motivo convencional para que as pessoas se matem por
lá exceto, evidentemente, os diamantes. Não
há diferenças tribais significativas nem conflitos
ideológicos. Mas o que era para ser a salvação
do país acabou se tornando a razão de sua miséria
e já matou mais de 50.000 pessoas
em nove anos de guerra civil. Serra Leoa tem capacidade para extrair
70 milhões de dólares por ano de diamantes, contudo
apenas 1,5 milhão de dólares constam da receita oficial.
O resto é contrabandeado para os países vizinhos em
troca de armas que incendeiam a guerra. A ONU vem estudando uma
forma de embargo a esses diamantes, mas a tarefa é quase
impossível. Contrabandeá-los é muito fácil,
uma vez que poucas pedras formam uma grande fortuna facilmente transportada
numa caixa de fósforos. Vale tudo para esconder as pedras.
Engolir, colocar debaixo da língua ou das unhas. Os traficantes
de Serra Leoa são capazes até mesmo de ocultá-las
na pele, colocando-as em machucados abertos e recém-cicatrizados.
A ousadia dos contrabandistas é a mesma dos assassinos na
hora de decidir quem vai morrer. As vítimas podem ser pessoas
que se recusam a lhes dar dinheiro ou simplesmente qualquer um com
quem não simpatizam. Os facínoras estupram mulheres
e freiras, seqüestram padres, marcam crianças como gado
e as drogam para obrigá-las a guerrear. O governo conta com
a ajuda de uma milícia igualmente brutal, a Kamajor. Caçadores
tribais, eles costumam freqüentar o campo de batalha protegidos
com amuletos que, acreditam, os tornam imunes às balas. Os
guerrilheiros e milicianos de Serra Leoa formam uma curiosa caricatura
de elementos primitivos e da cultura pop internacional. Vestem camisetas
de bandas de rock, misturam óculos escuros com perucas vermelhas.
Querem ser chamados por apelidos, como "Coronel Sanguinário",
"Comandante Cortador de Mãos" ou "Mister Morte". Nomes que
soam bem no pior lugar do mundo.
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