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A mudança não apenas deu ao trabalhador a oportunidade de exercer profissões tipicamente urbanas sem precisar migrar mas, acima de tudo, pôs mais dinheiro em seu bolso. A renda média de uma família que vive da atividade agrícola tradicional é de 264 reais, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A de quem trocou a enxada por trabalho não-agrícola é de 543 reais. O maior poder de compra está ampliando o leque de serviços e bens de consumo. Está também melhorando a qualidade de vida no campo. Por onde se examine, o Brasil rural ficou mais parecido com o urbano. O número de aparelhos de televisão mais do que dobrou nos últimos dez anos. O mesmo ocorreu com a quantidade de banheiros nas residências. São confortos que ajudam a segurar o homem no meio rural. "Muitas pessoas passaram a usufruir uma maior variedade de bens e instalações, e isso pesa na hora de decidir ficar ou ir para a cidade", diz o demógrafo Fernando Albuquerque, do IBGE. Trabalho mais leve e melhor salário fazem muita diferença na vida de quem cresceu calejando as mãos debaixo do sol. Elza Maria da Costa largou o cabo da enxada há dois anos e, desde então, é cozinheira num pesqueiro no Vale do Ribeira, o rincão mais pobre do Estado de São Paulo. Na fazenda ganhava um salário mínimo, mantimentos e roupas usadas da família do patrão. Hoje recebe 350 reais mensais e passa o dia em um lugar coberto, "sem ter de tomar chuva e pegar vento". O salário dobrou a renda familiar (o marido é pedreiro), permitiu a compra de geladeira e fogão e que o filho Anderson, 16 anos, deixasse a lavoura e passasse a se dedicar apenas ao estudo.
As
grandes levas de retirantes rumo às cidades foram impulsionadas
pela expansão dos empregos na construção civil
e na indústria nos anos 60 e 70. A recessão nos anos
80 e os novos métodos industriais na década seguinte
reduziram a procura pela mão-de-obra barata, mas pouco qualificada,
que vinha do campo. A encrenca está no fato irreversível
de que a agricultura moderna corta mão-de-obra no mesmo ritmo
com que aumenta a produtividade. Uma máquina utilizada na
colheita de cana-de-açúcar pode ser operada por apenas
três pessoas e substitui pelo menos quarenta trabalhadores.
No mesmo período em que desempregou milhões de pessoas,
o campo brasileiro foi ficando cada vez mais próspero. O
agribusiness nacional gera anualmente 200 bilhões de dólares
o equivalente ao PIB da Áustria. O Brasil é
o maior exportador mundial de soja e suco de laranja, o terceiro
em carne e frango. Só perde na produção de
grãos para os Estados Unidos e a China. O que tem faltado
ao campo brasileiro não é riqueza, mas fazê-la
chegar também a quem lavra a terra ou tira leite das vacas.
Pequenas propriedades empenhadas em culturas tradicionais, do tipo
que se cria com a reforma agrária, podem resolver o problema
de algumas famílias, mas não são uma solução
completa. Faltam-lhes o cacife econômico e a economia em escala
para competir com a produtividade das grandes empresas agropecuárias.
É impressionante como uma resposta bem mais promissora surgiu
sem depender de programas de governo ou de grandes articulações
políticas ou empresariais.
Por onde se olhe, as mudanças no campo apontam para o sumiço do Jeca- tatu. O número de famílias com uma pessoa ocupada em tarefas não-agrícolas já supera o total de famílias exclusivamente voltadas para a agropecuária. A virada deu-se há dois anos. Impressiona que isso não esteja ocorrendo apenas nas imediações das metrópoles regionais, a rede de cidades prósperas que já vinha alterando as condições de vida e os hábitos da população do interior desde os anos 70. As mudanças no tipo de ocupação acontecem em verdadeiros grotões, dos quais só se esperavam atraso e reservas de mão-de-obra barata. O conceito de zona rural usado nos levantamentos do IBGE são as paisagens de fazendas, colônias, vilarejos com não mais de 250 habitantes distribuídos em até cinqüenta casas. Vivem nessas condições 8 milhões dos 42 milhões de famílias brasileiras. Somam 34 milhões de pessoas, quase uma Argentina. Trata-se da região mais dilapidada pela enorme transferência de população na segunda metade do século XX. É significativo que pela primeira vez desde os anos 40 a população adulta no campo tenha voltado a crescer a partir de 1992. A migração nesta década foi ainda considerável, de 9 milhões de pessoas
É muita gente, mas na década anterior foram 13 milhões e, nos anos 70, 14 milhões. "O quadro explosivo pintado para as grandes metrópoles no passado mudou completamente", acredita o demógrafo Fausto Brito, da Universidade Federal de Minas Gerais. Pela primeira vez em cinqüenta anos, alguns pólos de expulsão de habitantes estão tendo um saldo migratório positivo. A queda da população rural perdeu ritmo até no Nordeste. De 1986 a 1991, 720.000 nordestinos migraram para São Paulo. Entre 1991 e 1996, o volume caiu para 650.000 migrantes. O fenômeno não é homogêneo, contudo, e reflete as brutais desigualdades regionais. Minas Gerais, que junto com o Nordeste era uma das principais origens dos migrantes, atualmente importa mais do que exporta gente. Mas o Vale do Jequitinhonha, no norte do Estado, um dos grotões mais pobres, continua a expulsar seu povo. O vale abriga cidades que, nos últimos anos, perderam população. Itacambira tinha 8.000 habitantes em 1970 e agora só tem 4.500. É uma terra de "viúvas da seca" as mulheres ficam em casa com os filhos, enquanto os maridos vão buscar o sustento da família nas lavouras de café do sul de Minas ou de cana-de-açúcar no norte de São Paulo. No Vale do Jequitinhonha e na maior parte do sertão do Nordeste não há pesqueiros, hotéis-fazendas ou criação de empregos em atividade não-agrícola. O que ocorre nos rincões de miséria mais profunda afeta para pior todas as estatísticas brasileiras. Isso explica, em parte, por que o campo surpreende quando produz notícias melhores. Pedro Izídio de Souza viveu 24 de seus 54 anos em Brasília. Criado com onze irmãos no interior do Piauí, levava uma vida de biscates, em que radinho de pilha e sapato eram artigos de luxo. Voltou para a roça doze anos atrás e se empregou numa granja, a 30 quilômetros da capital federal. Em 1995, a granja quase quebrou e o dono decidiu mudar de ramo, abrindo um restaurante. O número de empregados subiu de quatro para 26. Izídio, que limpava o piso da granja, hoje é guia de turismo e gerente de produção do Trem da Serra, o restaurante que recebe 700 turistas por dia. Hoje são dez parentes trabalhando na mesma empresa de motorista a garçom. Izídio leva para casa um salário de 1.500 reais. Com a ajuda da mulher, que é cozinheira, a família tem renda de classe média urbana. "O turismo foi a solução que me segurou no meio rural", diz ele. A criação de empregos e oportunidades no campo nunca será suficiente para estancar de vez o êxodo rural. O morador do campo não foge apenas da falta de trabalho. Os grandes centros funcionam como uma espécie de farol, atraindo as pessoas com sua promessa de oportunidades, lazer e educação. Pobres ou ricos, todos os países convivem com níveis significativos de evasão do meio rural. Apesar de abrigarem a agricultura mais produtiva do planeta, os Estados Unidos ocupam diretamente na atividade agrícola apenas 1,5% da sua força de trabalho. Nos países da União Européia e no Japão, esse porcentual não ultrapassa os 6% e os governos praticamente pagam, por meio de subsídios, para que seus fazendeiros continuem no trabalho da agricultura. Nesses países, o morador da zona rural pode contar com educação, saúde e serviços comparáveis aos das áreas urbanas. "O mundo urbano e o agrícola vêm se fundindo desde os anos 60", diz Elizabeth Farina, professora de economia da Universidade de São Paulo. "Só que, nos países desenvolvidos, esse processo foi resultado de uma irradiação de riqueza e propiciou um desenvolvimento bastante equilibrado." O Brasil está reproduzindo tardiamente o processo de urbanização do universo agrícola. Mas, como era de esperar, do nosso jeito e com as nossas mazelas. É um alívio saber que já se melhorou o suficiente para desarmar a bomba do êxodo rural.
Com
reportagem de
José Edward, de Belo Horizonte, Gisela Sekeff |
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