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Ilustração Evandro

Aumento de oportunidades e empregos fora
da atividade agrícola reduz o ritmo do êxodo
rural e desativa o gatilho da explosão social

Carlos Rydle

É um fato que a mecanização da agricultura reduz a necessidade de mão-de-obra e causa desemprego no campo. A modernização da atividade agrícola, somada à atração natural exercida pelas grandes cidades, está na raiz do êxodo de proporções bíblicas ocorrido no país a partir dos anos 60. A população rural, que então representava 55% dos brasileiros, reduziu-se a apenas 20%. O resultado mais perverso foi o inchaço das periferias e das favelas nas metrópoles, com o aumento da criminalidade e das demandas sociais. O Movimento dos Sem Terra (MST) nasceu com um pé cravado nesse fenômeno do desemprego rural e com a certeza de que o ritmo da migração para as cidades continuaria a acelerar, exceto se o governo providenciasse terras e crédito para que todos os pobres do campo pudessem viver da própria roça. Não é exatamente o que está ocorrendo, pelo menos nas proporções imaginadas. O crescimento do desemprego vem sendo mitigado pelo aumento de vagas no setor de serviços em áreas rurais. Essa terceira via, que escapou às previsões da maioria dos estudiosos, está acontecendo sem plano prévio e sem nenhuma participação do governo ou das empresas. O impacto sobre o êxodo rural é impressionante. Na mesma década em que se perdeu 1 milhão de postos de trabalho no cabo da enxada, a debandada em direção às áreas urbanas encolheu em quase um terço. Ou seja, de onde migravam dez, agora são apenas sete. A diferença para menos, no total, é de 4 milhões de migrantes, um tremendo alívio. A migração continua grande, mas o ritmo mais lento significa que se desarmou o gatilho dessa bomba populacional que ameaça afogar as cidades numa maré de miseráveis.


Geyson Magno/Ag. Lumiar
Joeude de Souza, de 40 anos, faz caminhões de brinquedo na minúscula Lagoa do Rancho, lugarejo de 250 moradores na Paraíba, em sistema de cooperativa com outros quinze vizinhos. A oficina fica nos fundos de sua casa e lhe rende 400 reais por mês: "Já deu até para comprar celular", diz.


Quatro em cada dez trabalhadores adultos nas áreas rurais ganham o pão hoje em atividades não-agrícolas, um crescimento de 35% em menos de dez anos. Nesse período, surgiu 1,2 milhão de novos postos de trabalho, 200.000 além do que se perdeu na agricultura. Fica ainda mais impressionante quando se leva em conta que isso ocorreu em um período de desemprego alto, no qual só a indústria paulista de manufaturados cortou mais de 500.000 vagas. Fazendas decadentes voltaram a dar lucro, transformando-se em estabelecimentos de turismo, como restaurantes e hotéis-fazenda. Cinco anos atrás, eles eram apenas 500 no Brasil. Hoje são 4.000, gerando 50.000 empregos diretos. Nessa mesma época, existiam entre 100 e 150 pesqueiros em São Paulo. Hoje são 1.500, com 10.000 postos de trabalho. Nas pequenas propriedades, novas fontes de renda foram criadas pela renovação da atividade agrícola tradicional, como a criação de aves raras, animais de caça ou a fabricação de queijos finos. O número de donos de empresas com empregados triplicou entre 1981 e 1997, enquanto o de fazendeiros e sitiantes nas mesmas condições caiu 10%. Os empregos sumidos são de peão de fazenda, bóia-fria e vaqueiro, que estão entre os de pior remuneração. Os novos são de motoristas, arrumadeiras, balconistas, guias de turismo, operadores de máquinas, garçons e pedreiros, que recebem salários bem maiores.

 
Fotos Ana Araújo
Nascido no Ceará, criado no Piauí e durante uma década operário em Brasília, Pedro Izídio de Souza (ao lado do carro, com a família) cuidava de animais numa granja. Hoje é gerente no mesmo restaurante turístico no qual trabalham a mulher e três filhos: com renda mensal de 2 500 reais, a família tem carro, casa própria, telefone celular e três casinhas alugadas na periferia do Distrito Federal.

A mudança não apenas deu ao trabalhador a oportunidade de exercer profissões tipicamente urbanas sem precisar migrar – mas, acima de tudo, pôs mais dinheiro em seu bolso. A renda média de uma família que vive da atividade agrícola tradicional é de 264 reais, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A de quem trocou a enxada por trabalho não-agrícola é de 543 reais. O maior poder de compra está ampliando o leque de serviços e bens de consumo. Está também melhorando a qualidade de vida no campo. Por onde se examine, o Brasil rural ficou mais parecido com o urbano. O número de aparelhos de televisão mais do que dobrou nos últimos dez anos. O mesmo ocorreu com a quantidade de banheiros nas residências. São confortos que ajudam a segurar o homem no meio rural. "Muitas pessoas passaram a usufruir uma maior variedade de bens e instalações, e isso pesa na hora de decidir ficar ou ir para a cidade", diz o demógrafo Fernando Albuquerque, do IBGE. Trabalho mais leve e melhor salário fazem muita diferença na vida de quem cresceu calejando as mãos debaixo do sol. Elza Maria da Costa largou o cabo da enxada há dois anos e, desde então, é cozinheira num pesqueiro no Vale do Ribeira, o rincão mais pobre do Estado de São Paulo. Na fazenda ganhava um salário mínimo, mantimentos e roupas usadas da família do patrão. Hoje recebe 350 reais mensais e passa o dia em um lugar coberto, "sem ter de tomar chuva e pegar vento". O salário dobrou a renda familiar (o marido é pedreiro), permitiu a compra de geladeira e fogão e que o filho Anderson, 16 anos, deixasse a lavoura e passasse a se dedicar apenas ao estudo.

 
Iolanda Seixas dependia da venda das verduras plantadas na chácara em que vive com a filha, Sabrina. Há dois anos, passou a fabricar biscoitos caseiros: sua renda pessoal aumentou para 800 reais mensais, o que permitiu a Sabrina cursar uma faculdade particular.

As grandes levas de retirantes rumo às cidades foram impulsionadas pela expansão dos empregos na construção civil e na indústria nos anos 60 e 70. A recessão nos anos 80 e os novos métodos industriais na década seguinte reduziram a procura pela mão-de-obra barata, mas pouco qualificada, que vinha do campo. A encrenca está no fato irreversível de que a agricultura moderna corta mão-de-obra no mesmo ritmo com que aumenta a produtividade. Uma máquina utilizada na colheita de cana-de-açúcar pode ser operada por apenas três pessoas e substitui pelo menos quarenta trabalhadores. No mesmo período em que desempregou milhões de pessoas, o campo brasileiro foi ficando cada vez mais próspero. O agribusiness nacional gera anualmente 200 bilhões de dólares – o equivalente ao PIB da Áustria. O Brasil é o maior exportador mundial de soja e suco de laranja, o terceiro em carne e frango. Só perde na produção de grãos para os Estados Unidos e a China. O que tem faltado ao campo brasileiro não é riqueza, mas fazê-la chegar também a quem lavra a terra ou tira leite das vacas. Pequenas propriedades empenhadas em culturas tradicionais, do tipo que se cria com a reforma agrária, podem resolver o problema de algumas famílias, mas não são uma solução completa. Faltam-lhes o cacife econômico e a economia em escala para competir com a produtividade das grandes empresas agropecuárias. É impressionante como uma resposta bem mais promissora surgiu sem depender de programas de governo ou de grandes articulações políticas ou empresariais.



Claudio Rossi
Criada no Vale do Ribeira, uma das áreas mais pobres do Estado de São Paulo, Elza da Costa largou a lavoura numa fazenda, onde recebia salário mínimo, roupa e comida, para se empregar na cozinha de um pesque-pague: o salário de 350 reais reforçou a renda familiar (o marido é pedreiro) e permitiu alugar uma casinha melhor, comprar fogão e geladeira, além da mobília. "Eu sempre namorava as poltronas nas Casas Bahia."


Os empregos e as oportunidades estão em setores como prestação de serviços, comércio, construção civil e a área social, que juntos correspondem a 85% de todo o novo leque de trabalho disponível nas áreas rurais. São na maior parte negócios de pequeno e médio porte que pipocaram de forma isolada pelo interior. Muitos, como os hotéis-fazendas e os pesque-pagues, pareciam no início apenas modismo, sem impacto econômico explícito. Talvez por isso a emergência e o crescimento espetacular dessa nova classe média rural tenham passado despercebidos pela maioria dos brasileiros, que vivem nas cidades e só prestam atenção no que acontece a sua volta. O Instituto de Economia Agrícola da Universidade Estadual de Campinas colocou recentemente o ponto final em um estudo que envolve 25 pesquisadores de outras dezesseis universidades em onze Estados – o Projeto Rurbano – cujo objetivo era exatamente descobrir por que o êxodo rural perdeu fôlego e se o processo de criação de novos tipos de emprego será duradouro. "Mantidas as atuais tendências, a maioria das pessoas residentes em áreas rurais estará ocupada em trabalhos não-agrícolas a partir de 2014", prevê o economista José Graziano, coordenador do Rurbano. Responsável pelo programa agrícola da candidatura de Luís Inácio Lula da Silva nas últimas três eleições presidenciais, Graziano diz que daqui em diante não será suficiente criar programas de ajuda para quem vive da enxada. Também é preciso estabelecer políticas específicas para o desenvolvimento dos novos setores de trabalho, como a capacitação de pessoal e a concessão de crédito para pequenos empreendedores.



Jader da Rocha
Rivair Alves da Silva, 22 anos, é filho do dono de uma pequena propriedade em Laranjeiras do Sul, no Paraná. A família, de dez pessoas, tem seis vacas, cinco cavalos e roças de arroz, feijão e milho. Em lugar de ir para a cidade, Rivair, que só cursou o primário, empregou-se como guia turístico num hotel-fazenda, a 40 quilômetros de Curitiba. Ganha 300 reais, comprou uma moto em sociedade com um colega. Seu plano é investir em cavalos e iniciar o próprio negócio.

Por onde se olhe, as mudanças no campo apontam para o sumiço do Jeca- tatu. O número de famílias com uma pessoa ocupada em tarefas não-agrícolas já supera o total de famílias exclusivamente voltadas para a agropecuária. A virada deu-se há dois anos. Impressiona que isso não esteja ocorrendo apenas nas imediações das metrópoles regionais, a rede de cidades prósperas que já vinha alterando as condições de vida e os hábitos da população do interior desde os anos 70. As mudanças no tipo de ocupação acontecem em verdadeiros grotões, dos quais só se esperavam atraso e reservas de mão-de-obra barata. O conceito de zona rural usado nos levantamentos do IBGE são as paisagens de fazendas, colônias, vilarejos com não mais de 250 habitantes distribuídos em até cinqüenta casas. Vivem nessas condições 8 milhões dos 42 milhões de famílias brasileiras. Somam 34 milhões de pessoas, quase uma Argentina. Trata-se da região mais dilapidada pela enorme transferência de população na segunda metade do século XX. É significativo que pela primeira vez desde os anos 40 a população adulta no campo tenha voltado a crescer a partir de 1992. A migração nesta década foi ainda considerável, de 9 milhões de pessoas

 

É muita gente, mas na década anterior foram 13 milhões e, nos anos 70, 14 milhões. "O quadro explosivo pintado para as grandes metrópoles no passado mudou completamente", acredita o demógrafo Fausto Brito, da Universidade Federal de Minas Gerais. Pela primeira vez em cinqüenta anos, alguns pólos de expulsão de habitantes estão tendo um saldo migratório positivo. A queda da população rural perdeu ritmo até no Nordeste. De 1986 a 1991, 720.000 nordestinos migraram para São Paulo. Entre 1991 e 1996, o volume caiu para 650.000 migrantes. O fenômeno não é homogêneo, contudo, e reflete as brutais desigualdades regionais. Minas Gerais, que junto com o Nordeste era uma das principais origens dos migrantes, atualmente importa mais do que exporta gente. Mas o Vale do Jequitinhonha, no norte do Estado, um dos grotões mais pobres, continua a expulsar seu povo. O vale abriga cidades que, nos últimos anos, perderam população. Itacambira tinha 8.000 habitantes em 1970 e agora só tem 4.500. É uma terra de "viúvas da seca" – as mulheres ficam em casa com os filhos, enquanto os maridos vão buscar o sustento da família nas lavouras de café do sul de Minas ou de cana-de-açúcar no norte de São Paulo. No Vale do Jequitinhonha e na maior parte do sertão do Nordeste não há pesqueiros, hotéis-fazendas ou criação de empregos em atividade não-agrícola. O que ocorre nos rincões de miséria mais profunda afeta para pior todas as estatísticas brasileiras. Isso explica, em parte, por que o campo surpreende quando produz notícias melhores.

Pedro Izídio de Souza viveu 24 de seus 54 anos em Brasília. Criado com onze irmãos no interior do Piauí, levava uma vida de biscates, em que radinho de pilha e sapato eram artigos de luxo. Voltou para a roça doze anos atrás e se empregou numa granja, a 30 quilômetros da capital federal. Em 1995, a granja quase quebrou e o dono decidiu mudar de ramo, abrindo um restaurante. O número de empregados subiu de quatro para 26. Izídio, que limpava o piso da granja, hoje é guia de turismo e gerente de produção do Trem da Serra, o restaurante que recebe 700 turistas por dia. Hoje são dez parentes trabalhando na mesma empresa – de motorista a garçom. Izídio leva para casa um salário de 1.500 reais. Com a ajuda da mulher, que é cozinheira, a família tem renda de classe média urbana. "O turismo foi a solução que me segurou no meio rural", diz ele. A criação de empregos e oportunidades no campo nunca será suficiente para estancar de vez o êxodo rural. O morador do campo não foge apenas da falta de trabalho. Os grandes centros funcionam como uma espécie de farol, atraindo as pessoas com sua promessa de oportunidades, lazer e educação.

Pobres ou ricos, todos os países convivem com níveis significativos de evasão do meio rural. Apesar de abrigarem a agricultura mais produtiva do planeta, os Estados Unidos ocupam diretamente na atividade agrícola apenas 1,5% da sua força de trabalho. Nos países da União Européia e no Japão, esse porcentual não ultrapassa os 6% e os governos praticamente pagam, por meio de subsídios, para que seus fazendeiros continuem no trabalho da agricultura. Nesses países, o morador da zona rural pode contar com educação, saúde e serviços comparáveis aos das áreas urbanas. "O mundo urbano e o agrícola vêm se fundindo desde os anos 60", diz Elizabeth Farina, professora de economia da Universidade de São Paulo. "Só que, nos países desenvolvidos, esse processo foi resultado de uma irradiação de riqueza e propiciou um desenvolvimento bastante equilibrado." O Brasil está reproduzindo tardiamente o processo de urbanização do universo agrícola. Mas, como era de esperar, do nosso jeito e com as nossas mazelas. É um alívio saber que já se melhorou o suficiente para desarmar a bomba do êxodo rural.

 

Com reportagem de José Edward, de Belo Horizonte, Gisela Sekeff
e
Nahara Bauchwitz, do Recife, Liege Fuentes, de Curitiba,
Rachel Verano e Gabriela Carelli






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