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É um triste espetáculo quando se pensa que esse governador, que comanda um Estado de primeira grandeza, sucede no posto a nomes como Milton Campos ou Juscelino Kubitschek. Imagine-se por um momento, como hipótese, que Itamar Franco tivesse sido levado a sério em sua pantomima de guerra civil. E ele chegou a ser levado a sério por alguns. "Itamar Franco provoca Cardoso e há riscos de confronto armado", anunciou o jornal La Nación, da Argentina. Mesmo sabendo-se que Itamar Franco é um político que esgota seu arsenal na encenação teatral, ele já causou problemas bem concretos no passado, quando, estouvadamente, decretou a moratória mineira ao tomar posse como governador de Estado. Com seu gesto, contribuiu para lançar o Brasil na crise cambial de 1999. Na semana passada, felizmente, a encenação do governador parece ter-se esgotado na leitura de manifestos guerreiros diante das câmaras de televisão. O factóide de Itamar consumiu-se a si próprio, sem maiores conseqüências, a não ser pela confirmação do diagnóstico que os brasileiros já haviam feito a seu respeito.
.O Supremo está com as portas abertas 24 horas aos governadores. Mas, se me permitir, é melhor antes fazer uma tentativa de entendimento aconselhou Velloso. .Como assim? Entendimento de que tipo? espantou-se Itamar. O ministro sugeriu ao governador que fizesse uma carta dizendo que a Polícia Militar se comprometia a proteger a fazenda. Itamar ficou de pensar. Voltou a ligar para Velloso à 1h30 da madrugada para dizer que continuava pensando. No dia seguinte, em tom marcial, Itamar deu publicidade a uma carta que encaminhara ao presidente dizendo que a presença de tropas do Exército em Buritis "desvirtuava as funções constitucionais das Forças Armadas para promover a defesa do patrimônio dos seus descendentes" e "agredia a moralidade pública". Por fim, dava um ultimato ao presidente: "Comunico-lhe que estarei aguardando a revogação da sua ordem arbitrária e ilegal no prazo de doze horas, quando, então, passarei a adotar as medidas que o caso comporta". Irritado com o desafio a sua autoridade, Fernando Henrique chamou o ultimato de "bazófia" e disse que o Exército deixaria Buritis assim que a PM assumisse a proteção da fazenda. O ultimato encerrava-se às 6 da manhã de quarta-feira. Mas nem a PM mineira o levou a sério. Policiais hospedados num hotel perto de Buritis, com a missão de cuidar do caso, só acordaram às 8, duas horas depois do fim do "ultimato". Passaram-se as doze horas e nada aconteceu. Nem o Exército deixou Buritis, nem a PM mineira chegou ao local, nem os sem-terra invadiram a propriedade. Mas, antes que o espetáculo acabasse por falta de emoção, Itamar mandou cercar o Palácio da Liberdade com aquela parafernália de guerra, formada por atiradores de elite, carro blindado, cães, UTI móvel e helicóptero. Com o bunker montado, o governador convocou a imprensa. Ao explicar por que transformara o palácio em fortaleza, comparou-se ao ex-presidente chileno Salvador Allende, que morreu no golpe militar de 1973, depois de o Palácio La Moneda ter sido metralhado até por aviões da Força Aérea chilena. Enigmático, Itamar disse que dispunha de "informações sigilosas" que justificavam sua cautela. Aproveitou para dizer que Fernando Henrique era "mentiroso deslavado" e "petit fou" (louquinho, em francês) e classificou os termos de sua carta de "burrice" e "petulância". Por fim, sacou nova provocação: informou que pedira à Procuradoria do Estado para achar uma forma legal de desapropriar a fazenda dos filhos de FHC. Método
e lógica Quando Itamar Franco resolve agir fora
do eixo, surgem duas interpretações majoritárias.
Para alguns, o governador defende seus pontos de vista com coragem
e apenas erra na forma que encontra para desfraldar suas bandeiras,
cometendo um exagero ou outro. Outros julgam que o ex-presidente
é mentalmente desequilibrado. Talvez a explicação
seja diferente. As ações estapafúrdias de Itamar
têm método, obedecem a uma lógica e seguem sempre
o mesmo padrão. Há, nelas, dois dados permanentes,
ou um alvo permanente com duas faces. O primeiro dado é o
presidente Fernando Henrique. Seja qual for o assunto, Itamar busca
uma forma de criticar o presidente que ele ajudou a eleger e para
quem perdeu os louros da criação do Plano Real. Na
estabilização econômica que se produziu no Brasil
a partir de 1994, Itamar ocupa apenas uma nota no pé da página.
Fernando Henrique ficou com as glórias de tudo. Outro dado
relevante: Fernando Henrique, embora tenha obtido o voto de 55,6%
do eleitorado mineiro, hoje tem o apoio de apenas um terço.
Ao criticá-lo, Itamar estaria se vingando do homem que o
superou e, ao mesmo tempo, procuraria representar a voz dos dois
terços que rejeitam a gestão do presidente. Esse é
um dos aspectos dos chiliques de Itamar. O outro é revelador:
ele sempre procura estar ao lado do que julga ser a aspiração
das massas. Equivoca-se freqüentemente nesse item, como na
ocasião em que conseguiu fazer a Volkswagen relançar
o Fusca, cuja produção já havia parado. Ou
quando decretou a moratória mineira. Mas continua tentando.
Com mais de dois séculos de existência, a PM mineira é uma instituição tradicional, com uma história de luta em defesa dos interesses do Estado. Com essa biografia, a PM serve como caixa de ressonância eficiente para amplificar o discurso recorrente do governador em favor de Minas, da tradição de Minas, dos valores de Minas. Pouco depois de assumir o governo, Itamar mandou um afago para suas legiões militares: anistiou os 185 PMs que, em 1997, participaram do levante salarial armado que acabou com um morto. Em julho passado, apesar da perspectiva de fechar o ano com um déficit de 1,2 bilhão de reais, o dobro do rombo registrado em 1998, Itamar deu um aumento médio de 28% ao funcionalismo público. De novo, uniu os dois elementos que não saem de sua cabeça. Primeiro, fustigou o presidente Fernando Henrique, que mantém o funcionalismo federal a seco. Segundo, privilegiou a PM, cujo aumento salarial médio foi bastante superior, de 76%. (O peso dos militares na folha de pagamento do pessoal da ativa aumentou de 20% para 25%, enquanto a participação dos funcionários da educação caiu de 61% para 58%.) Watergate Com a invenção do confronto com tropas federais em Buritis na semana passada, Itamar Franco conseguiu o que queria: mais uma vez, aliou seu eterno empenho em espicaçar o presidente com a velha exaltação à força policial capaz de garantir que Minas não se curvará. Sua estratégia pode parecer descabida, na medida em que é intrinsecamente irresponsável, mas o fato é que tem dado certo entre o eleitorado mineiro. As pesquisas de popularidade indicam que, somando-se os eleitores que acham seu governo "ótimo", "bom" ou "regular", Itamar conta com o apoio de quase dois terços da população. "Os mineiros têm a sensação de que Itamar erra no varejo, mas acerta no atacado", interpreta o cientista político Marcos Coimbra, diretor do Vox Populi e morador de Belo Horizonte. A dificuldade para Itamar é que a repetição da estratégia de bater em FHC e afagar a PM, ou afagar a PM e bater em FHC, uma hora acabará revelando, mesmo para seus admiradores mais fiéis, seu aspecto de factóide inconseqüente. "Do ponto de vista de políticas públicas, o governo Itamar não existe", diz o cientista político Carlos Ranulfo de Melo, da Universidade Federal de Minas Gerais. Até sua imagem de homem íntegro e honesto tem sofrido arranhões laterais devido à ação de terceiros encastelados no governo mineiro. Nos últimos doze meses, o governo produziu pelo menos dez escândalos de corrupção, como compras superfaturadas e licitações fraudulentas, num ritmo de quase um escândalo novo por mês. São arranhões apenas laterais porque não envolvem o governador ou funcionários de sua confiança pessoal, e sim pessoas ligadas ao velho e garboso Newton Cardoso. E, afinal de contas, para quem aceitou ser candidato a vice-presidente de Fernando Collor de Mello, ter Newtão como seu vice-governador não é nenhum ineditismo. Inédita, esta sim, foi a tentativa do deputado estadual da oposição Amilcar Martins de aproveitar a onda de confusão provocada pelo governador para enrolá-lo também no aspecto das finanças pessoais. Itamar colocou à venda por 1 milhão de reais um apartamento que possui em Washington. O imóvel localizado naquele prédio famoso que deu nome ao escândalo Watergate, por ter sido invadido por assessores do então presidente americano Richard Nixon foi comprado em novembro de 1998 e não aparece relacionado na declaração de bens que Itamar registrou em cartório no mês seguinte, antes de assumir o governo. Por isso, Martins protocolou na Assembléia Legislativa denúncia contra o governador por crime de responsabilidade. Pelo que indicam as evidências, nesse caso não há nada que comprometa Itamar. Dois especialistas em questões tributárias garantem que um governador eleito tem de apresentar cópia da lista de bens de sua última declaração de rendimentos entregue ao Fisco na qual, evidentemente, não poderia constar um imóvel recém-adquirido. A favor dessa tese pesa também o fato de que, durante toda a sua vida pública, por mais histriônicos que tenham sido muitos episódios protagonizados por Itamar, não há um que lance dúvidas sobre sua honestidade.
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