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Ilustração Pepe Casals


Estou de cama, com febre olímpica. Não uma febre metafórica, mas real: 38,1 graus. Dizem que é uma epidemia de gripe trazida à Europa por técnicos e jornalistas que visitaram a Austrália antes dos Jogos. A TV italiana promete vinte horas de transmissões diárias sobre as Olimpíadas. Por causa do fuso horário, os melhores eventos acontecerão de madrugada. Nesse ponto, dei uma sorte danada. Minha mulher, prestes a parir, está com a mucosa nasal inchada e ronca sem parar. Aproveitarei as noites insones para seguir as eliminatórias de remo, pólo aquático e esgrima, esportes em que os italianos tradicionalmente ganham medalhas.

Por falar em medalhas, apostei 50 reais que o Brasil ganhará uma de ouro, três de prata e duas de bronze. Os outros apostadores são mais otimistas. Chegam a prever cinco medalhas de ouro. Sou obrigado a torcer contra, infelizmente. Considero mais importante faturar o dinheiro das apostas do que comemorar uma medalha de vôlei de praia a mais. Sei que esse tipo de raciocínio mercenário não tem nada a ver com o espírito olímpico. De fato, o esporte vive dando exemplos edificantes à sociedade, como o tenista que se recusa a contrariar o patrocinador, ou o técnico que ganha comissões na compra e venda de jogadores, ou a fábrica de materiais esportivos que paga 2 dólares por dia a um trabalhador indonésio. Segundo um relatório da Casa Branca, 90% dos atletas olímpicos usam alguma forma de doping. E, num esporte não olímpico como a Fórmula 1, um bombeiro de Monza morreu no último domingo, atingido por um pneu, e os dirigentes do autódromo esconderam a notícia para não atrapalhar a corrida.

Esse negócio de apostas pode ser altamente rentável. Na semana passada, eu soube, com um dia de antecedência, o nome do vencedor do festival de cinema de Veneza. Foi uma casualidade. Eu jantava com um membro da delegação iraniana, quando ele recebeu um telefonema do Ministério da Cultura de seu país, festejando a decisão do júri de premiar O Círculo, de Jafar Panahi. Teoricamente, a fita acusa a teocracia iraniana de reprimir as mulheres. Achei estranho que a vitória de um filme de oposição fosse comemorada por um órgão oficial como o Ministério da Cultura, mas o Irã é um país curioso: até o presidente é visto como oposicionista. O fato é que, com essa informação privilegiada nas mãos, apostei com outros jornalistas o nome do vencedor do Leão de Ouro e consegui embolsar umas liras.

O segundo prêmio do festival de Veneza foi para uma produção ambientada em outro país desastrado: Cuba. Conta a perseguição da ditadura castrista contra um poeta homossexual que se suicidou na cadeia. O terceiro prêmio foi para um filme que denuncia os conflitos étnicos e religiosos da Índia. O quarto prêmio retrata os pistoleiros de Medellín, na Colômbia. Esse é o grande azar do Brasil: somos desastrados, mas não o suficiente para conquistar a benevolência internacional. Talvez o plebiscito da CNBB sobre a dívida externa dê um jeito nessa questão, garantindo, finalmente, o destaque que merecemos, ao lado de Irã, Cuba, Índia e Colômbia.

 

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