Abaixo a
ditadura
O escritor peruano adverte: a retomada dos
valores democráticos na América Latina
não eliminou a sua
tradição autoritária
Carlos Graieb
Oscar Cabral
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"Minha
obra tem
um fio que a
atravessa de ponta
a ponta: o
repúdio visceral a toda forma de repressão"
|
Aos 64 anos, Mario Vargas Llosa não é apenas um
importante escritor peruano: ele é um dos nomes-chave de
toda a literatura contemporânea, candidato perpétuo
à conquista de um Prêmio Nobel. Seu mais recente
romance, A Festa do Bode, está sendo lançado
no Brasil nesta semana (veja resenha).
Sucesso estrondoso nos países de língua espanhola,
o livro oferece um retrato marcante do general Rafael Leónidas
Trujillo Molina, que governou a República Dominicana com
mão de ferro entre 1930 e 1961. Narra as atrocidades do
regime, revela os bastidores da conspiração que
acabou por tirar a vida do caudilho e prova que "as toxinas da
ditadura" demoram muito a ser eliminadas do corpo de uma nação.
Defensor do liberalismo, Vargas Llosa concorreu às eleições
presidenciais peruanas em 1990. Foi derrotado por Alberto Fujimori
e, desde então, vem fazendo oposição ao seu
governo, que se sustenta há dez anos. Nesta entrevista
a VEJA, concedida por telefone de Londres, onde Vargas Llosa fixou
residência, o escritor fala sobre a situação
política da América Latina, sobre sua formação
literária e sobre a cultura contemporânea.
Veja Por que escrever um romance sobre o ditador
dominicano Rafael Trujillo, quarenta anos depois de sua morte?
Vargas
Llosa Em primeiro lugar, porque Trujillo é um
personagem e tanto do ponto de vista literário. Nenhum
ditador latino-americano foi tão longe na violência
e na brutalidade. Seu serviço secreto era impiedoso e ele
utilizava o sexo como instrumento de dominação.
Deitava-se com as mulheres de seus correligionários para
provar que era senhor de tudo e de todos. Trujillo tinha, além
disso, uma paixão grotesca pelos rituais do poder, o que
dava ao seu regime um ar de opereta macabra. Ele também
era uma figura emblemática das mazelas latino-americanas.
Não há dúvida nenhuma de que nos últimos
vinte anos ocorreu uma retomada dos valores democráticos
na América Latina. Mas isso não significa que a
tradição autoritária que marca tão
profundamente a história da região esteja liquidada
de uma vez por todas. Basta observar a situação
de meu país, o Peru.
Veja O presidente peruano Alberto Fujimori encaixa-se
no figurino de ditador?
Vargas
Llosa Se um bicho tem focinho, quatro patas, balança
a cauda e late, só pode ser um cachorro, certo? Pois então.
Se um homem permanece no poder durante dez anos graças
a eleições fraudadas, se seu principal respaldo
são as Forças Armadas, se ele emprega um serviço
secreto que lembra a Gestapo, se pratica o assassinato, se controla
a imprensa e os meios de comunicação por meio de
chantagens e ameaças, então esse homem só
pode ser um ditador. Talvez estejamos diante de uma ditadura mais
refinada, mais astuta e hipócrita. Mas a violência
e a corrupção são as mesmas.
Veja As últimas eleições presidenciais
no Peru foram legitimadas por governos latino-americanos.
Vargas
Llosa A conduta dos governantes latino-americanos foi
covarde e cúmplice. Para justificar o respaldo que deram
a Fujimori, apesar das advertências feitas não somente
por peruanos, mas também pela Organização
dos Estados Americanos e por observadores independentes, recorreram
a um argumento pífio, o da "solidariedade continental".
Que espécie de solidariedade é essa, que consiste
em dar apoio a assassinos? Governos que se dizem democráticos
deveriam agir de acordo com os princípios da democracia,
e não segundo considerações geográficas.
Devo dizer, ainda, que quem mais me decepcionou nessa história
toda foi o presidente Fernando Henrique Cardoso. A admiração
que tinha por ele se esvaiu. É incompreensível que
alguém com a sua biografia de intelectual e democrata tenha
tomado esse caminho. É incrível que tenha sido o
Brasil o país que bloqueou as sanções contra
Fujimori e seu governo fraudulento, pedidas pelos Estados Unidos
e Canadá.
Veja Como o senhor viu a recente cúpula de
governantes latino-americanos, ocorrida há três semanas
em Brasília?
Vargas Llosa Como farsa, é claro. A ata do
evento diz que apenas os países democráticos podem
fazer parte da comunidade latino-americana. E, no entanto, lá
está o jamegão de Fujimori no final do documento.
Como levar essa cúpula a sério? Não gostaria
de ofender ninguém, mas também não posso
usar meias palavras: estamos diante de politicastros desprovidos
de princípios, que falam como papagaios apenas para fazer
ruído na mídia. Se a democracia estava em questão,
um governante ditatorial não poderia estar presente.
Veja Há saída para a América
Latina?
Vargas
Llosa Sim, claro que há. Há países
que vêm se saindo muito bem. É preciso comemorar,
por exemplo, o que aconteceu no México. Depois de 75 anos,
os mexicanos conseguiram derrubar, pelo voto, com métodos
pacíficos, um partido e um governo autoritários
que pareciam irremovíveis. O efeito dessa proeza será
benéfico para o resto do continente. Pensemos também
em nações da América Central. Estive muitas
vezes nessa região nas três décadas passadas,
quando a política se realizava a ferro e fogo e tudo que
existia eram extremismos de direita e esquerda. Pois houve um
progresso considerável nos anos recentes. Os antigos guerrilheiros
estão nos parlamentos atualmente. Mesmo na República
Dominicana, terra de Trujillo, o bem-estar social é hoje
consideravelmente maior. Embora haja um ou outro retrocesso, existem
muitas razões para ser otimista.
Veja Que conclusão extrair do episódio
da detenção do ex-ditador chileno Augusto Pinochet?
Vargas
Llosa Foi muito positivo. Especialmente para os chilenos,
que de outra forma jamais teriam ousado pôr em questão
a imunidade que Pinochet havia garantido para si próprio.
Além disso, a ação do juiz espanhol Baltasar
Garzón criou um precedente internacional muito importante.
Os tiranos em exercício e os aspirantes a tirano serão
obrigados a pensar duas vezes daqui para a frente. A comunidade
internacional poderá cobrar a conta de suas atrocidades,
ainda que em seus próprios países eles tenham corrompido
as leis para livrar-se de castigos.
Veja A ex-primeira-ministra inglesa, Margaret Thatcher,
deu muito apoio a Pinochet. O senhor, que a admirava, mudou de
idéia sobre ela?
Vargas
Llosa Morei na Inglaterra pela primeira vez no final
dos anos 70. Naquela época, a situação econômica
do país era terrível, por causa das políticas
estatizantes do governo trabalhista. Thatcher subiu ao poder e
privatizou empresas, abriu fronteiras comerciais e estimulou a
entrada de investimentos estrangeiros. Seu governo deu início
a mudanças extraordinárias no Ocidente inteiro.
Continuo a admirá-la por isso. Mas reconheço que
existem aspectos no legado e no modo de ser de Thatcher que é
preciso criticar. Ultimamente ela se isolou em posições
nacionalistas que são nefastas, como a luta contra a adesão
integral da Inglaterra à União Européia.
Foi também por nacionalismo que Thatcher apoiou Pinochet.
Ela acredita que os ingleses têm uma dívida de gratidão
com o Chile, por causa do apoio que o país lhes deu durante
a Guerra das Malvinas. É um equívoco. O nacionalismo
é uma cegueira a grande praga de nosso tempo.
Veja O senhor pensa em voltar a concorrer a uma eleição?
Vargas
Llosa
Não. Mas continuarei a participar da política na
condição de intelectual. Escrevo artigos e emito
opiniões. É o que basta.
Veja Antes de A Festa do Bode, o senhor já
havia escrito um outro romance sobre ditadura, Conversa na
Catedral. O que mudou entre o escritor daquela época
e o de hoje?
Vargas
Llosa
Há um intervalo de 25 anos entre um e outro livro,
e é claro que isso faz diferença. Mas diria que
minha obra tem um fio que a atravessa de cabo a rabo: o rechaço
ao autoritarismo. Minha repugnância visceral aos tipos autoritários
vem de casa: meu pai era uma figura rígida, que impunha
sua vontade com mão de ferro. Com ele aprendi a ter medo,
o que não é exatamente uma lição agradável.
Além disso, cresci numa sociedade repressora e intolerante.
Quando estava passando da adolescência para a idade adulta,
o país era governado pelo general Manuel Odria, outro exemplo
perfeito de caudilho. A censura era pesada, os partidos políticos
eram ilegais e na Universidade San Marcos, onde estudei, o clima
era de enorme desconfiança, já que havia policiais
disfarçados matriculados nos cursos e professores e alunos
podiam ser delatados e presos. Conversa na Catedral fala
desse ambiente político em que cresci.
Veja O senhor disse certa vez que só lhe interessavam
romances que tivessem sexo e violência. Por quê?
Vargas
Llosa
Essa frase vem de um ensaio que escrevi sobre o romance Madame
Bovary, do francês Gustave Flaubert. Para ser mais exato,
a idéia é que histórias desprovidas de sexo
e violência me dão uma impressão de irrealidade.
Afinal, esses são aspectos incontornáveis da vida
humana. Mas não me entenda mal: jamais pensei que sexo
e violência são os dois únicos temas dignos
de entrar na ficção.
Veja O senhor também costuma dizer que é
um autor "mais extenso que intenso". Que quer dizer com isso?
Vargas
Llosa
Quero dizer que me sinto mais próximo dos romancistas
"épicos", devotados a descrever a ação, do
que dos romancistas "líricos", que preferem esmiuçar
a psicologia dos personagens. É claro que o mundo interior
é importante. Mas creio que os atos são mais importantes
para a ficção. Posso até admirar as obras
de Henry James, um autor psicológico por excelência.
Mas jamais escreveria como ele.
Veja O francês Gustave Flaubert e o americano
William Faulkner continuam sendo seus gurus literários?
Vargas
Llosa
Posso dizer que sim. É claro que há muitos
outros que admiro, de Tolstoi a Malraux, mas esses dois me proporcionaram
muitas horas de prazer, além de terem servido como "professores".
Lendo-os, descobri qual era o tipo de escritor que desejava ser.
Graças a Faulkner percebi o valor da forma na literatura
o fato de que a estrutura e a linguagem são tão
importantes quanto o enredo. Flaubert ensinou-me a técnica
da objetividade, e também a ter disciplina.
Veja O senhor é mais intuitivo ou disciplinado?
Vargas
Llosa
Disciplinado. Para mim, nunca é fácil escrever.
Todas as minhas obras são produto de um grande esforço.
Dependo de horários estritos, de muita concentração.
Vale para mim aquela frase atribuída a Bernard Shaw: "O
talento é 10% de inspiração e 90% de transpiração".
Veja Anos atrás, o senhor escreveu um livro
sobre o escritor colombiano Gabriel García Márquez.
Por que nunca reeditou essa obra?
Vargas
Llosa
Porque o livro perdeu a atualidade. Quando o escrevi, Márquez
só havia publicado Cem Anos de Solidão. Como
fez muito mais depois disso, atualizar meu estudo requereria muito
tempo e trabalho.
Veja O fato de ele e o senhor ocuparem lados opostos
no espectro político não tem nada a ver com isso?
Vargas
Llosa
Um pouco, devo admitir. Para refazer o livro, teria de mostrar
minhas discrepâncias com relação às
opiniões políticas de Márquez, seu apoio
a governos ditatoriais de esquerda como o de Fidel Castro. Aliás,
esse é um assunto que merece discussão: um grande
talento literário que, ao mesmo tempo, exibe uma total
cegueira política.
Veja Num artigo recente, o senhor diz que o sonho
de uma cultura democrática e não-elitista deu errado.
Por quê?
Vargas
Llosa
Porque o nível da cultura de massa é cada
vez mais baixo. Todas as semanas, consulto as listas de mais vendidos
da Inglaterra e dos Estados Unidos e elas me causam horror. Tudo
que as pessoas lêem é lixo.
Veja O senhor incluiria aí o fenômeno
infantil Harry Potter?
Vargas
Llosa
Não li os livros, por isso não vou fazer julgamentos.
Mas confesso que tenho alguma simpatia pelo fenômeno. Os
livros da escritora J.K. Rowling não são produtos
artificiais, não saíram da cabeça de um marqueteiro.
Além disso, foram as próprias crianças que
os leram e converteram em best-seller. É delicioso perceber
que a leitura ainda não se extinguiu como forma de entretenimento.
Veja O senhor freqüentemente é descrito
como um homem sedutor e vaidoso. A passagem do tempo o incomoda?
Vargas
Llosa
Ninguém fica contente com a passagem do tempo. Mas
a vantagem do trabalho intelectual é que pode ser feito
mesmo na velhice. Por outro lado, creio que é importante,
por respeito a si próprio e ao trato social, lutar contra
a deterioração. Sem chegar à coqueteria idiota
de dedicar sua vida a isso, devemos cuidar um pouco do corpo,
fazer um pouco de esportes. O corpo merece o mesmo respeito que
o intelecto. Aliás, se existe algo que admiro nos brasileiros
é isso: a consciência de que o corpo é algo
respeitável e admirável. É o contrário
do que acontece em países como o meu, onde o corpo é
somente motivo de vergonha.