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O Brasil é muito maior do que há vinte anos. A população cresceu 40%. O PIB, 55%. O país ficou mais complexo. E a complexidade não vem do tamanho. Vem do aumento das possibilidades de interação, alinhamento e realinhamento, desorganização e reorganização, na sociedade, na política e na economia. A economia ficou mais aberta, há mais o que vender e o que comprar e mais agentes econômicos, produtores e consumidores. Superamos duas décadas de inflação crônica, viabilizando ações econômicas que se desdobram no tempo com previsibilidade. As empresas ficaram menos hierarquizadas, há mais espaço para pensar e cooperar. A sociedade é mais livre e democrática, tem mais capacidade de mobilização e reivindicação. O governo ficou mais democrático, o Congresso mais poderoso, o Judiciário mais autônomo. O país está se descentralizando. Pequenas e médias cidades estão mais dinâmicas, mais independentes, têm maior potencial. O número de faculdades no interior cresceu tremendamente. Os estudantes estão deixando de migrar de suas cidades para estudar e as relações sociais no interior estão ficando mais ricas, mais intensas e mais tensas. "Microdecisões" tiveram um baita "macroimpacto". Exemplo: milhões de mulheres, nos últimos vinte anos, decidiram controlar a natalidade, por influência de diversos fatores locais e afetaram dramaticamente a demografia nacional. Provocaram uma ruptura, criando um novo contexto demográfico, com enormes e positivas conseqüências econômicas e sociais. É esta súbita explosão de complexidade, de novas e imprevisíveis possibilidades, que leva o país a bifurcações que, literalmente, nos deixam à beira do caos. Mudanças locais que parecem pequenas fazem parte e são até causa de grandes transformações na sociedade como um todo. Há ainda muitas contradições entre a velha ordem que não se foi e a ordem emergente. Na política, assistimos ao confronto entre os interesses de forças poentes e emergentes gerando perdas, ganhos, frustrações e ressentimentos. Esses processos determinam reações e adaptações, que levam a novas mudanças. É impossível captar o processo global de mudança, e mesmo a sua direção, a partir de eventos isolados que se multiplicam, todos os dias, todas as horas, pelo país. São processos e comportamentos emergentes cujas conseqüências não são óbvias e podem ser surpreendentes. Somente olhando o todo é possível "enxergar" a nova ordem, na desordem provocada por tanta mudança. A vida de cada parte da sociedade, examinada isoladamente, tem uma configuração diferente daquela que assume quando vista como parte do todo. Claro, a mudança não é igual para todos. É assimétrica e muito desigual. A experiência vivida por cada um de nós, no plano local, às vezes nos impede de ver o que está ocorrendo no plano mais geral. O comportamento das partes é diferente do comportamento do sistema social como um todo. Mas quando a mudança atinge certos patamares localmente, ela se propaga com vigor e rapidez por todo o sistema. A gente não vê essa mudança toda e, principalmente, que ela nos está levando para uma situação melhor, porque é difícil mesmo de ver e para muitos ela ainda é causa de desconforto e até piora. Não dá para ver o macro do nosso microuniverso, no qual experimentamos situações muito diferenciadas e que somadas não dão o todo. O Brasil é hoje maior e diferente da simples soma de todos nós.
Sérgio Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)
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