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Betinho
com o retrato feito de grãos por Siron Franco: alegria |
| Foto: Oscar Cabral |
Ao morrer, pouco
antes de completar 62 anos, no último sábado, 9 de
agosto
numa noite que embrulhou o Rio de Janeiro de frio
, Betinho
tinha conseguido depurar a sua vida de todos os
supérfluos. Voltava a ser, apenas, Betinho. A imprensa
não precisava mais qualificá-lo de sociólogo para
justificar, ou explicar, sua estatura nacional. "A
única utilidade de ser sociólogo", garantia
Betinho, "é que soa bem. As recepcionistas acham
bonito quando você preenche a ficha de registro num
hotel."
Com isso, também ficava poupado de tentar
explicar a sua verdadeira profissão, que não existe. Ou
melhor, só existiu para ele: articulador do possível. O
próprio nome que trazia nos documentos de identidade, e
de exílio

Charge:
Erthal/Henfil
Fradim
e sua turma comemoram: chegou o irmão do Henfil
Herbert de Souza
, foi ficando dispensável. Para o
Brasil inteiro, quem morreu, no sábado de frio, foi
Betinho. Foi com esse apelido de menino que solta pipa
que ele conseguiu desentorpecer o país, cutucar o ar
invejoso do poder nacional, alfabetizar quem esqueceu que
"fome", "cidadão", "terra"
e "emprego" são substantivos, e, no caminho,
ainda alegrar multidões. Conseguiu tudo isso, e muito
mais, sendo hemofílico e portador do vírus da Aids há
onze anos. Jamais perdeu o fino senso de humor e a
alegria com as coisas da vida. Nesse sentido, não deveu
nada a dois de seus conterrâneos mais ilustres
Juscelino
Kubitschek e Tancredo Neves. Como bom mineiro, adorava
ouvir e contar histórias. VEJA conta algumas vinhetas de
sua vida:
O mendigo do sashimi
Almoçar ou jantar com o idealizador da Campanha contra a Fome era duro para glutões assumidos. Betinho pedia meia porção e, invariavelmente, acabava convencendo seu parceiro de mesa a rachar um prato. Quem ousaria pedir uma porção inteira? Freqüentador assíduo do restaurante japonês Kampai, situado no térreo da atual sede do Ibase, Betinho nem precisava mandar embrulhar o que porventura sobrasse. Já era automático. Certa vez, saiu de lá com o excedente de meia porção de sashimi. Feliz da vida, depositou o embrulho ao lado de um mendigo que dormia na calçada e seguiu em frente, empolgado com alguma idéia nova. Se tivesse olhado para trás, teria visto o mendigo acordar, abrir a quentinha e olhar intrigado para quatro fiapos de peixe cru.
Orador de arromba
Betinho provocava tietagem explícita quando falava. Certa vez, ao final de um debate na PUC, recebeu uma salva de palmas tão intensa dos 3.000 estudantes presentes que deixou escapar um "Oba, isso me dá vida por mais um tempão". Resultado: a garotada dobrou os aplausos e teria ficado ali até Betinho receber vitamina humana para mais 100 anos. Jamais usava projeção de slides, gráficos, textos de consulta ou as infames transparências que socorrem oradores burocratas. Tampouco preparava um discurso por escrito. As idéias iam se organizando no trânsito, já a caminho do pódio. Só precisava de um copo d'água e um microfone. A tietagem mais inesperada lhe chegou no Hotel Transamérica, em São Paulo, quando recebeu o premio Eco 94, da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos. Fez um discurso de arromba para a platéia de empresários e concluiu com um "Quero sonhar acordado. Quero poder anunciar ainda em vida para o meu filho de 12 anos (idade de Henrique, na época) que o Brasil começou a mudar". Os comensais aplaudiram de pé, os cumprimentos se alongaram, e Betinho precisou ir ao banheiro. Lá dentro, foi abordado de supetão por um industrial de terno e gravata: "Sei que aqui não é o lugar mais adequado, mas quero lhe dizer que você me emocionou."
Maria Bonita
"Olha a Maria,
com um vestido de florzinha!", diz Betinho,
maravilhado, ao ver sua mulher com vestido novo. Qual o
marido que nota um discreto vestido novo de florzinha
depois de quase trinta anos de casado? A cumplicidade
entre Betinho e Maria Nakano era total. Nascida numa
família de nove irmãos, ela jamais conheceu o Japão, a
terra dos pais, budistas. Mas trouxe para o dia-a-dia de
Betinho uma serenidade oriental que o ajudou na vida como
na morte. O telefone de sua casa começava a tocar de
manhã, com plantonistas do Brasil inteiro pedindo a
opinião do marido sobre notícias da véspera.
Inflação, funcionalismo, concurso de miss, valia tudo.
"Mas que Bianca é essa?", perguntou Betinho,
atônito, no dia em que uma revista queria que ele fosse
até Angra dos Reis encontrar-se com a "ativista
social" Bianca Jagger. Maria só entrava em cena
quando Betinho atolava além da conta. Como na vez em que
ele conseguiu chegar atrasado a um encontro com Rigoberta
Menchu (a quem chamava, fraternalmente, de Dagoberta
Fumanchu)
em sua própria casa! A guatemalteca Menchu,
prêmio Nobel da Paz de 1992, aguardava pacientemente na
sala, enquanto ele não parava de falar para a Rádio
Guaíba, no quarto ao lado.
Ninguém melhor do
que Maria para ajudar Betinho a morrer como queria
em casa,
no seu quarto com vista para o Corcovado e várias
favelas, ao lado da família e amigos mais queridos.
Henrique, o filho agora com 15 anos que teve com Maria,
não esqueceu de lhe colocar a adorada caneta Caran
d'Ache no bolso da camisa e o relógio de estimação no
pulso. Não fossem os tubos de oxigênio industrial
estocados na sala, nada ali sugeria emergência. Maria
deu à morte de Betinho a serenidade que lhe dedicou em
vida.
Nobel de chupeta
Indicado para o Prêmio Nobel da Paz em 1994, Betinho adorava arrolar alguns de seus "pecados biográficos capitais", incompatíveis com a pose do prêmio. Um dos mais graves foi ter caído na armadilha do irmão Henfil, que fora visitá-lo no exílio do Canadá. Henfil, de Polaroid na mão, inventou que todo mundo iria posar para uma sessão de fotos ridículas. Começou por Betinho. Fabricou um laçarote de papel, prendeu-o no topo da calvície emergente do irmão, tirou uma chupeta do bolso, colocou-a em sua boca e clicou. Betinho tinha 40 anos, na época, e passou os 21 anos restantes com medo de que a foto caísse nas mãos da imprensa. "Perco o Nobel, se o pessoal de lá vê isso."
Depois havia a
questão do seu currículo. Como explicar aos nobres do
Nobel que ele escreveu um artigo em parceria com o
cientista político René Dreifuss sob o pseudônimo de
Mike Burgers
uma marca de enlatados escoceses
quando
estava de passagem pela Escócia, exilado? Como explicar
o branco de vários anos de clandestinidade, em idade
produtiva, quando não teve emprego algum? Poderia
enfeitar, é claro. Sua desastrada fase maoísta
quando
quase se matou querendo ser operário, como carregador de
caixotes numa fábrica de louças
poderia
virar "pesquisa de campo das condições laboriais
na indústria de cerâmica".
Mas e se ganhasse? "Vou dar 300.000 dólares para a família ficar bem, e com o resto compro uma rádio que vai se chamar Rádio do Cidadão. Setecentos mil dólares dá para comprar uma rádio, não dá? E, se eu não ganhar, compro um radinho de pilha." Discorre sobre a força da rádio. Betinho fala, brinca, provoca, pensa a sério, imita o discurso em inglês, a viagem de volta, com o milhão na mão, de primeira classe.
Os vencedores do Nobel daquele ano foram os israelenses Yitzhak Rabin e Shimon Peres e o palestino Yasser Arafat.
Do outro lado da vida
Betinho não teria
aprovado o caixão modelo Itamarati, feito de
peroba-de-campos, com forro interno de cetim branco, que
a Santa Casa de Misericórdia gentilmente ofereceu à
família. Conhecia tudo de caixões
dos 9 aos
15 anos de idade freqüentou assiduamente a funerária da
Santa Casa de Belo Horizonte, da qual o pai foi
administrador. Sabia distinguir o Extra-Horizonte, modelo
topo de linha, de jacarandá e seis alças
douradíssimas, dos modelos Embaixador, Esplanada ou
Baronesa. Tinha teorias várias a respeito de caixões e
seus ocupantes
todas divertidas, jamais cínicas. Para ele
mesmo, porém, não queria caixão algum, "para não
ficar ali dentro, confinado e apodrecendo". Daí as
instruções para ser cremado. "Ele gostaria de
ficar vivo ou com as cinzas espalhadas por aí",
explicou Daniel, o filho mais velho.
Betinho também sustentava que não ficava bem ele morrer no apartamento da Rua Góis Monteiro, no bairro de Botafogo, onde morou até o ano passado. O edifício se chamava Marajá e o Góis Monteiro, da rua, foi um militar. Pior, um general. "Já pensou o que vão dizer?", brincava. Morreu no apartamento novo, da Rua Vicente de Sousa, personagem do final do século passado. Tudo a ver. Além de professor, Vicente de Sousa foi fundador e redator da revista Democracia.
As cinzas de Betinho serão espalhadas no sítio que construiu em Itatiaia, em regime de mutirão afetivo. Chamava o lugar de Paraíso. Do outro lado da serra, já é Minas. "Betinho é capaz de atravessar jacaré, mísseis e foguetes para chegar aonde precisa", explica o compositor e poeta Aldir Blanc, que o imortalizou na música O Bêbado e a Equilibrista. Do paraíso, Betinho certamente vai dar uma passada em Bocaiúva, onde nasceu.
Romário vapt-vupt
Dezembro de 1993, a
Campanha contra a Fome estava no auge, e Betinho era o
figurão nacional. Ainda assim, durante duas horas e
meia, ficou de molho no restaurante Tourão, da Barra da
Tijuca, aguardando Romário. O jogador o deixou
impressionado. "Um de seus seguranças, munido de
celular, me fazia chegar flashes do iminente desembarque
do homem
primeiro ele estava num helicóptero, depois
na altura da rua tal, até que chegou." O mineiro
Betinho admitiu uma ponta de inveja com a soberba de
Romário no trato com a imprensa. "Olhem aqui",
foi logo avisando o jogador, "eu vou sentar e
almoçar com o Betinho e não quero ser incomodado. Se
vocês quiserem alguma informação, aguardem a nossa
saída lá fora." A conversa foi vapt-vupt, com
Romário indo direto aos pontos e deixando a parte ética
da campanha de lado. Queria ajudar. Ao final, um de seus
amigos se materializou com um texto já impresso, que
serviu de comunicado à imprensa. "E o melhor é que
o texto era bom", lembrava Betinho. Dias depois,
chegava ao QG da Campanha contra a Fome um cheque de
4.500 reais, nominal para uma empresa que forneceria
1.000 cobertores. Assinado, Romário.
Utopia ambulante
Betinho sempre proclamou que perdeu a fé aos 27 anos, por obra de um psiquiatra maluco. Só Humberto Pereira, seu amigão e companheiro de Juventude Estudantil Católica, em Minas, e a irmã Tanda não conseguiam vê-lo completamente ateu. "Betinho é otimista, acredita no impossível, é uma utopia ambulante. Isso não é fé?", perguntava Humberto, anos atrás. A percepção de Maria Nakano soava mais convincente: "Eu o acompanhei em momentos de crise absoluta. Pude observar que não procurou se segurar em Deus". Quanto a Betinho, tratava do assunto com a despreocupação de quem sabia que tinha lugar garantido no céu.
Ontem eu
vi Deus
anunciou certo dia a uma colaboradora do
Ibase.
Ah, é?
Como foi?
Ele veio
me ver para reclamar que se eu continuasse com essa bola
toda, animando esse Brasil todo, ele iria perder o
emprego.
Betinho não quis cruzes nem velas no enterro, e seus amigos se despedem dele com uma salva de palmas.
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