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Edição 2074

20 de agosto de 2008
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Diogo Mainardi
Dantas, o aborrecido

"O que fez Daniel Dantas na CPI dos Grampos?
Contando com o medo e com o espantoso
despreparo dos parlamentares, fez o mesmo
de sempre: falou apenas pela metade.
Ou metade da metade. Depois negou"

Meu filho torceu o pé. Ainda bem. Parei de assistir ao depoimento de Daniel Dantas na CPI dos Grampos e fui pegá-lo na escola. Se meu filho torcesse o pé mais vezes, minha rotina seria infinitamente mais gratificante: mais tempo com ele e menos tempo com Daniel Dantas.

O que penso sobre Daniel Dantas é mais ou menos o que penso sobre Lula. Mas Daniel Dantas é mais aborrecido. Ele diz tudo pela metade. Depois nega. Quando foi preso, VEJA listou algumas perguntas que ele teria de responder. Imediatamente, juntei-me ao coro: "Fala, Dantas!". E o que ele fez no depoimento à CPI dos Grampos? Contando com o medo e com o espantoso despreparo dos parlamentares, fez o mesmo de sempre: falou apenas pela metade. Ou metade da metade. Depois negou.

Dois anos atrás, depois de interrogá-lo para a coluna, desisti de tentar arrancar respostas de Daniel Dantas. Era uma perda de tempo. Concluí que só a lei poderia obrigá-lo a esclarecer os negócios nebulosos em que ele se metera, dos tempos de Fernando Henrique Cardoso até hoje, com a compra da Brasil Telecom pela Oi. Por isso, comemorei quando ele foi preso. Ele e Naji Nahas.

Comemorei também por um fato pessoal, menorzinho. Eu sou pessoal. Eu sou menorzinho. Nos últimos anos, fiz uma montanha de artigos sobre o assunto, denunciando a promiscuidade entre as empresas de telefonia e o lulismo. Analisei cada detalhe dos documentos que recebi. Um dia, depois de esgotar o tema, enfiei o material numa pasta e encaminhei-o ao Ministério Público Federal. Mais especificamente, ao procurador Rodrigo de Grandis. Quando Daniel Dantas e Naji Nahas foram presos, descobri que o procurador conduzia o inquérito contra os dois. Como confio inteiramente nele, sei que algumas de minhas perguntas agora podem ser respondidas.

Na CPI dos Grampos, falou-se sobre a Kroll. Acompanhei de perto essa história. Daniel Dantas espionou a Telecom Italia. A Telecom Italia reagiu espionando Daniel Dantas. A magistratura italiana está processando a turma da Telecom Italia. À magistratura brasileira cabe processar Daniel Dantas. Simples? Simples. Em seu depoimento, Daniel Dantas se apropriou malandramente de uma das teses de seus inimigos: a de que o processo italiano o inocentaria. É mentira. O Ministério Público italiano demonstrou que Daniel Dantas foi espionado, mas o que consta de todos os documentos é que ele também mandou espionar, e mandou espionar antes. Por que Daniel Dantas se defende citando o processo italiano? Porque ele sabe que ninguém pretende tocar num assunto que pode importunar o governo. O álibi perfeito.

O pé de meu filho sarou. Obrigado pelo interesse. O procurador Rodrigo de Grandis continua trabalhando. Eu sei disso. Daniel Dantas ainda é uma perda de tempo. Esgotei o que eu tinha a dizer sobre ele.

 

 



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