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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro
Por
que defendo
o Provão
"Sem
o Provão, estaremos
condenados
a voltar às trevas
da
ignorância e da superstição"
O
Provão é um pára-raios de besteiras e equívocos.
Há a ignorância honesta. E há a pseudo-ignorância
dos que jogam para as platéias.
Não
queremos uma medida que ranqueie os cursos. Toda medida compara.
E comparamos o tempo todo: futebol, Fórmula 1, as melhores
empresas etc. Com que direito a educação escaparia
das comparações?
Por
que insistir em uma avaliação que desagrada aos educadores?
Errado. Recomendaram o Provão dez associações
de dirigentes e instituições de ensino superior, representando
o universo do ensino superior. Ainda mais importante: é um
direito da sociedade conhecer a qualidade dos cursos que preparam
a próxima geração. O desconforto de ser avaliado
é o ônus inerente à operação de
um curso.
Ilustração Ale Setti
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Por que medir os alunos e não a instituição?
Se quisermos saber, dentre dois carros, qual anda mais depressa,
podemos chamar um time de engenheiros para examinar o motor ou a
aerodinâmica e estimar a velocidade de cada um. Teremos várias
teorias e muitos debates. Mas podemos colocar os carros lado a lado,
acelerar e observar qual anda mais depressa. No primeiro caso, testamos
o processo. No segundo, o produto, o que gera um resultado mais
confiável. O mesmo vale para a educação. O
Provão dá o produto: quanto se aprendeu. Examinar
o curso o processo ajuda a entender o porquê
das diferenças, mas não mede bem o que se aprende
nele.
O
Provão não permite comparar áreas diferentes.
Assim é e assim tem de ser. Não há como
dizer se os filósofos dali são melhores que os dentistas
de acolá.
O
Provão só diz que um curso é melhor que outro,
não diz se o curso é bom ou mau. Qualquer nota
depende tanto da excelência dos alunos como da dificuldade
das provas. Por exemplo, as notas muito baixas dos cursos de matemática
podem ser devidas a expectativas irrealistas dos que redigiram as
provas. Se a prova é difícil demais, as pontuações
são baixas. Fixar normas para cada curso é uma tarefa
espinhosa em um país tão heterogêneo.
Alguns
cursos estão treinando os alunos para fazer o Provão.
Ótimo. Como quase todos os alunos estudam para as provas,
estudar para o Provão é bom, pois trata-se de um exame
de excelente qualidade, laboriosamente planejado pelos professores
das melhores universidades. É superior às provas usualmente
aplicadas durante o curso.
Por
que os cursos com E não foram fechados? Como não
é viável visitar 14.000
cursos, o Provão dá um sinal de alarme. Aquele que
tirou nota baixa deve ser visitado. Se a visita identifica um curso
insuficiente, cabe aplicar a lei. Mas só em uma ditadura
o ministro fecha cursos sem cumprir os ritos legais.
Como
é possível julgar um curso só por uma prova?
Se os testes fossem voláteis, as notas flutuariam de ano
a ano. Mas isso não acontece. Pela lei dos grandes números,
há notável estabilidade. Quando um curso dá
um salto para cima, quase sempre é porque fez um grande esforço
para melhorar.
Seria
muito melhor e mais justo fazer a auto-avaliação das
instituições. De fato, esse é um ótimo
mecanismo interno de discussão e mudança. Mas pensemos:
se o psicanalista contasse no clube as barbaridades que ouve, ninguém
lhe falaria a verdade. Assim é a auto-avaliação.
Se os resultados vão ser divulgados, todos mentirão.
São verazes apenas se ficarem entre quatro paredes. Só
que, não vindo a público, não ficamos sabendo
quais são os cursos bons.
O
Provão não leva a nada. Total inverdade. Há
uma coleção enorme de casos em que uma nota ruim gerou
um drástico processo de mudança dentro da instituição.
Além disso, os alunos já entenderam o que dizem as
notas. Nos cursos cuja nota subiu, acodem mais candidatos. Os que
baixaram têm menos.
O
Provão é muito imperfeito. Pura verdade. As notas
não constam do histórico escolar do estudante (por
decisão do Congresso). Algumas provas são excessivamente
técnicas. Não se considera a aptidão dos alunos
que entram (embora já seja possível estimar). E por
aí afora. Estamos condenados a infindáveis controvérsias
de interpretação e uso. Mas sem o Provão estaremos
condenados a voltar às trevas da ignorância e da superstição.
Claudio de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)
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