Edição 1816 . 20 de agosto de 2003

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Ponto de vista: Claudio de Moura Castro
Por que defendo
o Provão

"Sem o Provão, estaremos
condenados a voltar às trevas
da ignorância e da superstição"

O Provão é um pára-raios de besteiras e equívocos. Há a ignorância honesta. E há a pseudo-ignorância dos que jogam para as platéias.

Não queremos uma medida que ranqueie os cursos. Toda medida compara. E comparamos o tempo todo: futebol, Fórmula 1, as melhores empresas etc. Com que direito a educação escaparia das comparações?

Por que insistir em uma avaliação que desagrada aos educadores? Errado. Recomendaram o Provão dez associações de dirigentes e instituições de ensino superior, representando o universo do ensino superior. Ainda mais importante: é um direito da sociedade conhecer a qualidade dos cursos que preparam a próxima geração. O desconforto de ser avaliado é o ônus inerente à operação de um curso.

Ilustração Ale Setti


Por que medir os alunos e não a instituição?
Se quisermos saber, dentre dois carros, qual anda mais depressa, podemos chamar um time de engenheiros para examinar o motor ou a aerodinâmica e estimar a velocidade de cada um. Teremos várias teorias e muitos debates. Mas podemos colocar os carros lado a lado, acelerar e observar qual anda mais depressa. No primeiro caso, testamos o processo. No segundo, o produto, o que gera um resultado mais confiável. O mesmo vale para a educação. O Provão dá o produto: quanto se aprendeu. Examinar o curso – o processo – ajuda a entender o porquê das diferenças, mas não mede bem o que se aprende nele.

O Provão não permite comparar áreas diferentes. Assim é e assim tem de ser. Não há como dizer se os filósofos dali são melhores que os dentistas de acolá.

O Provão só diz que um curso é melhor que outro, não diz se o curso é bom ou mau. Qualquer nota depende tanto da excelência dos alunos como da dificuldade das provas. Por exemplo, as notas muito baixas dos cursos de matemática podem ser devidas a expectativas irrealistas dos que redigiram as provas. Se a prova é difícil demais, as pontuações são baixas. Fixar normas para cada curso é uma tarefa espinhosa em um país tão heterogêneo.

Alguns cursos estão treinando os alunos para fazer o Provão. Ótimo. Como quase todos os alunos estudam para as provas, estudar para o Provão é bom, pois trata-se de um exame de excelente qualidade, laboriosamente planejado pelos professores das melhores universidades. É superior às provas usualmente aplicadas durante o curso.

Por que os cursos com E não foram fechados? Como não é viável visitar 14.000 cursos, o Provão dá um sinal de alarme. Aquele que tirou nota baixa deve ser visitado. Se a visita identifica um curso insuficiente, cabe aplicar a lei. Mas só em uma ditadura o ministro fecha cursos sem cumprir os ritos legais.

Como é possível julgar um curso só por uma prova? Se os testes fossem voláteis, as notas flutuariam de ano a ano. Mas isso não acontece. Pela lei dos grandes números, há notável estabilidade. Quando um curso dá um salto para cima, quase sempre é porque fez um grande esforço para melhorar.

Seria muito melhor e mais justo fazer a auto-avaliação das instituições. De fato, esse é um ótimo mecanismo interno de discussão e mudança. Mas pensemos: se o psicanalista contasse no clube as barbaridades que ouve, ninguém lhe falaria a verdade. Assim é a auto-avaliação. Se os resultados vão ser divulgados, todos mentirão. São verazes apenas se ficarem entre quatro paredes. Só que, não vindo a público, não ficamos sabendo quais são os cursos bons.

O Provão não leva a nada. Total inverdade. Há uma coleção enorme de casos em que uma nota ruim gerou um drástico processo de mudança dentro da instituição. Além disso, os alunos já entenderam o que dizem as notas. Nos cursos cuja nota subiu, acodem mais candidatos. Os que baixaram têm menos.

O Provão é muito imperfeito. Pura verdade. As notas não constam do histórico escolar do estudante (por decisão do Congresso). Algumas provas são excessivamente técnicas. Não se considera a aptidão dos alunos que entram (embora já seja possível estimar). E por aí afora. Estamos condenados a infindáveis controvérsias de interpretação e uso. Mas sem o Provão estaremos condenados a voltar às trevas da ignorância e da superstição.


Claudio de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)

 
 
 
 
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