Edição 1816 . 20 de agosto de 2003

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Sobre veados, flamingos
e outros bichos

Duas notas e dois tipos de poder: o da
imagética
do ministro da Justiça e o da
casa
do patriarca da Globo

Acontece, que se vai fazer? Márcio Thomaz Bastos é dos mais respeitáveis integrantes do atual governo. Ostenta um passado de defesa de boas causas e de competência no exercício da profissão de advogado. Como ministro da Justiça, veio dar fôlego novo a um cargo deixado ao léu pelo governo passado. No entanto, coube a ele – que azar – formular a imagem mais estapafúrdia dos últimos tempos. Depois que um estudante jogou uma galinha preta em direção ao palanque onde estava a prefeita Marta Suplicy, numa cerimônia em São Paulo, afirmou, para enfatizar sua indignação: "Foi como se um homem estivesse falando e jogassem um veado". É muito azar. Azar do ministro, que por um bom tempo ficará associado à frase infeliz. Azar do estudante, que, se procurava seu momento de glória, foi de imediato eclipsado por um torpedo de muito maior alcance que uma simples galinha. E azar da prefeita, misturada de embrulho a um comentário que conferiu ao gesto do estudante conotações sexuais que a poucos ocorreria. A galinha, que na verdade nem chegou a atingi-la, foi mais inofensiva.

O melhor de tudo, no entanto, é a imagem em si. A de um veado cruzando os ares, o dorso dobrado em desespero, as patas desconjuntadas, em doido vôo em direção a um homem discursando. É puro delírio surrealista, bom para um filme de Buñuel. Em meio ao discurso, o homem, ao perceber o animal precipitando-se em sua direção, se interromperia com um grito: "Meu Deus, um veado!". A audiência sorriria, imaginando mais uma tirada de espírito do fecundo orador, antes de entrar em pânico. Salvador Dalí pintou tigres que saem da boca de peixes. Chagall fez noivas voar e acomodou vacas em telhados. O ministro, com sua imagem, alçou-se ao nível dos grandes. Seu veado contra o orador no palanque nada lhes fica a dever.

Caso se queira produzir a cena não em arte, mas na vida real, as dificuldades são consideráveis. O estudante que jogou a galinha comprou-a no Mercado Municipal de São Paulo. Lá não se vendem veados. Seria preciso capturar um no mato. Antes, seria de todo aconselhável requerer autorização do Ibama. Senão, corre-se o risco de uma cadeia firme, por crime inafiançável. Uma vez conseguido o veado, como lançá-lo? Uma possibilidade seria alugar um guindaste, içar o bicho e soltá-lo sobre o palanque. Outra, conseguir uma catapulta da qual dispará-lo. São ambas operações de envergadura, que chamam atenção, e por isso talvez inviabilizassem o projeto. Mas digamos que se conseguisse, e eis o veado nos ares. Que aconteceria? Desabando sobre o orador, ele o mataria. Ou, no mínimo, com seus frondosos cornos (nenhuma conotação sexual), lhe provocaria graves ferimentos. Não, ministro, atirar veado em homem não é o mesmo que atirar galinha em mulher. É muito pior.

• • •

No fundo, no fundo, a diferença entre o burguês e o aristocrata é que o aristocrata nunca vende a casa. Um burguês, e burguês aqui cobre desde o classe média média até o classe média alta, como se diz no Brasil, vive trocando de casa, ou de apartamento. Aristocrata que é aristocrata nasce e morre na mesma casa – ou castelo. Quando morre – supremo requinte – é enterrado nos próprios domínios. A princesa Diana repousa na herdade da família. No Brasil não há, salvo os Orleans e Bragança – que, ao que consta, não pretendem vender o Palácio Grão-Pará, na doce Petrópolis –, aristocratas. Mas há os que, lúcidos, sabem que, depois de acumular riqueza, o passo seguinte é perseguir os atributos da aristocracia. Ajuda muito. Duplica o prestígio e reforça o poder. E, entre esses atributos, o principal é a casa – uma casa que não só se imponha pelo tamanho e pela elegância, mas que transmita a idéia de raízes, de permanência, de continuidade. O banal sonho da casa própria da patuléia transmuda-se, no aristocrata, na fidelidade ao castelo.

Essas coisas vêm a propósito de Roberto Marinho. Ele morava numa mansão do nobre bairro do Cosme Velho – e atenção que se disse "nobre", não "rico"; "rico" é a Barra da Tijuca. No amplo terreno, cortado por um rio – nada menos que o Rio Carioca, com nome igual ao dos habitantes da cidade –, criava flamingos, araras, macacos e outros bichos. O patriarca da Globo ali estava fazia mais de meio século, marca pífia em termos europeus, mas de causar estupor no Brasil – e não se duvide de que a casa, e os bichos, e o rio contribuíram pesadamente para a mística do proprietário. Especialista no assunto, Roberto Marinho sabia que o poder emana, também, da casa em que se mora. No fim, não chegou a ser enterrado em seus domínios, mas foi velado neles – e assim, mesmo morto, se apresentou em escala superior ao comum dos mortos. Costumam chamar Machado de Assis, que morou ali perto, de "bruxo do Cosme Velho", apelido meio incompreensível num escritor tão racional e límpido. Roberto Marinho, o prestidigitador do poder e do prestígio, foi o verdadeiro bruxo do Cosme Velho.

 
 
 
 
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