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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Sobre veados, flamingos
e outros bichos
Duas
notas e
dois tipos de poder: o da
imagética do ministro da Justiça
e o da
casa do patriarca da Globo
Acontece,
que se vai fazer? Márcio Thomaz Bastos é dos mais
respeitáveis integrantes do atual governo. Ostenta um passado
de defesa de boas causas e de competência no exercício
da profissão de advogado. Como ministro da Justiça,
veio dar fôlego novo a um cargo deixado ao léu pelo
governo passado. No entanto, coube a ele que azar
formular a imagem mais estapafúrdia dos últimos tempos.
Depois que um estudante jogou uma galinha preta em direção
ao palanque onde estava a prefeita Marta Suplicy, numa cerimônia
em São Paulo, afirmou, para enfatizar sua indignação:
"Foi como se um homem estivesse falando e jogassem um veado". É
muito azar. Azar do ministro, que por um bom tempo ficará
associado à frase infeliz. Azar do estudante, que, se procurava
seu momento de glória, foi de imediato eclipsado por um torpedo
de muito maior alcance que uma simples galinha. E azar da prefeita,
misturada de embrulho a um comentário que conferiu ao gesto
do estudante conotações sexuais que a poucos ocorreria.
A galinha, que na verdade nem chegou a atingi-la, foi mais inofensiva.
O
melhor de tudo, no entanto, é a imagem em si. A de um veado
cruzando os ares, o dorso dobrado em desespero, as patas desconjuntadas,
em doido vôo em direção a um homem discursando.
É puro delírio surrealista, bom para um filme de Buñuel.
Em meio ao discurso, o homem, ao perceber o animal precipitando-se
em sua direção, se interromperia com um grito: "Meu
Deus, um veado!". A audiência sorriria, imaginando mais uma
tirada de espírito do fecundo orador, antes de entrar em
pânico. Salvador Dalí pintou tigres que saem da boca
de peixes. Chagall fez noivas voar e acomodou vacas em telhados.
O ministro, com sua imagem, alçou-se ao nível dos
grandes. Seu veado contra o orador no palanque nada lhes fica a
dever.
Caso
se queira produzir a cena não em arte, mas na vida real,
as dificuldades são consideráveis. O estudante que
jogou a galinha comprou-a no Mercado Municipal de São Paulo.
Lá não se vendem veados. Seria preciso capturar um
no mato. Antes, seria de todo aconselhável requerer autorização
do Ibama. Senão, corre-se o risco de uma cadeia firme, por
crime inafiançável. Uma vez conseguido o veado, como
lançá-lo? Uma possibilidade seria alugar um guindaste,
içar o bicho e soltá-lo sobre o palanque. Outra, conseguir
uma catapulta da qual dispará-lo. São ambas operações
de envergadura, que chamam atenção, e por isso talvez
inviabilizassem o projeto. Mas digamos que se conseguisse, e eis
o veado nos ares. Que aconteceria? Desabando sobre o orador, ele
o mataria. Ou, no mínimo, com seus frondosos cornos (nenhuma
conotação sexual), lhe provocaria graves ferimentos.
Não, ministro, atirar veado em homem não é
o mesmo que atirar galinha em mulher. É muito pior.
No
fundo, no fundo, a diferença entre o burguês e o aristocrata
é que o aristocrata nunca vende a casa. Um burguês,
e burguês aqui cobre desde o classe média média
até o classe média alta, como se diz no Brasil, vive
trocando de casa, ou de apartamento. Aristocrata que é aristocrata
nasce e morre na mesma casa ou castelo. Quando morre
supremo requinte é enterrado nos próprios domínios.
A princesa Diana repousa na herdade da família. No Brasil
não há, salvo os Orleans e Bragança
que, ao que consta, não pretendem vender o Palácio
Grão-Pará, na doce Petrópolis , aristocratas.
Mas há os que, lúcidos, sabem que, depois de acumular
riqueza, o passo seguinte é perseguir os atributos da aristocracia.
Ajuda muito. Duplica o prestígio e reforça o poder.
E, entre esses atributos, o principal é a casa uma
casa que não só se imponha pelo tamanho e pela elegância,
mas que transmita a idéia de raízes, de permanência,
de continuidade. O banal sonho da casa própria da patuléia
transmuda-se, no aristocrata, na fidelidade ao castelo.
Essas
coisas vêm a propósito de Roberto Marinho. Ele morava
numa mansão do nobre bairro do Cosme Velho e atenção
que se disse "nobre", não "rico"; "rico" é a Barra
da Tijuca. No amplo terreno, cortado por um rio nada menos
que o Rio Carioca, com nome igual ao dos habitantes da cidade ,
criava flamingos, araras, macacos e outros bichos. O patriarca da
Globo ali estava fazia mais de meio século, marca pífia
em termos europeus, mas de causar estupor no Brasil e não
se duvide de que a casa, e os bichos, e o rio contribuíram
pesadamente para a mística do proprietário. Especialista
no assunto, Roberto Marinho sabia que o poder emana, também,
da casa em que se mora. No fim, não chegou a ser enterrado
em seus domínios, mas foi velado neles e assim, mesmo
morto, se apresentou em escala superior ao comum dos mortos. Costumam
chamar Machado de Assis, que morou ali perto, de "bruxo do Cosme
Velho", apelido meio incompreensível num escritor tão
racional e límpido. Roberto Marinho, o prestidigitador do
poder e do prestígio, foi o verdadeiro bruxo do Cosme Velho.
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