Edição 1816 . 20 de agosto de 2003

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Livros
A América kafkiana

O primeiro romance de Kafka
sempre foi tido como otimista.
Mas pode não ser bem assim


Antonio Gonçalves Filho


Trechos do livro

Traduzir Franz Kafka (1883-1924) é um desafio para poucos – mas o Brasil está bem servido nesse quesito. Há anos o crítico Modesto Carone verte meticulosamente para o português a obra do escritor checo, que escrevia em alemão e é um dos pilares da literatura do século XX. Debruçando-se sobre um título que Carone ainda não traduziu, a professora de literatura Susana Kampff Lages também resolveu enfrentar a missão, e oferece agora aos leitores uma nova versão do primeiro romance que Kafka tentou escrever, e que deixou inacabado: O Desaparecido ou Amerika (Editora 34; 303 páginas; 43 reais). Condenado pelo autor antes da morte, esse texto fragmentado foi salvo da fogueira por seu amigo Max Brod, que o lançou em 1927. Vinte anos atrás, as interferências de Brod sobre o texto foram revistas numa importante edição crítica, que acabou por recuperar passagens excluídas ou ignoradas. Em sua tradução, Susana Kampff Lages não só usou essa edição recente como ainda a cotejou com as "sujeiras" do manuscrito – os rabiscos e correções de Kafka. Oferece, desse modo, uma versão remontada do livro em português.

A tradutora brasileira discorda em muitos pontos de Max Brod e sua edição de O Desaparecido. A começar pela idade do protagonista – que teria 17 anos, e não 16. Há outros detalhes. Kafka escreve "schmerzhaft" (doloroso), mas Max Brod editou o texto como "scherzhaft" (brincalhão). Erro de revisão? Pouco provável. A tradutora prefere o primeiro adjetivo e tem razão ao resgatar trechos suprimidos por Brod, principalmente diálogos travados no apartamento (ou bordel) da personagem Brunelda. Brod, além disso, trocou a ordem dos fragmentos legados por Kafka de forma arbitrária, conduzindo a história a um fecho inexistente. Seguindo a observação do escritor argentino Jorge Luis Borges, de que o traço mais característico da literatura de Kafka seria a inconclusão, Susana optou por não fugir dela – e, assim, ressaltou o caráter protocubista de O Desaparecido. Como Picasso, criador do cubismo na pintura, Kafka parece ter concluído que a fragmentação do mundo moderno não permite ver o homem de um único ponto de vista.

O jovem europeu Karl Rossmann, em sua jornada descendente pelos EUA, conhece o desemprego e a humilhação entre homens pouco dispostos a tolerar diferenças. Rejeitado por seus pais por ter engravidado uma empregada, ele é obrigado a atravessar o oceano e começar outra vida na América. Sofre mais que o Cândido de Voltaire. Sua primeira impressão sobre a Estátua da Liberdade é sintomática: ela seguraria uma espada no lugar da fulgurante tocha. Kafka jamais pisou na América. Essa troca pode ser ou não um tropeço involuntário, provocado por relatos de viagem que o conduziram a erros e a uma geografia tortuosa (Kafka confunde Costa Leste com Oeste). De qualquer forma, a espada é uma imagem de amarga desconfiança da América como oásis da liberdade. A prova vem logo nas páginas seguintes.

Dois meses após desembarcar, Karl conclui que entrou num teatro sem saída de emergência, o do mundo americano. Os primeiros conhecidos do garoto – um francês pouco honesto e um irlandês bêbado – também são desocupados europeus vagando pelo continente americano. Reencontram-se depois que Jakob, o tio senador do herói, o expulsa de sua casa burguesa, obrigando-o a trabalhar como ascensorista num hotel, do qual será igualmente chutado até virar criado de uma prostituta. Como em O Processo, Karl é julgado e conhece a inutilidade da defesa diante de seus algozes. Degradado e vítima de armadilhas ainda mais sórdidas, busca uma saída numa verdadeira companhia teatral, desaparecendo na paisagem americana. O livro de Kafka é uma parábola sobre os massacrados pela competição no mundo moderno, mas tem momentos de excelente humor. Na edição mais conhecida da obra, o final inconcluso deixa entrever alguma esperança. Nesta tradução, já não é bem assim.

 
O braço com a espada

"Quando Karl Rossmann, um jovem de dezessete anos que fora mandado para a América por seus pobres pais, porque uma empregada o seduzira e tivera um filho seu, entrou no porto de Novayork a bordo do navio que já diminuía sua marcha, avistou a estátua da deusa da liberdade, que há muito vinha observando, como que banhada por uma luz de sol que subitamente tivesse se tornado mais intensa. O braço com a espada erguia-se como se tivesse recém se elevado, e em torno à sua figura sopravam os ares livres. "Tão alta!", disse consigo, e, como nem pensasse em sair dali, ia sendo lentamente empurrado até a borda do navio pela multidão cada vez mais numerosa dos carregadores que desfilavam diante dele. Um jovem a quem conhecera superficialmente durante a viagem disse-lhe ao passar:

– Então, ainda não está com vontade de desembarcar?

– Estou pronto, sim! – disse Karl, sorriu para ele e ergueu a mala sobre o ombro por entusiasmo e porque era um jovem robusto."

Trecho de O Desaparecido ou Amerika

 

 
 
 
 
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