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Especial
Um
gesto que pode salvar
Falta
de doadores deixa
por um fio
a
vida de mais de 50
000 brasileiros
que
esperam por um
transplante

Lucila
Soares
A
única coisa certa da vida é a morte. Ainda assim,
é muito difícil lidar com sua proximidade. Imagine,
então, o que é estar na iminência de uma morte
que a medicina pode evitar. É dessa forma que vivem os 56
364 brasileiros que estão na fila de espera por um transplante.
Eles podem morrer não porque faltem recursos, tecnologia,
médicos, remédios ou hospitais. Faltam órgãos.
O drama dessas pessoas é depender de um gesto que só
outro ser humano pode fazer mas a maioria não faz.
No Brasil há 5,6 doadores por milhão de habitantes.
Em Portugal, por exemplo, essa relação é de
21,7 por milhão (veja quadro abaixo). O resultado
é trágico. Neste ano serão realizados no país
cerca de 6 600 transplantes, o que atende apenas 11,7% dos que estão
na espera. A fila só não anda mais devagar porque
quase metade dos pacientes morre antes de conseguir um transplante.
A
maioria dos que recebem a notícia de que precisam de um transplante
se sente, num primeiro momento, diante de uma sentença de
morte. Mas em seguida vem a reação uma reação
quase heróica. O engenheiro paulista Eduardo Sirianni, 41
anos, descobriu há oito que sofre de grave insuficiência
renal. Desde então, mudou radicalmente seus hábitos
e consegue trabalhar normalmente. Sirianni encara com serenidade
o fato de todas as noites ter de submeter-se à diálise
peritoneal, plugando-se por oito horas a uma máquina que,
através de um cateter, injeta na cavidade abdominal um líquido
que filtra seu sangue. "A doença dá uma segunda chance
de vida, que exige organização, planejamento e modificação
interior", diz. Com apenas 5 anos, a pequena Gabriela Espírito
Santo também está na fila do transplante de rim e
consegue levar vida quase normal. Ela discorre com desenvoltura
sobre diálise peritoneal e sonha com o dia em que vai "tirar
a borracha da barriga". "Ela nem sabe o que é transplante,
só sabe que pode ficar boa um dia", comenta Maria Luiza Centellez,
mãe de criação da menina.
Em boa parte dos casos, entretanto, a vida normal torna-se gradativamente
impossível. O cotidiano resume-se, muitas vezes, a lutar
contra a morte. Vira uma rotina de sofrimento físico, que
inclui depender de cilindros de oxigênio para respirar e suportar
náuseas, dores de cabeça e outros efeitos colaterais
de dezenas de remédios. A professora mineira Lídia
Almira dos Santos, de 37 anos, sofre de uma doença pulmonar
rara, que tira seu fôlego e exige um esforço sobre-humano
para os movimentos mais rotineiros, como tomar banho ou comer. Por
causa do problema, Lídia teve de tomar hormônios que
anteciparam a menopausa e foi aposentada por invalidez. Em março,
depois de quatro anos de tratamento, mudou-se de Caxambu para São
Paulo e entrou para a fila do transplante de pulmão. A angústia
da espera a consome. "É duro saber que estou piorando e não
poder fazer nada", diz.
Essa angústia seria muito menor se não houvesse uma
cruel conjugação de fatores, que começa pela
subnotificação de mortes às centrais de transplantes,
segue na falta de comunicação com os parentes dos
possíveis doadores e culmina na recusa das famílias
em permitir a retirada de órgãos dos mortos. O exemplo
do Rio de Janeiro dá a dimensão do problema. Morrem
no Estado cerca de 90.000 pessoas por ano. Dessas, pelo menos 900
poderiam ter morte cerebral (ou encefálica, no jargão
médico), condição necessária para a
doação de órgãos. Mas a central de transplantes
do Estado recebeu apenas 300 notificações em 2002,
o que, devido às exclusões clínicas e recusas,
resultou em 107 doadores.
Fotos Claudio Rossi
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"Peço
a Deus para ajudar
nas coisas mais simples. Banho para mim não é
prazer, é
hora de stress. Fico exausta. Acordo com as mãos e a
boca roxas por falta de oxigenação. Mas eu passo
por tudo isso porque amo a vida e sonho com tudo o que um pulmão
sadio pode trazer de volta. Quem está nessa situação
só tem duas opções: definhar até
morrer ou sonhar e lutar. Eu escolhi a segunda."
Lídia
Almira dos Santos,
mineira,
37 anos, professora, aguarda por um transplante
de pulmão |
Os
números formam um quadro alarmante. A Associação
Brasileira de Transplante de Órgãos estima que, de
cada dez famílias de potenciais doadores, apenas uma seja
abordada. Desse minguado total, quase 60% negam a doação.
É um porcentual alto se comparado ao da Espanha, onde a proporção
é de 20%. Não se trata de simples egoísmo,
tampouco apenas da questão genericamente batizada como "cultural",
área na qual é evidente que Brasil e Espanha têm
muito mais semelhanças que diferenças. O que separa
os dois países é o nível de informação.
Na Espanha, o sistema de transplantes foi criado em 1985. Desde
então, todo espanhol ouve falar em doação de
órgãos desde criança. Quando morre alguém
da família, ele pode até não doar, mas não
por ignorância.
Aqui, o sistema foi criado em 1997. E, do ponto de vista da comunicação,
teve uma estréia desastrosa ao transformar todo brasileiro
em doador compulsório de órgãos, a não
ser por expressa manifestação em contrário.
Sem uma campanha de esclarecimento, a população correu
da raia, assombrada pelo fantasma do tráfico de órgãos.
Em 1998, 60% dos que tiraram carteira de habilitação
optaram por declarar-se não-doadores. Revogada a lei, o brasileiro
continua, normalmente, só tomando contato com o tema em duas
circunstâncias. Ao descobrir que ele próprio ou uma
pessoa querida precisa de um transplante, ou ao ser abordado por
uma equipe de busca de órgãos quando acaba de perder
um parente. Não pode dar certo. Até porque, como lembra
o médico Milton Glezer, que coordena a procura de órgãos
do Hospital das Clínicas de São Paulo, o doador ideal
é jovem e morreu subitamente, de morte violenta ou acidente
vascular cerebral. "Fazemos contato com famílias chocadas
por uma morte nessas circunstâncias para falar num assunto
sobre o qual a maioria nunca pensou", diz.
Nesse momento ficam claras duas barreiras. A primeira é cultural.
A idéia enraizada em todos nós é que a morte
ocorre quando o coração pára de bater e cessa
a respiração. Mas os transplantes de órgãos
são feitos a partir de indivíduos com diagnóstico
de morte cerebral. São pessoas efetivamente mortas: seu cérebro,
incluindo a parte que desempenha funções vitais, como
o controle da respiração, não funciona mais.
No entanto, a respiração e os batimentos cardíacos
são mantidos por aparelhos medida essencial ao transplante,
porque, se não forem irrigados, os órgãos perdem
rapidamente as condições de aproveitamento. É
difícil admitir uma morte com essas características.
O drama é que o transplante é uma corrida contra o
tempo. Um coração, por exemplo, só pode ser
utilizado até no máximo quatro horas depois da morte
do doador. Muitas vezes, quando vem a autorização,
a doação já é inviável.
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"Quando descobri que precisava de um transplante,
todo mundo me encarou como alguém que está morrendo,
quase um cadáver. Não sou cadáver. Estou
vivo, mais vivo do que antes. Quisera ser um cara saudável
com os hábitos que tenho hoje. A doença é
um farol amarelo, que mostra que ninguém é invencível.
E o transplante não dá invencibilidade a ninguém,
mas
uma segunda chance."
Eduardo Sirianni, paulista, 41 anos, engenheiro
eletrônico, aguarda por um transplante de rim
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A
segunda barreira é a falta de confiança num sistema
de saúde que não dá assistência às
famílias. Quem já teve de buscar notícias de
um parente num grande hospital de emergência sabe que não
é tarefa fácil. Muitos só ganham um interlocutor
quando o familiar morre e vem o pedido de doação.
Fechando o ciclo perverso, os profissionais de saúde não
têm praticamente nenhum contato com o tema em sua formação
e trabalham sob pressão, com pacientes gravíssimos
e UTIs lotadas. "Os médicos acham que o indivíduo
em morte encefálica está perdido e deve dar lugar
a alguém que pode ser salvo. A maioria não percebe
que esse é um elo de vida", avalia Milton Glezer.
São situações muito novas quando se leva em
conta que os primeiros transplantes de órgãos datam
da década de 50 do século passado e que só
há pouco mais de vinte anos passou a ser possível
controlar a rejeição através de medicamentos.
A chance de sucesso de um transplante hoje é da ordem de
90%, em média. No Brasil, o número de transplantes
praticamente dobrou entre 1997 e o ano passado. As listas de espera
foram unificadas por Estado, acabando com uma superposição
que facilitava favorecimentos e até comércio de órgãos.
Hoje, qualquer paciente tem acesso ao cadastro de que faz parte.
São avanços que acabam tendo o efeito reduzido pela
falta de doadores, como admitiu a VEJA o ministro da Saúde,
Humberto Costa, que planeja uma campanha de esclarecimento para
este segundo semestre.
Reação
emocionada Antes tarde do que nunca. Em pelo menos duas
ocasiões, a televisão foi responsável por um
pico no número de candidatos à doação.
Na novela De Corpo e Alma, de 1992, a personagem Paloma (Cristiana
Oliveira) recebeu um transplante de coração e provocou
enorme curiosidade em relação ao tema. Há pouco
mais de dois anos, o drama de Camila (Carolina Dieckmann) em Laços
de Família comoveu o Brasil. Agora, a morte de Fernanda
(Vanessa Gerbelli) em Mulheres Apaixonadas deve provocar
fenômeno semelhante. Mas não basta contar com a reação
emocionada a apelos desse tipo. "A doação deveria
ratificar uma escolha já feita. Não ser uma decisão
num momento de perda, decepção, raiva", comenta o
psicólogo Gustavo Matta, que trabalhou por treze anos na
captação de órgãos da central de transplantes
do Rio de Janeiro.
Nada mais lógico, como demonstra a experiência do Banco
de Olhos de Sorocaba, no interior de São Paulo. Lá,
começou em 1984 um programa de captação de
córneas que atingiu padrão de eficiência comparável
aos melhores índices internacionais: a espera não
passa de seis meses, contra uma média nacional de três
anos. "O segredo é trabalhar em todas as frentes escolas,
igrejas, clubes", acredita Pascoal Martinez Munhoz, presidente do
Banco de Olhos. É na tecla da informação que
bate o editor carioca Geraldo Jordão Pereira, 65 anos. Ele
recebeu um transplante de fígado no ano passado, depois de
três anos de espera e várias recusas de familiares
de possíveis doadores. Jordão tornou-se militante
da causa da doação de órgãos ao longo
desse processo, iniciado com o diagnóstico de hepatite C
contraída numa transfusão de sangue. E espanta-se
com a pouca importância dada ao tema. "É um descaso
estarrecedor", diz o editor.
Jarbas Oliveira
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"Achava
que estava bem e de uma hora para outra descobri que estou
doente. É duro. Isso muda a gente. Eu achava que a
vida era só viver, viver, curtir, sem possibilidade
de a morte chegar. Não era doador, nunca tinha sido
estimulado a pensar nisso. Se as pessoas soubessem da importância
de um órgão para quem está esperando
o transplante, haveria mais doadores."
Francisco Jacinto da Costa,
potiguar, 49 anos, funcionário do
Banco do Brasil, aguarda por
um transplante de fígado
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Jordão
ganhou uma nova vida, assim como o gaúcho João Carlos
Cechella, 50 anos, coração dez anos mais novo, transplantado
em 1989. Ambos têm depoimentos semelhantes. Aprenderam a aproveitar
melhor o presente e a usufruir alegrias que parecem pequenas a quem
nunca enfrentou problema desse tipo. O mesmo aconteceu com o pequeno
empresário paulista Antônio Bonini, de 47 anos. Em
novembro do ano passado, depois de treze anos doente, dos quais
sete impossibilitado de trabalhar, e dois na fila do transplante
de pulmão, Bonini recebeu um telefonema. Achou que era trote.
Não era. Há pouco mais de um mês, foi ao cinema
com as filhas pela primeira vez. "É uma alforria", diz.
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