Edição 1816 . 20 de agosto de 2003

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Esporte
Os gaijins dominam o sumô

Estrangeiros são agora os campeões da
luta
mais tradicional e popular do Japão


Ariel Kostman

 
AFP
O grande campeão Musashimaru, nascido no Havaí, derruba oponente durante torneio de sumô

Vestido como um samurai do século XIV, o juiz entra no ringue – um pequeno círculo com 4,55 metros de diâmetro – e anuncia o nome dos lutadores. Os dois gigantes, trajando apenas o mawashi, uma faixa de pano amarrada na cintura, iniciam o ritual: jogam sal no ringue para purificar a área e batem palmas para chamar a atenção dos deuses xintoístas. Desde o século IX, quando as regras foram estabelecidas, as lutas de sumô seguem esse mesmo ritual. A diferença é que hoje, para a tristeza dos japoneses, só lutadores estrangeiros ostentam o título de yokozuna, ou grande campeão. O título, vitalício, é a maior honra que um lutador pode conseguir. Apenas o havaiano Musashimaru e o mongol Asashoryu estão no topo. Takanohana, o último grande campeão japonês, aposentou-se em janeiro, após uma série de contusões. E, para desgosto dos fãs, nenhum outro lutador nascido no Japão tem condições de ascender ao posto a curto prazo.

Junto com a ascensão dos estrangeiros – eles já são cinqüenta entre os 386 lutadores profissionais –, o esporte vive uma queda de popularidade no Japão. Os índices de audiência na TV caíram 35% nos últimos quatro anos. A renda com a venda de ingressos vem diminuindo a taxas de 10% ao ano. Ídolos do futebol, como Ronaldinho, disputam espaço com as estrelas do sumô entre os adolescentes. Mesmo assim, a tradicional luta ainda divide com o beisebol o título de o esporte mais popular do país. Os seis torneios anuais são transmitidos ao vivo pela TV, e grandes campeões são cercados por multidões de fãs quando saem às ruas. Como yokozuna, o havaiano Musashimaru recebe salário acima de 35.000 dólares por mês, fora os patrocínios, e tem direito a oito assistentes, todos lutadores iniciantes. Eles lavam suas roupas e o ajudam a se vestir, além de servir o almoço, preparar o banho e esfregar as costas do grande campeão. Afinal de contas, não é fácil realizar essas tarefas quando se pesa 235 quilos. "Apesar de estrangeiro, Musashimaru é muito querido no Japão", diz o paulistano Fernando Yoshinobu Kuroda, que se aposentou no mês passado e voltou para o Brasil depois de doze anos como lutador profissional de sumô. Agora, o único brasileiro na primeira divisão do esporte no Japão, que tem apenas 66 lutadores, é o paulista Vander Ramos.

Quem mais incomoda os japoneses é o grande campeão Asashoryu. O lutador, nascido na Mongólia, já foi desclassificado por puxar o cabelo de um oponente durante um combate. Em outra ocasião, deu um tranco com os ombros no adversário no fim de uma luta. Essas atitudes são consideradas verdadeiro sacrilégio dentro do rígido código moral do sumô, um esporte com 2.000 anos de tradição, e provocam revolta entre os torcedores. Em respeito ao oponente, o vencedor de um embate de sumô não pode sequer comemorar a vitória. Até mesmo um discreto sorriso é encarado como desrespeito. Yoshikane Sadogatake, um grande campeão aposentado, culpa a prosperidade nipônica pelo sucesso dos estrangeiros. "Os japoneses não querem saber de trabalhar duro", critica.

De fato, a vida nas academias de sumô é exigente. Às 6 horas da manhã, os lutadores começam a se aquecer para o treino pesado, que inclui abdominais, flexões de braço, alongamento e simulação de lutas. Depois de quatro horas de treino, param para o almoço, cujo prato principal é o chankonabe, um ensopado de legumes, verduras, carne e macarrão. Após o almoço, uma soneca de duas horas e, depois, mais treinos. Cada lutador ingere em média 16.000 calorias por dia, quantidade suficiente para alimentar uma pessoa normal por uma semana. Em geral, a carreira de lutador começa aos 15 anos e termina antes dos 35. Durante cinco anos, Fernando Yoshinobu Kuroda foi um dos assistentes do grande campeão havaiano. Ele conta que, além das duas refeições diárias (não há café-da-manhã), os lutadores costumam fazer uma boquinha antes de se recolher. "À noite, íamos sempre ao McDonald's", revela Fernando. "Cada um comia uns quatro sanduíches, e voltávamos para dormir."

 

 

 
 
 
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