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Esporte
Os
gaijins dominam o sumô
Estrangeiros
são agora os campeões da
luta
mais tradicional e popular do Japão

Ariel
Kostman
AFP
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grande campeão Musashimaru, nascido no Havaí, derruba oponente
durante torneio de sumô |
Vestido
como um samurai do século XIV, o juiz entra no ringue
um pequeno círculo com 4,55 metros de diâmetro
e anuncia o nome dos lutadores. Os dois gigantes, trajando apenas
o mawashi, uma faixa de pano amarrada na cintura, iniciam o ritual:
jogam sal no ringue para purificar a área e batem palmas
para chamar a atenção dos deuses xintoístas.
Desde o século IX, quando as regras foram estabelecidas,
as lutas de sumô seguem esse mesmo ritual. A diferença
é que hoje, para a tristeza dos japoneses, só lutadores
estrangeiros ostentam o título de yokozuna, ou grande campeão.
O título, vitalício, é a maior honra que um
lutador pode conseguir. Apenas o havaiano Musashimaru e o mongol
Asashoryu estão no topo. Takanohana, o último grande
campeão japonês, aposentou-se em janeiro, após
uma série de contusões. E, para desgosto dos fãs,
nenhum outro lutador nascido no Japão tem condições
de ascender ao posto a curto prazo.
Junto com a ascensão dos estrangeiros eles já
são cinqüenta entre os 386 lutadores profissionais ,
o esporte vive uma queda de popularidade no Japão. Os índices
de audiência na TV caíram 35% nos últimos quatro
anos. A renda com a venda de ingressos vem diminuindo a taxas de
10% ao ano. Ídolos do futebol, como Ronaldinho, disputam
espaço com as estrelas do sumô entre os adolescentes.
Mesmo assim, a tradicional luta ainda divide com o beisebol o título
de o esporte mais popular do país. Os seis torneios anuais
são transmitidos ao vivo pela TV, e grandes campeões
são cercados por multidões de fãs quando saem
às ruas. Como yokozuna, o havaiano Musashimaru recebe salário
acima de 35.000 dólares por mês, fora os patrocínios,
e tem direito a oito assistentes, todos lutadores iniciantes. Eles
lavam suas roupas e o ajudam a se vestir, além de servir
o almoço, preparar o banho e esfregar as costas do grande
campeão. Afinal de contas, não é fácil
realizar essas tarefas quando se pesa 235 quilos. "Apesar de estrangeiro,
Musashimaru é muito querido no Japão", diz o paulistano
Fernando Yoshinobu Kuroda, que se aposentou no mês passado
e voltou para o Brasil depois de doze anos como lutador profissional
de sumô. Agora, o único brasileiro na primeira divisão
do esporte no Japão, que tem apenas 66 lutadores, é
o paulista Vander Ramos.
Quem mais incomoda os japoneses é o grande campeão
Asashoryu. O lutador, nascido na Mongólia, já foi
desclassificado por puxar o cabelo de um oponente durante um combate.
Em outra ocasião, deu um tranco com os ombros no adversário
no fim de uma luta. Essas atitudes são consideradas verdadeiro
sacrilégio dentro do rígido código moral do
sumô, um esporte com 2.000 anos de tradição,
e provocam revolta entre os torcedores. Em respeito ao oponente,
o vencedor de um embate de sumô não pode sequer comemorar
a vitória. Até mesmo um discreto sorriso é
encarado como desrespeito. Yoshikane Sadogatake, um grande campeão
aposentado, culpa a prosperidade nipônica pelo sucesso dos
estrangeiros. "Os japoneses não querem saber de trabalhar
duro", critica.
De fato, a vida nas academias de sumô é exigente. Às
6 horas da manhã, os lutadores começam a se aquecer
para o treino pesado, que inclui abdominais, flexões de braço,
alongamento e simulação de lutas. Depois de quatro
horas de treino, param para o almoço, cujo prato principal
é o chankonabe, um ensopado de legumes, verduras, carne e
macarrão. Após o almoço, uma soneca de duas
horas e, depois, mais treinos. Cada lutador ingere em média
16.000 calorias por dia, quantidade suficiente para alimentar uma
pessoa normal por uma semana. Em geral, a carreira de lutador começa
aos 15 anos e termina antes dos 35. Durante cinco anos, Fernando
Yoshinobu Kuroda foi um dos assistentes do grande campeão
havaiano. Ele conta que, além das duas refeições
diárias (não há café-da-manhã),
os lutadores costumam fazer uma boquinha antes de se recolher. "À
noite, íamos sempre ao McDonald's", revela Fernando. "Cada
um comia uns quatro sanduíches, e voltávamos para
dormir."
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