Edição 1816 . 20 de agosto de 2003

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Entrevista
"Estou jogando minha
história neste mandato"

 
Fotos Ricardo Stuckert/PR

À VONTADE
Lula no gabinete no 3º andar do Palácio do Planalto: sem direito de reclamar das agruras do cargo

Durante as duas horas de conversa com os jornalistas de VEJA, na semana passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve alerta, de bom humor e focado nas respostas. Emocionou-se uma única vez, quando falou da vida confortável dos filhos, e lembrou-se da mãe e da infância pobre. Mostrou-se à vontade no imenso gabinete presidencial, de onde mandava chamar ministros e buscar documentos para embasar mais vivamente os pontos de vista expostos na entrevista.

Veja – Há alguns dias especuladores apostaram no enfraquecimento do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, para obter ganhos nos mercados financeiros...
Lula – (interrompendo a pergunta) Olha, quem especular apostando contra o Palocci vai perder. Se alguém quiser ganhar alguma coisa apostando, recomendo que aposte a favor do Palocci. O Palocci é da minha mais inteira confiança. Ele não está aqui porque quis, ele está aqui porque eu quis que ele estivesse aqui. Ele é um dos companheiros em quem eu deposito o maior grau de confiança, o maior grau de companheirismo e de lealdade. Nós estamos juntos há muitos anos. Obviamente que você tem no Brasil uma disputa de interesses. Muitos empresários não querem reconhecer que no fim do ano passado exageraram no aumento de preços imaginando que nós iríamos levar o país ao desastre. Só que isso não aconteceu. Além disso, em economia não se pode agradar a gregos e troianos. O setor exportador gostaria que nós tivéssemos o dólar a 3,20; 3,30; 3,40 reais. Os setores que têm dívida em dólar gostariam que a cotação do dólar voltasse a ser 1 para 1. Não é possível contentar a todos. Quem vai regular o câmbio é o mercado, e o que vai dar estabilidade à moeda é a retomada do crescimento econômico.

Veja – O que o senhor diria a um investidor estrangeiro indeciso em colocar dinheiro no Brasil, na China ou na Polônia?
Lula – Aos empresários brasileiros e de qualquer parte do mundo digo que temos um marco regulatório definido e um país promissor e estável. Quero convidá-los a participar correndo apenas os riscos naturais do sistema capitalista. É assim que se convencem as pessoas a vir para cá, oferecendo projetos concretos e viáveis. Não é por palavras nem pela cor dos meus olhos. É por isso que nós estamos investindo em obras de infra-estrutura prioritárias para o desenvolvimento do Brasil e trabalhando no processo de integração física da América do Sul. Vamos priorizar, por exemplo, a Rodovia 101, no trecho que sai do Rio Grande do Norte e vai até a Bahia. Se o Estado não tiver condições de fazer, vamos fazer contratos de concessão. O Estado não tem de ter medo de fazer concessão de serviço público. O povo não quer saber quem fez, quer saber, sim, se a estrada está em boas condições.

Veja – Pessoas sérias fora do país, não especuladores, comentam que faltam regras claras no Brasil. Elas reclamam que o Brasil é um país juridicamente instável. O que o senhor tem a dizer a essas pessoas?
Lula – Todo mundo quer colocar o dinheiro num lugar que ofereça segurança. Isso vale para o empresário, o estrangeiro, para mim, para um trabalhador humilde que quer depositar seu dinheirinho na poupança e para um megaempresário. Tenho consciência de que nosso papel no governo é garantir a segurança de todos os investidores, pequenos ou grandes, brasileiros ou estrangeiros.

Veja – Talvez esteja faltando ênfase do governo brasileiro nesse ponto, ainda mais quando se sabe que o Brasil precisa competir por recursos com o México, os países da Ásia e da Europa do Leste...
Lula – O mercado brasileiro e o Brasil têm um potencial excepcional para cativar interesses externos. Precisamos ser mais profissionais. Se tivermos um projeto bem-feito, por que não convocar um seminário com os empresários interessados e apresentar a proposta? Não precisa fazer discurso. Basta o projeto, bastam as regras. Para os investidores, o Brasil pode ser um grande negócio. Para nós, em alguns casos a vinda deles é essencial. Como é que nós vamos fazer saneamento básico nas regiões metropolitanas deste país sem atrair investimentos de fora? Não cabe mais aquele discurso ideológico de que saneamento básico é obra do governo federal e responsabilidade do governo estadual e do prefeito. Esse discurso seria maravilhoso se tivéssemos dinheiro para fazer. Não adianta fazer um bom discurso ideológico e o povo continuar pisando em esgoto a céu aberto e bebendo água não tratada.

Veja – Muitos dos estrangeiros que fizeram investimentos diretos no Brasil perderam muito dinheiro. Os espanhóis, por exemplo.
Lula – Mas capitalismo é isso. Não existe capitalismo sem risco. Eu estive na Espanha e conversei com todos os investidores que colocaram dinheiro no Brasil no setor de telecomunicações e nenhum deles reclamou. Pelo contrário, disseram que vão continuar a investir no país.

Veja – Mas, quando um ministro de Estado estimula as pessoas a entrar na Justiça contra um contrato assinado, que recado ele está passando para a sociedade e para os investidores?
Lula – Fizemos um acordo com as empresas de telefonia, o ministro sentiu que ele não havia sido cumprido, tentou ponderar com a Anatel para exigir seu cumprimento. Mas agora a questão das telecomunicações é um problema resolvido. O que o empresário deseja são regras claras. Eu também desejo. Nós devemos anunciar nos próximos dias uma proposta de marco regulatório. Não vou antecipar o conteúdo, mas é uma proposta muito convincente. Sou de uma geração e de uma terra em que o fio do bigode valia mais que muito documento. Hoje já não pode ser assim, porque há muita esperteza no mundo. Então, nós queremos estabelecer regras claras para que em qualquer canto do planeta as pessoas saibam que podem investir com segurança no Brasil.

Veja – Na sua opinião, as agências reguladoras são um avanço ou um entrave?
Lula – Comecei me queixando muito das agências porque as vejo como uma forma de terceirizar responsabilidades. Cria-se uma agência e ela vai controlar os preços essenciais. De repente, o governo fica sabendo do aumento de preço pelos jornais. O mais grave é que, lá no bar, na igreja, na comunidade, o povo não conhece a agência, só o governo. E ele é que é xingado. A mãe do juiz é ele. Nós decidimos que cada ministro vai tentar estabelecer uma melhor relação com as agências para que a gente faça as coisas muito mais combinadas e acertadas.

Veja – Então mudou a abordagem?
Lula – Obviamente que eu mudei. Eu tenho quatro anos de mandato e não posso passar metade do tempo brigando. Para mim, seria muito fácil vencer meu primeiro ano de governo xingando meu antecessor, mostrando tudo o que, no entender do meu governo, estava errado. Mas o que o país ganharia com isso? Qual a imagem que eu passaria para fora? Então, vamos cumprir com as nossas obrigações, olhar para a frente.

 

A IMAGEM
Com a mulher, Marisa, durante uma cerimônia típica no Peru: o Brasil vai aonde vai seu presidente

 

À distância dos radicais

Veja – O senhor e o governo estão enfrentando o fogo amigo, que é a reação dos radicais, seus antigos companheiros de viagem. O senhor esperava que os radicais fossem assim tão radicais?
Lula – Eu pensava que as pessoas ligadas ao nosso projeto deveriam assumir a responsabilidade de ser governo. Mas percebi que elas escolheram outro caminho. Que o sigam. A opção delas é legítima e o povo julgará quem está certo.

Veja – Soube-se que o senhor ficou especialmente decepcionado com a senadora Heloísa Helena...
Lula – Não fiquei chateado. Quando eu comecei minha vida política, aprendi que tem determinado tipo de gente que é melhor ficar contra você do que a favor. Em 1979, o Celso Furtado me disse uma coisa que permeou minha vida até agora. Ele disse: "Lula, não se preocupe com o que os ultra-esquerdistas falam. Porque, no fundo, eles são um alerta do caminho que você não deve seguir. Mas, ao mesmo tempo, não permitem que você vá muito para a direita". No fundo, eles te ajudam a continuar no caminho do meio.

Veja – Trabalhar com amigos facilita a tarefa de governar ou às vezes atrapalha?
Lula – Isso é uma coisa que me dá certa tranqüilidade. O núcleo do governo no Palácio do Planalto é um núcleo histórico meu: é o Luiz Gushiken, é o Luiz Dulci, é o Zé Dirceu, é o Palocci.

Veja – Que tipo de crítica o irrita?
Lula – Aprendi que presidente não tem o direito de ficar irritado. Aos 57 anos, eu já apanhei tudo o que tinha de apanhar. Já gastei minha capacidade de ficar irritado.

Veja – Qual foi o ministro que mais o surpreendeu positivamente?
Lula – O problema de citar um é criar certa ciumeira. Mas eu posso garantir que minha relação com o Ciro Gomes (ministro da Integração Nacional) é excelente ou melhor do que isso, se houver uma definição possível acima disso. Ele tem sido de uma competência, de uma lealdade e de uma dedicação estupendas. Toda vez que é chamado para o debate tem sua contribuição para dar.

Veja – O senhor citaria um nome que o surpreendeu negativamente?
Lula – Não há.

Veja – Vai ter reforma ministerial?
Lula – Os técnicos de futebol não tiram de campo um jogador com dez minutos de jogo. Os governos também devem fazer o mesmo. Sempre disse aos prefeitos e governadores do PT que eles devem fazer uma avaliação da equipe ao fim dos primeiros doze meses de gestão. Não antes. E não devem agir com base em manchete de jornal. Se eu fosse levar a sério o que diziam, o José Graziano (que entrou no gabinete nesse momento) teria caído com três meses de ministério. Se as pessoas têm competência, temos de dar tempo ao tempo. Nenhum companheiro ou companheira deixará de ser ministro porque alguém disse que ele não está bem. Na hora em que eu chegar à conclusão de que alguém não está dando certo, com a mesma lealdade com que convidei vou pedir que saia.

Veja – A pressa maior parece ser de seus antigos aliados, por exemplo a cúpula do MST...
Lula – As pessoas têm de cobrar. Não acho que a sociedade deva ficar passiva porque o Lula ganhou as eleições. Continuo acreditando que nós vamos fazer um grande acordo com os trabalhadores que lutam pela reforma agrária neste país, mas não podemos repetir o erro cometido até agora. Quantos assentamentos produzem efetivamente? A maioria sobrevive de cesta básica porque o assentamento tem sido tratado como uma simples distribuição de terra. Quando só dá a terra, o governo se livra de um problema social urbano e cria um problema social rural. Levar alguém para o campo significa providenciar assistência técnica, permitir o acesso à semente e ao financiamento no tempo certo e garantir o preço. Só assim a terra cumprirá sua função social.

Veja – O senhor não se sente atingido quando João Pedro Stedile fala em fazer a reforma agrária na marra?
Lula – Vou dizer uma coisa: eu já falei várias frases de efeito e mais tarde percebi que eram exageradas. Um grande amigo meu certa vez foi condenado porque, na euforia de um comício, chamou um presidente da República de canalha. Mas posso avisar aos interessados que neste país ninguém faz reforma agrária nem na marra nem no tapa. A reforma vai ser feita no tempo certo e na medida do possível.

 

NA INTIMIDADE
O primeiro-casal no jardim do Palácio da Alvorada: ídolo apenas aos olhos da filha Lurian. Para os outros filhos ele é apenas um pai severo

 

Sem ondas na economia

Veja – O senhor acha que Fernando Henrique Cardoso está tendo papel positivo como ex-presidente?
Lula – Acho que ele deu uma pisada na bola ao fazer comentários de caráter político. A sabedoria recomenda que os ex-presidentes fiquem quietos. Não há exemplos no mundo de presidentes que terminam o mandato e ficam dando palpites favoráveis ou contrários a quem assumiu. Em Davos, Bill Clinton me disse uma frase importante quando eu quis conversar com ele sobre a guerra no Iraque. Ele falou: "Olha, presidente, nos Estados Unidos nós não comentamos atitudes do presidente. Eu sou ex-presidente e o atual é o Bush. Eu não comento nenhuma decisão dele". Em outros países, o ex simplesmente desaparece do cenário político-partidário. A transição de governo foi muito boa para o Brasil, e tem de ser assim. Pretendo manter essa relação cordial com Fernando Henrique Cardoso, até porque temos laços de amizade que transcendem meu mandato.

Veja – Dá angústia ser presidente de um país onde os problemas sociais parecem insolúveis?
Lula – Sim. Da mesma forma que me dava angústia quando tinha filhos pequenos e eles me escreviam cartinha pedindo um presente que eu não podia comprar. Tinha de dizer a eles: "Olha, não pude comprar". Mas eu preferia dizer isso a contar mentira, falar que amanhã compraria. O povo é inteligente, sabe das dificuldades, sabe esperar, desde que sinta que o presidente está sendo honesto. Eu estou sendo 100% honesto. O país vai dar um salto de qualidade, mas sem aventura. Eu não quero ser parte de uma onda. Vem uma onda bonita, todo mundo quer surfar, depois a onda acaba e ninguém sabe o que fazer. Temos de ter paciência. Não se pode ficar dando choque na economia. A história do Brasil já mostrou que choques criam uma euforia na sociedade que dura dois meses e, depois disso, o resultado é sempre pior. Minha lógica é a da paciência. Se tivermos de esperar um dia a mais, um mês a mais para tomar uma decisão mais consistente, vamos aguardar.

Veja – Mas, presidente, o desemprego bate recordes, as grandes cidades estão cada vez mais violentas. Quanto tempo ainda será preciso esperar?
Lula – O povo já recuperou a auto-estima. Todas as pesquisas dizem isso. O povo sabe esperar quando confia no presidente. As pessoas sabem que tomamos posse há pouco tempo, que não podemos apresentar muitos resultados antes de um ano de trabalho. Não vou promover uma onda de crescimento que dê dois meses de euforia ao povo brasileiro e depois só tristeza.

Veja – Alguma coisa pode ser feita enquanto o crescimento econômico mais consistente não vem?
Lula – Há mais ou menos um ano e meio tenho pensado muito em como quebrar o ciclo de miséria, violência e isolamento que aflige as pessoas na periferia das grandes cidades. A questão não é apenas falta de dinheiro. Temos um problema sério que é o processo de desagregação da estrutura da sociedade, que começa com a implosão da família. Existe uma pobreza passiva e uma ativa. Quando o cidadão está no semi-árido nordestino, ele é pobre, mas ele tem a mãe dele, o pai. Além disso, ele tem uma relação com São José, porque ele espera todo ano até 19 de março para chover, depois ele tem uma relação com o padre Cícero. Ou seja, ele tem fé. Quando esse mesmo cidadão se desloca para um grande centro urbano, seja Recife, seja São Paulo, ele vai morar numa favela e perde essa rede de proteção. Não tem mais o conforto dessas relações. Passa a ser um sujeito que mora num barraco cercado de estranhos. O único ambiente agradável que ele tem por perto é o bar, o único conforto, a bebida. O morador do interior do Nordeste tem a paciência de esperar pela chuva, por uma vida melhor. O filho adolescente do nordestino que migrou para a cidade grande não tem mais a mesma paciência. Quando ele vê, está no fio da navalha. Para cair na criminalidade, é um pulo.

Veja – Como lidar com isso?
Lula – Nós temos de ter planos emergenciais para atuar nas grandes periferias, porque é ali que a desgraça acontece, ali que imperam a criminalidade, o tráfico de drogas. Atacar isso é possivelmente mais útil à segurança que todos nós queremos do que contratar mais policiais. Nós estamos pensando como fazer para atacar esse problema nos grandes centros urbanos, com obras de saneamento, obras de habitação, para gerar emprego e um mínimo de qualidade de vida para essas pessoas.

 

REIS E RAINHAS
Um brinde à rainha Sofia na viagem à Espanha, em julho: aceno aos investidores estrangeiros

 

Para não penalizar o setor produtivo

Veja – O senhor não teme um processo de colombização do Brasil provocado por essa onda de violência?
Lula – O Brasil tem outra formação cultural, a gente não corre o risco de enveredar por caminhos semelhantes ao da Colômbia. Mas precisamos adotar algumas medidas sociais de emergência que ajudem a combater o problema.

Veja – Quais?
Lula – Estamos estudando várias medidas para aumentar o dinheiro em circulação e diminuir seu custo para as pessoas mais pobres. Por que o trabalhador não pode ir ao banco pegar dinheiro e dar como garantia o salário, descontando a prestação da folha de pagamento? O risco do empréstimo cai e não há por que o juro ser muito alto. Nós agora vamos fazer um negócio que está em estudo para todos os aposentados brasileiros. Estamos analisando a possibilidade de abrir uma linha de crédito para que eles possam tomar até dois salários de empréstimo pagando 2% de juros ao mês. São 19 milhões de aposentados. Estamos pensando ainda em liberar 20% do fundo de garantia para ser usado na compra de material de construção destinado a reformar a casa.

Veja – Quatro anos de governo é pouco?
Lula – O país precisa de um projeto de longo prazo, de vinte ou trinta anos. Ninguém pode pensar numa nação ao ritmo dos mandatos, de quatro em quatro anos. No meu caso, ainda que inicie projetos de longo curso, trabalho com a idéia fixa de que meu mandato termina no dia 31 de dezembro de 2006. E que a partir de 1º de janeiro de 2007 o Brasil terá outro presidente, que pode ser do mesmo partido, do mesmo projeto. Mas essa preocupação não permeia minha cabeça agora.

Veja – Seu governo deu a impressão de que começou muito arrastado, vagaroso, e que não ia decolar.
Lula – Todo mundo tem o direito de interpretar os fatos a seu modo. Eu não espero a sociedade cobrar de mim. Eu me cobro todo santo dia. No começo, a fase era outra, de montagem do governo. Nós tínhamos a obsessão de não permitir que a inflação voltasse. Em dezembro, a perspectiva era que a inflação atingisse a casa de 40% no ano. Hoje, trabalhamos com uma perspectiva de inflação de 7%, o que nos dá certo fôlego para pensar em outras coisas. Quando tomei posse, tinha clareza de que o primeiro ano de governo seria dedicado à construção do alicerce daquilo que será feito no ano seguinte. Um dos pilares era justamente controlar a inflação. Outro era reduzir a taxa de juros. Essas coisas têm de ser feitas de forma muito cautelosa e muito pensada.

Veja – Não aumentar a carga tributária é um compromisso?
Lula – É um compromisso e está na nossa proposta. Nós achamos que o Brasil, para ser competitivo na sua relação de comércio exterior, não pode penalizar o setor produtivo. Tudo o que pudermos fazer para aliviar o setor produtivo nós vamos fazer. É isso que nos dará fôlego para não ficar sendo pegos de sobressalto com fuga de capitais.

 

O prazer de ser presidente

Veja – O senhor nunca teve experiência executiva. Como faz para se organizar?
Lula – Coloquei a minha companheira Clara Ant para anotar o conteúdo de todas as conversas que tenho. Dessa forma sempre sei de quem eu devo cobrar esta ou aquela tarefa, quem é que tem de executar. Quando retomo uma conversa com um ministro, ele pode até não saber, mas eu tenho na minha mesa tudo o que nós decidimos na última reunião. Se não for assim, as coisas não andam.

Veja – Do ponto de vista pessoal e familiar, o senhor se adaptou bem às exigências do cargo?
Lula – Tenho conseguido manter um ritmo bom de trabalho e repouso. Das 6 às 7 eu caminho com a Marisa em torno do Alvorada. Ida e volta dá 4 200 metros. Depois, a gente faz um pouco de ginástica e alongamento nos aparelhos. A piscina eu não uso. É por causa da bursite, o ombro dói quando eu dou braçadas. Estou fazendo acupuntura, dia sim, dia não, mas acredito que eu vá ter de operar. Estou adiando, mas não tem jeito. Um dos tendões até já se rompeu. Essa história de cirurgia não me agrada. Tenho horror a anestesia. É uma morte momentânea, e eu não sou chegado a fazer teste com a morte.

Veja – Como seus filhos convivem com as circunstâncias de ter um pai presidente?
Lula – Eles estão vivendo a vida que eu sonhei ter quando era adolescente, longe do pai e da mãe, morando sozinhos no meu apartamento no ABC. Quando fiquei viúvo, tentei morar só, mas não consegui. Minha mãe vivia com a minha irmã e se mudou para tomar conta do filhinho dela. Mas posso dizer que meus filhos nunca se preocuparam com o fato de o pai deles ser o Lula. Sempre tiveram a vida deles, e eu acho que não significo para eles nada mais do que um pai. Só tem a Lurian, que me vê assim como um ídolo. O resto me vê como pai mesmo.

Veja – No começo do governo o senhor se comportava de forma rebelde em relação aos seguranças. Está mais disciplinado agora?
Lula – Eu tenho um ritmo. Acho que nem tenho de me adequar 100% ao que a segurança determina nem a segurança tem de se adequar 100% aos meus hábitos. Eu sempre gostei de sair dos atos públicos e cumprimentar as pessoas. Nunca vou deixar de fazer isso. Obviamente que a gente tem de tomar cuidado. No meio de 100 pessoas boas, pode ter uma que está com má-fé. Aliás, todos os atentados são assim. Eu lembro que o Oskar Lafontaine, ex-ministro das Finanças no governo Schroeder, na Alemanha, estava fazendo um discurso quando uma mulher foi lhe entregar um buquê de flores e deu-lhe uma punhalada. Ou seja, a gente tem de tomar cuidado.

Veja – O que o senhor deixou de fazer – e sente falta – ao assumir a Presidência?
Lula – Muitas coisas, muitas coisas. Por exemplo, eu tenho vontade de ir a um restaurante à noite em Brasília. Dizem que o Brasil já teve presidentes que saíam à noite de Fusquinha. Eu não faço isso. Fico em casa curtindo a minha vontade de ir a um restaurante jantar, até porque, se eu for, tenho de levar junto um aparato. Acabo ficando incomodado e também incomodando as pessoas no restaurante. Mas se tem alguém que não pode reclamar das restrições ligadas ao cargo de presidente sou eu. Briguei muito para estar onde estou. Passei a vida inteira desejando ser presidente da República. Se tem uma coisa que eu faço com prazer é o exercício do meu mandato. Tenho de dedicar a minha vida a isso. Eu sei que estou jogando minha história neste mandato.

Veja – O senhor se dizia patrulhado antes de ser presidente. Não podia ir a um bar e tomar uma cerveja. A patrulha aumentou?
Lula – Lógico que aumentou. Agora eu tenho gente na porta de casa sábado, domingo e feriado. Tem gente me vigiando o tempo inteiro. Mas quer saber o que é pior do que isso? É não ter isso. Sempre brinco com meus amigos dizendo o seguinte: sabe o que é a coisa pior do que dar autógrafo e tirar fotografia? É o dia em que ninguém quiser autógrafo nem quiser tirar fotografia com você.

 
 
 
 
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