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Entrevista
"Estou jogando minha
história neste mandato"
Fotos Ricardo Stuckert/PR
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À
VONTADE
Lula no gabinete no 3º andar do Palácio do Planalto: sem direito
de reclamar das agruras do cargo
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Durante
as duas horas de conversa com os jornalistas de VEJA, na semana
passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve alerta,
de bom humor e focado nas respostas. Emocionou-se uma única
vez, quando falou da vida confortável dos filhos, e lembrou-se
da mãe e da infância pobre. Mostrou-se à vontade
no imenso gabinete presidencial, de onde mandava chamar ministros
e buscar documentos para embasar mais vivamente os pontos de vista
expostos na entrevista.
Veja Há alguns dias especuladores apostaram
no enfraquecimento do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, para
obter ganhos nos mercados financeiros...
Lula
(interrompendo a pergunta) Olha, quem especular apostando
contra o Palocci vai perder. Se alguém quiser ganhar alguma
coisa apostando, recomendo que aposte a favor do Palocci. O Palocci
é da minha mais inteira confiança. Ele não
está aqui porque quis, ele está aqui porque eu quis
que ele estivesse aqui. Ele é um dos companheiros em quem
eu deposito o maior grau de confiança, o maior grau de companheirismo
e de lealdade. Nós estamos juntos há muitos anos.
Obviamente que você tem no Brasil uma disputa de interesses.
Muitos empresários não querem reconhecer que no fim
do ano passado exageraram no aumento de preços imaginando
que nós iríamos levar o país ao desastre. Só
que isso não aconteceu. Além disso, em economia não
se pode agradar a gregos e troianos. O setor exportador gostaria
que nós tivéssemos o dólar a 3,20; 3,30; 3,40
reais. Os setores que têm dívida em dólar gostariam
que a cotação do dólar voltasse a ser 1 para
1. Não é possível contentar a todos. Quem vai
regular o câmbio é o mercado, e o que vai dar estabilidade
à moeda é a retomada do crescimento econômico.
Veja
O que o senhor diria a um investidor estrangeiro indeciso
em colocar dinheiro no Brasil, na China ou na Polônia?
Lula
Aos empresários brasileiros e de qualquer parte do mundo
digo que temos um marco regulatório definido e um país
promissor e estável. Quero convidá-los a participar
correndo apenas os riscos naturais do sistema capitalista. É
assim que se convencem as pessoas a vir para cá, oferecendo
projetos concretos e viáveis. Não é por palavras
nem pela cor dos meus olhos. É por isso que nós estamos
investindo em obras de infra-estrutura prioritárias para
o desenvolvimento do Brasil e trabalhando no processo de integração
física da América do Sul. Vamos priorizar, por exemplo,
a Rodovia 101, no trecho que sai do Rio Grande do Norte e vai até
a Bahia. Se o Estado não tiver condições de
fazer, vamos fazer contratos de concessão. O Estado não
tem de ter medo de fazer concessão de serviço público.
O povo não quer saber quem fez, quer saber, sim, se a estrada
está em boas condições.
Veja Pessoas sérias fora do país, não
especuladores, comentam que faltam regras claras no Brasil. Elas
reclamam que o Brasil é um país juridicamente instável.
O que o senhor tem a dizer a essas pessoas?
Lula
Todo
mundo quer colocar o dinheiro num lugar que ofereça segurança.
Isso vale para o empresário, o estrangeiro, para mim, para
um trabalhador humilde que quer depositar seu dinheirinho na poupança
e para um megaempresário. Tenho consciência de que
nosso papel no governo é garantir a segurança de todos
os investidores, pequenos ou grandes, brasileiros ou estrangeiros.
Veja
Talvez esteja faltando ênfase do governo brasileiro
nesse ponto, ainda mais quando se sabe que o Brasil precisa competir
por recursos com o México, os países da Ásia
e da Europa do Leste...
Lula
O mercado brasileiro e o Brasil têm um potencial excepcional
para cativar interesses externos. Precisamos ser mais profissionais.
Se tivermos um projeto bem-feito, por que não convocar um
seminário com os empresários interessados e apresentar
a proposta? Não precisa fazer discurso. Basta o projeto,
bastam as regras. Para os investidores, o Brasil pode ser um grande
negócio. Para nós, em alguns casos a vinda deles é
essencial. Como é que nós vamos fazer saneamento básico
nas regiões metropolitanas deste país sem atrair investimentos
de fora? Não cabe mais aquele discurso ideológico
de que saneamento básico é obra do governo federal
e responsabilidade do governo estadual e do prefeito. Esse discurso
seria maravilhoso se tivéssemos dinheiro para fazer. Não
adianta fazer um bom discurso ideológico e o povo continuar
pisando em esgoto a céu aberto e bebendo água não
tratada.
Veja
Muitos dos estrangeiros que fizeram investimentos diretos
no Brasil perderam muito dinheiro. Os espanhóis, por exemplo.
Lula
Mas capitalismo é isso. Não existe capitalismo sem
risco. Eu estive na Espanha e conversei com todos os investidores
que colocaram dinheiro no Brasil no setor de telecomunicações
e nenhum deles reclamou. Pelo contrário, disseram que vão
continuar a investir no país.
Veja Mas, quando um ministro de Estado estimula as
pessoas a entrar na Justiça contra um contrato assinado,
que recado ele está passando para a sociedade e para os investidores?
Lula
Fizemos
um acordo com as empresas de telefonia, o ministro sentiu que ele
não havia sido cumprido, tentou ponderar com a Anatel para
exigir seu cumprimento. Mas agora a questão das telecomunicações
é um problema resolvido. O que o empresário deseja
são regras claras. Eu também desejo. Nós devemos
anunciar nos próximos dias uma proposta de marco regulatório.
Não vou antecipar o conteúdo, mas é uma proposta
muito convincente. Sou de uma geração e de uma terra
em que o fio do bigode valia mais que muito documento. Hoje já
não pode ser assim, porque há muita esperteza no mundo.
Então, nós queremos estabelecer regras claras para
que em qualquer canto do planeta as pessoas saibam que podem investir
com segurança no Brasil.
Veja
Na sua opinião, as agências reguladoras são
um avanço ou um entrave?
Lula
Comecei
me queixando muito das agências porque as vejo como uma forma
de terceirizar responsabilidades. Cria-se uma agência e ela
vai controlar os preços essenciais. De repente, o governo
fica sabendo do aumento de preço pelos jornais. O mais grave
é que, lá no bar, na igreja, na comunidade, o povo
não conhece a agência, só o governo. E ele é
que é xingado. A mãe do juiz é ele. Nós
decidimos que cada ministro vai tentar estabelecer uma melhor relação
com as agências para que a gente faça as coisas muito
mais combinadas e acertadas.
Veja Então mudou a abordagem?
Lula
Obviamente que eu mudei. Eu tenho quatro anos de mandato e não
posso passar metade do tempo brigando. Para mim, seria muito fácil
vencer meu primeiro ano de governo xingando meu antecessor, mostrando
tudo o que, no entender do meu governo, estava errado. Mas o que
o país ganharia com isso? Qual a imagem que eu passaria para
fora? Então, vamos cumprir com as nossas obrigações,
olhar para a frente.
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A
IMAGEM
Com a mulher, Marisa, durante uma cerimônia típica no Peru:
o Brasil vai aonde vai seu presidente
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À
distância dos radicais
Veja O senhor e o governo estão enfrentando
o fogo amigo, que é a reação dos radicais,
seus antigos companheiros de viagem. O senhor esperava que os radicais
fossem assim tão radicais?
Lula
Eu
pensava que as pessoas ligadas ao nosso projeto deveriam assumir
a responsabilidade de ser governo. Mas percebi que elas escolheram
outro caminho. Que o sigam. A opção delas é
legítima e o povo julgará quem está certo.
Veja
Soube-se que o senhor ficou especialmente decepcionado
com a senadora Heloísa Helena...
Lula
Não fiquei chateado. Quando eu comecei minha vida política,
aprendi que tem determinado tipo de gente que é melhor ficar
contra você do que a favor. Em 1979, o Celso Furtado me disse
uma coisa que permeou minha vida até agora. Ele disse: "Lula,
não se preocupe com o que os ultra-esquerdistas falam. Porque,
no fundo, eles são um alerta do caminho que você não
deve seguir. Mas, ao mesmo tempo, não permitem que você
vá muito para a direita". No fundo, eles te ajudam a continuar
no caminho do meio.
Veja
Trabalhar com amigos facilita a tarefa de governar ou
às vezes atrapalha?
Lula
Isso é uma coisa que me dá certa tranqüilidade.
O núcleo do governo no Palácio do Planalto é
um núcleo histórico meu: é o Luiz Gushiken,
é o Luiz Dulci, é o Zé Dirceu, é o Palocci.
Veja
Que tipo de crítica o irrita?
Lula Aprendi
que presidente não tem o direito de ficar irritado. Aos 57
anos, eu já apanhei tudo o que tinha de apanhar. Já
gastei minha capacidade de ficar irritado.
Veja
Qual foi o ministro que mais o surpreendeu positivamente?
Lula
O
problema de citar um é criar certa ciumeira. Mas eu posso
garantir que minha relação com o Ciro Gomes (ministro
da Integração Nacional) é excelente ou
melhor do que isso, se houver uma definição possível
acima disso. Ele tem sido de uma competência, de uma lealdade
e de uma dedicação estupendas. Toda vez que é
chamado para o debate tem sua contribuição para dar.
Veja
O senhor citaria um nome que o surpreendeu negativamente?
Lula Não
há.
Veja
Vai ter reforma ministerial?
Lula
Os
técnicos de futebol não tiram de campo um jogador
com dez minutos de jogo. Os governos também devem fazer o
mesmo. Sempre disse aos prefeitos e governadores do PT que eles
devem fazer uma avaliação da equipe ao fim dos primeiros
doze meses de gestão. Não antes. E não devem
agir com base em manchete de jornal. Se eu fosse levar a sério
o que diziam, o José Graziano (que entrou no gabinete
nesse momento) teria caído com três meses de ministério.
Se as pessoas têm competência, temos de dar tempo ao
tempo. Nenhum companheiro ou companheira deixará de ser ministro
porque alguém disse que ele não está bem. Na
hora em que eu chegar à conclusão de que alguém
não está dando certo, com a mesma lealdade com que
convidei vou pedir que saia.
Veja
A pressa maior parece ser de seus antigos aliados, por
exemplo a cúpula do MST...
Lula
As pessoas têm de cobrar. Não acho que a sociedade
deva ficar passiva porque o Lula ganhou as eleições.
Continuo acreditando que nós vamos fazer um grande acordo
com os trabalhadores que lutam pela reforma agrária neste
país, mas não podemos repetir o erro cometido até
agora. Quantos assentamentos produzem efetivamente? A maioria sobrevive
de cesta básica porque o assentamento tem sido tratado como
uma simples distribuição de terra. Quando só
dá a terra, o governo se livra de um problema social urbano
e cria um problema social rural. Levar alguém para o campo
significa providenciar assistência técnica, permitir
o acesso à semente e ao financiamento no tempo certo e garantir
o preço. Só assim a terra cumprirá sua função
social.
Veja
O senhor não se sente atingido quando João
Pedro Stedile fala em fazer a reforma agrária na marra?
Lula
Vou
dizer uma coisa: eu já falei várias frases de efeito
e mais tarde percebi que eram exageradas. Um grande amigo meu certa
vez foi condenado porque, na euforia de um comício, chamou
um presidente da República de canalha. Mas posso avisar aos
interessados que neste país ninguém faz reforma agrária
nem na marra nem no tapa. A reforma vai ser feita no tempo certo
e na medida do possível.
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NA
INTIMIDADE
O primeiro-casal no jardim do Palácio da Alvorada: ídolo apenas
aos olhos da filha Lurian. Para os outros filhos ele é apenas
um pai severo
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Sem
ondas na economia
Veja O senhor acha que Fernando Henrique Cardoso está
tendo papel positivo como ex-presidente?
Lula
Acho
que ele deu uma pisada na bola ao fazer comentários de caráter
político. A sabedoria recomenda que os ex-presidentes fiquem
quietos. Não há exemplos no mundo de presidentes que
terminam o mandato e ficam dando palpites favoráveis ou contrários
a quem assumiu. Em Davos, Bill Clinton me disse uma frase importante
quando eu quis conversar com ele sobre a guerra no Iraque. Ele falou:
"Olha, presidente, nos Estados Unidos nós não comentamos
atitudes do presidente. Eu sou ex-presidente e o atual é
o Bush. Eu não comento nenhuma decisão dele". Em outros
países, o ex simplesmente desaparece do cenário político-partidário.
A transição de governo foi muito boa para o Brasil,
e tem de ser assim. Pretendo manter essa relação cordial
com Fernando Henrique Cardoso, até porque temos laços
de amizade que transcendem meu mandato.
Veja Dá angústia ser presidente de um
país onde os problemas sociais parecem insolúveis?
Lula
Sim.
Da mesma forma que me dava angústia quando tinha filhos pequenos
e eles me escreviam cartinha pedindo um presente que eu não
podia comprar. Tinha de dizer a eles: "Olha, não pude comprar".
Mas eu preferia dizer isso a contar mentira, falar que amanhã
compraria. O povo é inteligente, sabe das dificuldades, sabe
esperar, desde que sinta que o presidente está sendo honesto.
Eu estou sendo 100% honesto. O país vai dar um salto de qualidade,
mas sem aventura. Eu não quero ser parte de uma onda. Vem
uma onda bonita, todo mundo quer surfar, depois a onda acaba e ninguém
sabe o que fazer. Temos de ter paciência. Não se pode
ficar dando choque na economia. A história do Brasil já
mostrou que choques criam uma euforia na sociedade que dura dois
meses e, depois disso, o resultado é sempre pior. Minha lógica
é a da paciência. Se tivermos de esperar um dia a mais,
um mês a mais para tomar uma decisão mais consistente,
vamos aguardar.
Veja Mas, presidente, o desemprego bate recordes, as
grandes cidades estão cada vez mais violentas. Quanto tempo
ainda será preciso esperar?
Lula
O povo já recuperou a auto-estima. Todas as pesquisas dizem
isso. O povo sabe esperar quando confia no presidente. As pessoas
sabem que tomamos posse há pouco tempo, que não podemos
apresentar muitos resultados antes de um ano de trabalho. Não
vou promover uma onda de crescimento que dê dois meses de
euforia ao povo brasileiro e depois só tristeza.
Veja
Alguma coisa pode ser feita enquanto o crescimento econômico
mais consistente não vem?
Lula
Há mais ou menos um ano e meio tenho pensado muito em como
quebrar o ciclo de miséria, violência e isolamento
que aflige as pessoas na periferia das grandes cidades. A questão
não é apenas falta de dinheiro. Temos um problema
sério que é o processo de desagregação
da estrutura da sociedade, que começa com a implosão
da família. Existe uma pobreza passiva e uma ativa. Quando
o cidadão está no semi-árido nordestino, ele
é pobre, mas ele tem a mãe dele, o pai. Além
disso, ele tem uma relação com São José,
porque ele espera todo ano até 19 de março para chover,
depois ele tem uma relação com o padre Cícero.
Ou seja, ele tem fé. Quando esse mesmo cidadão se
desloca para um grande centro urbano, seja Recife, seja São
Paulo, ele vai morar numa favela e perde essa rede de proteção.
Não tem mais o conforto dessas relações. Passa
a ser um sujeito que mora num barraco cercado de estranhos. O único
ambiente agradável que ele tem por perto é o bar,
o único conforto, a bebida. O morador do interior do Nordeste
tem a paciência de esperar pela chuva, por uma vida melhor.
O filho adolescente do nordestino que migrou para a cidade grande
não tem mais a mesma paciência. Quando ele vê,
está no fio da navalha. Para cair na criminalidade, é
um pulo.
Veja Como lidar com isso?
Lula
Nós temos de ter planos emergenciais para atuar nas grandes
periferias, porque é ali que a desgraça acontece,
ali que imperam a criminalidade, o tráfico de drogas. Atacar
isso é possivelmente mais útil à segurança
que todos nós queremos do que contratar mais policiais. Nós
estamos pensando como fazer para atacar esse problema nos grandes
centros urbanos, com obras de saneamento, obras de habitação,
para gerar emprego e um mínimo de qualidade de vida para
essas pessoas.
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REIS
E RAINHAS
Um brinde à rainha Sofia na viagem à Espanha, em julho: aceno
aos investidores estrangeiros
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Para
não penalizar o setor produtivo
Veja O senhor não teme um processo de colombização
do Brasil provocado por essa onda de violência?
Lula
O
Brasil tem outra formação cultural, a gente não
corre o risco de enveredar por caminhos semelhantes ao da Colômbia.
Mas precisamos adotar algumas medidas sociais de emergência
que ajudem a combater o problema.
Veja
Quais?
Lula
Estamos
estudando várias medidas para aumentar o dinheiro em circulação
e diminuir seu custo para as pessoas mais pobres. Por que o trabalhador
não pode ir ao banco pegar dinheiro e dar como garantia o
salário, descontando a prestação da folha de
pagamento? O risco do empréstimo cai e não há
por que o juro ser muito alto. Nós agora vamos fazer um negócio
que está em estudo para todos os aposentados brasileiros.
Estamos analisando a possibilidade de abrir uma linha de crédito
para que eles possam tomar até dois salários de empréstimo
pagando 2% de juros ao mês. São 19 milhões de
aposentados. Estamos pensando ainda em liberar 20% do fundo de garantia
para ser usado na compra de material de construção
destinado a reformar a casa.
Veja Quatro anos de governo é pouco?
Lula
O país precisa de um projeto de longo prazo, de vinte ou
trinta anos. Ninguém pode pensar numa nação
ao ritmo dos mandatos, de quatro em quatro anos. No meu caso, ainda
que inicie projetos de longo curso, trabalho com a idéia
fixa de que meu mandato termina no dia 31 de dezembro de 2006. E
que a partir de 1º de janeiro de 2007 o Brasil terá
outro presidente, que pode ser do mesmo partido, do mesmo projeto.
Mas essa preocupação não permeia minha cabeça
agora.
Veja Seu governo deu a impressão de que começou
muito arrastado, vagaroso, e que não ia decolar.
Lula
Todo mundo tem o direito de interpretar os fatos a seu modo. Eu
não espero a sociedade cobrar de mim. Eu me cobro todo santo
dia. No começo, a fase era outra, de montagem do governo.
Nós tínhamos a obsessão de não permitir
que a inflação voltasse. Em dezembro, a perspectiva
era que a inflação atingisse a casa de 40% no ano.
Hoje, trabalhamos com uma perspectiva de inflação
de 7%, o que nos dá certo fôlego para pensar em outras
coisas. Quando tomei posse, tinha clareza de que o primeiro ano
de governo seria dedicado à construção do alicerce
daquilo que será feito no ano seguinte. Um dos pilares era
justamente controlar a inflação. Outro era reduzir
a taxa de juros. Essas coisas têm de ser feitas de forma muito
cautelosa e muito pensada.
Veja Não aumentar a carga tributária
é um compromisso?
Lula
É um compromisso e está na nossa proposta. Nós
achamos que o Brasil, para ser competitivo na sua relação
de comércio exterior, não pode penalizar o setor produtivo.
Tudo o que pudermos fazer para aliviar o setor produtivo nós
vamos fazer. É isso que nos dará fôlego para
não ficar sendo pegos de sobressalto com fuga de capitais.
O
prazer de ser presidente
Veja O senhor nunca teve experiência executiva.
Como faz para se organizar?
Lula
Coloquei a minha companheira Clara Ant para anotar o conteúdo
de todas as conversas que tenho. Dessa forma sempre sei de quem
eu devo cobrar esta ou aquela tarefa, quem é que tem de executar.
Quando retomo uma conversa com um ministro, ele pode até
não saber, mas eu tenho na minha mesa tudo o que nós
decidimos na última reunião. Se não for assim,
as coisas não andam.
Veja Do ponto de vista pessoal e familiar, o senhor
se adaptou bem às exigências do cargo?
Lula
Tenho conseguido manter um ritmo bom de trabalho e repouso. Das
6 às 7 eu caminho com a Marisa em torno do Alvorada. Ida
e volta dá 4 200 metros. Depois, a gente faz um pouco de
ginástica e alongamento nos aparelhos. A piscina eu não
uso. É por causa da bursite, o ombro dói quando eu
dou braçadas. Estou fazendo acupuntura, dia sim, dia não,
mas acredito que eu vá ter de operar. Estou adiando, mas
não tem jeito. Um dos tendões até já
se rompeu. Essa história de cirurgia não me agrada.
Tenho horror a anestesia. É uma morte momentânea, e
eu não sou chegado a fazer teste com a morte.
Veja
Como seus filhos convivem com as circunstâncias
de ter um pai presidente?
Lula
Eles
estão vivendo a vida que eu sonhei ter quando era adolescente,
longe do pai e da mãe, morando sozinhos no meu apartamento
no ABC. Quando fiquei viúvo, tentei morar só, mas
não consegui. Minha mãe vivia com a minha irmã
e se mudou para tomar conta do filhinho dela. Mas posso dizer que
meus filhos nunca se preocuparam com o fato de o pai deles ser o
Lula. Sempre tiveram a vida deles, e eu acho que não significo
para eles nada mais do que um pai. Só tem a Lurian, que me
vê assim como um ídolo. O resto me vê como pai
mesmo.
Veja
No começo do governo o senhor se comportava de
forma rebelde em relação aos seguranças. Está
mais disciplinado agora?
Lula
Eu
tenho um ritmo. Acho que nem tenho de me adequar 100% ao que a segurança
determina nem a segurança tem de se adequar 100% aos meus
hábitos. Eu sempre gostei de sair dos atos públicos
e cumprimentar as pessoas. Nunca vou deixar de fazer isso. Obviamente
que a gente tem de tomar cuidado. No meio de 100 pessoas boas, pode
ter uma que está com má-fé. Aliás, todos
os atentados são assim. Eu lembro que o Oskar Lafontaine,
ex-ministro das Finanças no governo Schroeder, na Alemanha,
estava fazendo um discurso quando uma mulher foi lhe entregar um
buquê de flores e deu-lhe uma punhalada. Ou seja, a gente
tem de tomar cuidado.
Veja
O que o senhor deixou de fazer e sente falta
ao assumir a Presidência?
Lula
Muitas
coisas, muitas coisas. Por exemplo, eu tenho vontade de ir a um
restaurante à noite em Brasília. Dizem que o Brasil
já teve presidentes que saíam à noite de Fusquinha.
Eu não faço isso. Fico em casa curtindo a minha vontade
de ir a um restaurante jantar, até porque, se eu for, tenho
de levar junto um aparato. Acabo ficando incomodado e também
incomodando as pessoas no restaurante. Mas se tem alguém
que não pode reclamar das restrições ligadas
ao cargo de presidente sou eu. Briguei muito para estar onde estou.
Passei a vida inteira desejando ser presidente da República.
Se tem uma coisa que eu faço com prazer é o exercício
do meu mandato. Tenho de dedicar a minha vida a isso. Eu sei que
estou jogando minha história neste mandato.
Veja
O senhor se dizia patrulhado antes de ser presidente.
Não podia ir a um bar e tomar uma cerveja. A patrulha aumentou?
Lula
Lógico que aumentou. Agora eu tenho gente na porta de casa
sábado, domingo e feriado. Tem gente me vigiando o tempo
inteiro. Mas quer saber o que é pior do que isso? É
não ter isso. Sempre brinco com meus amigos dizendo o seguinte:
sabe o que é a coisa pior do que dar autógrafo e tirar
fotografia? É o dia em que ninguém quiser autógrafo
nem quiser tirar fotografia com você.
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