Edição 1816 . 20 de agosto de 2003

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Brasil
O fim do
começo


Eurípedes Alcântara, Eduardo Oinegue,
André Petry e Thaís Oyama

Ana Araújo
Luiz Inácio Lula da Silva durante entrevista a VEJA
Entrevista com o presidente
NA INTERNET
Notícias diárias sobre o governo Lula


Todo governo precisa de uma fase de acomodação ao poder, etapa em que a Esplanada dos Ministérios desenvolve os projetos da campanha e tenta tirar um deles do papel. A adaptação em geral se encerra quando um projeto importante se torna realidade e fica claro que o governo ganhou um curso. A vitória do Palácio do Planalto na votação da reforma da Previdência Social cumpre esse papel. Trata-se de um grande projeto aprovado na Câmara dos Deputados. A reforma previdenciária marca o fim desse começo, dessa fase de assentamento do governo Lula. Nas palavras do presidente, que adora uma comparação futebolística, é como se o ministério tivesse encerrado o aquecimento e entrasse em campo.

Ninguém está capacitado a fazer previsões otimistas ou pessimistas a respeito do desempenho do time de Lula, mas há indicações de que ele tomou cuidados essenciais para enfrentar o jogo. Prova disso é a entrevista exclusiva que o presidente concedeu a VEJA na semana passada, a primeira desde que tomou posse. Numa conversa que durou cerca de duas horas, Lula explicou por que os projetos sociais só serão acelerados agora ("No começo, a fase era outra. Tínhamos a obsessão de não permitir que a inflação voltasse"), reconheceu a importância do capital privado nacional e estrangeiro para reativar a economia ("Nosso papel é garantir a segurança de todos os investidores") e reforçou o papel de âncora da estabilidade cumprido pelo ministro da Fazenda ("Quem especular apostando contra Palocci vai perder"). Lula reagiu às incursões na política partidária feitas por seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso ("Ele deu uma pisada na bola"), e ao papel desempenhado pela senadora Heloísa Helena, petista radical e líder da oposição dentro do Partido dos Trabalhadores ("Tem determinado tipo de gente que é melhor ficar contra você do que a favor").

No fim de maio, quando deu sua primeira entrevista coletiva, Lula reuniu duas dúzias de jornalistas em torno da enorme mesa redonda de seu gabinete, exibiu um tremendo entusiasmo de estar sentado na cadeira presidencial e mostrou extrema confiança em sua capacidade de virar o jogo, qualquer jogo. Na manhã da quarta-feira passada, quando recebeu VEJA em seu gabinete, no 3º andar do Palácio do Planalto, Lula exibia outro estado de espírito, desta vez marcado pela serenidade. A autoconfiança permanece, está estampada em declarações como "corremos o belo risco de, no próximo ano, ter o maior programa social do mundo", mas agora aparece matizada pelas dificuldades naturais de governar. "Não tenho a ilusão de que vamos resolver tudo." Seu entusiasmo segue em alta, muito em alta, mas também soa mais sereno e ponderado. "Briguei muito para estar onde estou. Se tem alguém que não pode reclamar de ser presidente sou eu. Eu sei que estou jogando minha história neste mandato", afirma.

 
Ricardo Stuckert/PR

NA CABINE
O presidente Lula fala com admiração da tecnologia embarcada nos aviões que o transportam nas viagens internacionais

Aos 57 anos, com colesterol mais baixo e 8 quilos a menos, Lula anda de excelente humor – e delicia-se até com aquilo com que outros famosos costumam se incomodar. "Sabe o que é a coisa pior do que dar autógrafo e tirar fotografia? É o dia em que ninguém quiser autógrafo nem quiser tirar fotografia com você", diverte-se. Encantado com os aviões mais modernos que o Sucatão, apelido do Boeing 707 à disposição da Presidência da República há mais de trinta anos, Lula diz que quer trocar a frota ("Vamos ser cobrados por não trocar quando tiver velório de ministro") e conta que gostaria de ter uma dessas maravilhas aéreas que só faltam voar sozinhas. "Só precisa de um piloto e um cachorro. O piloto para dar comida ao cachorro. E o cachorro para acordar o piloto", brinca. Circulando pelo gabinete, mostra os amplos janelões de vidros blindados, recém-colocados. Conta que mandou arrumá-los porque, nos vidros antigos, havia uma película que começou a enrugar-se com o calor do sol. "As cortinas tinham de ficar fechadas. Não podia ficar daquele jeito. O pessoal ia entrar aqui e dizer: 'Esse não cuida nem das janelas e ainda quer cuidar do Brasil'." E ri. O peso e o colesterol foram reduzidos graças à dieta das proteínas, criada pelo médico americano Robert Atkins, que substitui a ingestão de carboidratos pelo consumo de gorduras. "Eu como picanha, carne de cabrito, queijo amarelo. Bebida, só no fim de semana. Às vezes, dá uma vontade de comer uma fatia de pão com manteiga, mas...", diz o presidente.

Entre Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva há uma semelhança de espírito e uma diferença de estilo. Celebrizado pela carranca e pelo cenho franzido de outrora, Lula mostra uma leveza de humor, revela-se quase tão descontraído quanto Fernando Henrique, que não deixava escapar uma tirada espirituosa nem nas horas mais dramáticas de seu governo. Mas, ao contrário do antecessor, que gostava de dedicar-se a grandes temas e evitava detalhes administrativos, Lula entrega-se com prazer às minúcias do cotidiano. Durante a conversa com VEJA, levantou-se duas vezes da poltrona para pegar papéis sobre sua mesa de trabalho e mostrar números e metas. A certa altura, em tom jocoso, reclamou que Gilberto Carvalho, seu fiel escudeiro de muitos anos, retirara uma papelada de sua mesa. Mandou acionar dois ministros – Luiz Gushiken, da Secretaria da Comunicação, e José Graziano, responsável pelo Fome Zero – para que lhe trouxessem documentos que sabia estarem em poder dos auxiliares.

O presidente dá a sensação de conjugar com tranqüilidade o peso de seus compromissos com a imensa tarefa de realizá-los. Tanto que, quase como um mantra, vive repisando apelos à paciência. Sobre a lentidão da máquina governamental, confessa que gostaria de maior agilidade, mas acha que um pouco de demora não é prejudicial – e fala do tempo: "A pressa é inimiga da perfeição". Sobre o manejo da política econômica e o ritmo com que a taxa de juros vem sendo reduzida, Lula lembra que a história do Brasil é marcada por choques que provocam euforia imediata, depois deixam um rastro de duradoura decepção – e fala do tempo: "Se tiver de esperar um dia a mais, um mês a mais, para tomar uma decisão mais consistente, vamos aguardar". Sobre as cobranças por mudanças mais profundas que estão tardando a aparecer: "Eu sei que as coisas não acontecem no tempo que você quer". Sobre a ampla negociação realizada em torno da reforma da Previdência Social: "O presidente da República tem de ter paciência". E dá-lhe tempo ao tempo.

Com paciência, Lula diz que só concluiu a montagem de seu governo há dois meses. Afirma que não pensa em promover uma reforma ministerial, se diz satisfeito com sua equipe – e faz juras de amor eterno ao ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Evita informar quem mais lhe surpreendeu, tanto para o bem quanto para o mal, mas rasga elogios ao ministro Ciro Gomes, da Integração Nacional. Indagado sobre possíveis decepções, o presidente garante que, até agora, não pensou em demitir nenhum ministro, mas, na mesma hora, lembra-se de Graziano, cujo Fome Zero começou com um cortejo de trapalhadas e agora o governo garante que vai decolar. "Se eu fosse levar a sério o que diziam, ele teria caído com três meses de ministério."

Quem tinha a expectativa de que Lula comandaria um governo de esquerda nostálgica pode perder a esperança – ou o receio, conforme o caso. A esse propósito, ele lembra um comentário que ouviu do economista Celso Furtado, em 1979, época em que ainda travava suas batalhas sindicais no ABC paulista. Diz o presidente, reproduzindo Celso Furtado: "Lula, não se preocupe com o que os ultra-esquerdistas falam. Porque no fundo, eles são um alerta do caminho que você não deve seguir. Mas, ao mesmo tempo, eles não permitem que você vá muito para a direita". Em seguida, o presidente conclui: "Isso permeou minha vida até agora". A entrevista a seguir é ilustrada com fotos feitas pelo fotógrafo oficial da Presidência, Ricardo Stuckert. Pelo cargo, ele é o único profissional de imagem que permanece ao lado de Lula quando os demais fotógrafos estão longe. Pelo talento, consegue aproveitar tais momentos para produzir um material fotográfico para hoje e para a história.

 
 
 
 
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