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Diogo
Mainardi
Varig
e TAM
"O
fato mais curioso na fusão da Varig
com a TAM é que ninguém sabe direito
quanto o governo federal irá gastar.
Li
que o BNDES ofereceu à empresa
um empréstimo-ponte de 700 milhões
de dólares, porém o presidente
do banco não confirma"
As
aeromoças da Varig encheram-me de mensagens na última
semana. Uma delas me elevou à condição de "defensor
da democracia". Outra me atribuiu "grande prestígio entre
os leitores". O meu ponto fraco é a adulação.
Basta falar bem a meu respeito que eu cedo. Ainda mais quando se
trata de aeromoças. Elas querem que eu me manifeste contra
a fusão entre a Varig e a TAM? Então eu me manifesto:
sou contra. Se tivessem pedido uma manifestação a
favor, eu teria me manifestado a favor.
De todas as mensagens enviadas pelas aeromoças da Varig,
as de gosto mais duvidoso foram aquelas com recortes de jornal relatando
acidentes com os Fokker da TAM. Falam de "fuga de fluido hidráulico",
de "fogo no trem de pouso", de "falha no auto-throttle", de "abertura
da porta lateral". As aeromoças da Varig mandaram-me também
misteriosas mensagens em código: RESTRICAO DE 20 PAX INF
DESPACHANTE DVD *CHUVA* EMCWB PT ACFT DEP POA COM 57 PAX TOT PT.
O que significa?
As aeromoças e os pilotos da Varig, pelo que entendi, querem
usar seus créditos trabalhistas para comprar a companhia,
mas o governo federal insiste em fundi-la com a TAM. A proposta
dos funcionários da Varig parece ter uns buracos. Inclui
investimentos do BNDES, só que o BNDES é favorável
à fusão com a TAM. Os funcionários também
contam com a participação do fundo de pensão
Aerus, embora o diretor do instituto já tenha avisado que
não quer saber do projeto, inclusive porque é ilegal.
O sindicato das aeromoças e dos pilotos da Varig é
filiado à CUT. Eles se arrependeram de ter votado em Lula.
Entupiram-me de mensagens sobre os 600 quilos de bombons encomendados
pelo Palácio do Planalto. O principal interessado na fusão
entre a Varig e a TAM, segundo as aeromoças, é José
Dirceu. Se José Dirceu é a favor de uma coisa, eu
sou contra. O problema é que o único aliado que as
aeromoças da Varig conseguiram encontrar até agora
foi o senador Marcelo Crivella. Eu não quero ser visto em
sua companhia.
O fato mais curioso na fusão da Varig com a TAM é
que ninguém sabe direito quanto o governo federal irá
gastar. Li que o BNDES ofereceu à empresa um empréstimo-ponte
de 700 milhões de dólares, porém o presidente
do banco, Carlos Lessa, negou-se a confirmar o número, alegando
"segredo bancário". As companhias aéreas pleiteiam
ajuda estatal porque foram prejudicadas pelo 11 de setembro. A Lufthansa
também foi, mas acaba de anunciar um lucro de 400 milhões
de dólares para o ano que vem. A Varig e a TAM também
reclamam da desregulamentação do setor aéreo
brasileiro. Qual desregulamentação? Desregulamentação
foi o que aconteceu na Europa. O resultado está aqui na minha
frente, no jornal. A Ryanair oferece passagens da Itália
para a Inglaterra por menos de 25 dólares. E da Itália
para a França por menos de 20. Para desregulamentar de verdade,
o Brasil, antes de mais nada, deveria vender os aeroportos e fechar
a Infraero.
A PanAm faliu. A TWA faliu. A Swissair faliu. Por que a Varig ou
a TAM não podem falir? É a regra básica da
economia: empresas mal administradas fecham as portas. Espero que
as aeromoças da Varig estejam satisfeitas comigo.
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