Edição 1816 . 20 de agosto de 2003

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Entrevista: Robert Parker
Preço não é qualidade

Para o maior crítico de vinhos
do mundo, o prazer da bebida
não tem a ver com tradição
nem com seu custo


Eduardo Salgado


DOS ARQUIVOS DE VEJA
Perfil de Robert Parker (28/3/2001)

O americano Robert Parker, de 56 anos, é um profissional único. Não existe crítico literário ou musical que tenha o poder de Parker em seu campo de atuação. Uma crítica favorável pode lançar o preço de um vinho às alturas. Por outro lado, uma resenha negativa na publicação The Wine Advocate ou no site www.erobertparker.com pode arruinar as vendas de qualquer vinícola. Parker tem dificuldade de se lembrar de detalhes visuais de fatos que presenciou há apenas uma semana, mas conta com memória gustativa e olfativa quase sobrenatural. Seu olfato está no seguro pelo valor de 1 milhão de dólares. Parker fundou sua reputação na capacidade extraordinária de distinguir aromas e sabores e se recordar deles. Ele revolucionou a crítica de vinhos, o que já lhe trouxe processos judiciais e até ameaças de morte. Parker, que mora em Maryland, nos Estados Unidos, falou a VEJA pelo telefone.

Veja – O senhor já provou algum vinho brasileiro?
Parker – Nunca coloquei uma gota de vinho brasileiro na boca. Trabalho com vinhos há 25 anos e jamais recebi algum telefonema de um importador oferecendo degustação de vinhos brasileiros. Nem fui procurado por um representante do governo brasileiro responsável pela promoção de vinhos. Vivo viajando e sei que é difícil me encontrar, mas tenho curiosidade de provar vinhos de diferentes lugares. Compro muito em lojas da região de Washington, onde moro, mas nunca vi o produto brasileiro à venda. Se é verdade que o Brasil está fazendo bons vinhos, é triste que ninguém os esteja promovendo.

Veja – A tradição do país produtor influencia a decisão do consumidor na hora da compra?
Parker – É verdade que a tradição ainda é muito importante. O fato de a França e a Itália produzirem vinhos há séculos é levado em conta. Mas acho que isso vem mudando um pouco. As pessoas mais jovens que estão começando a beber vinho não dão tanta importância à tradição. Querem qualidade. Isso acaba sendo uma grande oportunidade para países como Austrália, Nova Zelândia, Chile e Argentina. Se fazem vinhos bons e os oferecem por preço justo, podem aumentar muito as vendas. Especialmente no mercado dos Estados Unidos, porque os americanos não dão muita bola para a origem do vinho.

Veja – Em que medida a geografia ainda é importante na produção de vinhos?
Parker – Não há dúvida de que é impossível fazer bons vinhos em regiões muito geladas ou quentes. A maior parte dos vinhos de qualidade vem de regiões com clima temperado. Os vinhos do norte da África são satisfatórios, mas estão longe de ser complexos. O mesmo vale para algumas regiões da Califórnia. A geografia será sempre um fator crucial. A qualidade do solo e o clima são essenciais.

Veja – O senhor é o crítico de vinhos mais influente do mundo. Quando elogia um vinho barato e desconhecido, o preço sobe às alturas. Como se define um preço que seja justo?
Parker – O que é justo para uma pessoa pode ser injusto para outra. Posso dizer o que tento fazer. Minha filosofia é julgar o vinho pelo que está no cálice. Degusto um vinho de 10 dólares da mesma forma que um de 300. Alguns desses vinhos mais caros são, realmente, excelentes. Outros são uma frustração. Não chegam aos pés de alguns produtos que custam 15 dólares. Na hora de escrever, procuro focar no público americano, que está disposto a tomar um bom vinho por menos de 20 dólares a garrafa. Se você sabe escolher, não vai gastar mais de 100 dólares para tomar alguns dos melhores vinhos do mundo. Quem gasta mais está interessado em comprar prestígio ou raridade.

Veja – Ou seja, não se deve julgar a qualidade de um vinho pelo preço?
Parker – Para algumas pessoas, o preço alto de um produto é sinônimo de prestígio. Há muita gente extremamente rica sem nenhum gosto para escolher e beber vinhos. Ter um diploma universitário ou uma conta milionária não transforma ninguém em especialista. O conhecimento nessa área é resultado de degustações, leitura de críticas e contato com vinhos de diferentes lugares. A primeira coisa que os consumidores devem aprender é que o preço nem sempre é uma indicação de qualidade. Muitos vinhos caros são péssimos. Às vezes, o valor é alto porque o vinho é raro ou porque é produzido em região famosa. Brunello di Montalcino, na Itália, é um bom exemplo disso. Está cheia de vinhos frustrantes e caros. Na Borgonha, acontece a mesma coisa. Como nesses lugares também há vinhos maravilhosos, é melhor o consumidor saber o que está comprando. Descobrir vinhos baratos e fantásticos é mais difícil. Recentemente escrevi sobre um produtor espanhol chamado Las Rocas, que faz vinhos com uva grenache cujas vinhas chegam a quase 100 anos de idade. São maravilhosos e custam entre 10 e 15 dólares a garrafa.

Veja – O senhor concorda que hoje há mais vinhos bons e baratos que dez anos atrás?
Parker – Sim, sem dúvida. Eu diria que houve um grande progresso nos últimos cinco anos. Várias regiões do mundo melhoraram seus vinhos. Esse foi o caso da Côtes du Rhône, no sul da França, da Espanha, da Itália ao sul de Florença, dos vinhos com uva malbec da Argentina, do Chile e da Austrália. Essas áreas eram desconhecidas dez anos atrás. Hoje fazem vinhos de qualidade.

Veja – Quais são suas expectativas para os próximos anos? Os vinhos vão continuar se tornando cada vez melhores e mais acessíveis?
Parker – Nos anos 90, a economia mundial estava muito forte e vimos uma expansão incrível das áreas plantadas. Era como se todo o mundo civilizado fosse beber vinho. Com a desaceleração da economia, houve um recuo, e, por isso, estamos vendo uma estagnação. De qualquer forma, acredito que a competição fará com que a busca da qualidade continue sendo um fator crucial. Os franceses estão preocupados com os vinhos que estão chegando da Austrália e da América do Sul. Sabem que é possível fazer vinhos bons e baratos. Ou seja, abaixo da marca dos 15 dólares.

Veja – Por que a maior parte dos restaurantes cobra muito caro pelos vinhos que oferece?
Parker – Muitos restaurantes lucram muito mais com as bebidas que com a comida. É uma espécie de tradição. Os exageros são tão grandes que acabam prejudicando os amantes do vinho. Acho que os consumidores deveriam boicotar os restaurantes que cobram caro pelos vinhos.

Veja – Quais são os riscos de se tornar um apaixonado por vinhos?
Parker – Várias pesquisas já provaram que beber vinho com moderação é benéfico do ponto de vista médico. Faz bem ao coração, ajuda a relaxar. Mas, obviamente, precisa ser aproveitado sem excesso. Assim como fazemos com todas as coisas boas da vida. Na França, o consumo per capita caiu nos últimos anos, mas ainda é muito alto. Em função disso, os casos de cirrose são altos.

Veja – Qual é a explicação para o fascínio que o vinho exerce?
Parker – Eu sou um bom exemplo. Meus pais não bebiam nada de vinho. Vivia numa fazenda sem a menor sofisticação. Conheci o primeiro vinho quando fui visitar minha namorada, que viria a ser minha mulher, na França. O que mais me fascinou foi o fato de ser uma bebida com baixo teor alcoólico. Além disso, complementa a comida perfeitamente. É por isso que todos os grandes restaurantes têm uma carta de vinhos. A euforia que dois ou três cálices provocam é bastante moderada. Vai aumentando de forma sutil. É diferente das bebidas destiladas e da cerveja. Para mim, o vinho é a bebida perfeita.

Veja – O senhor não tem medo de perder a capacidade de sentir o aroma dos vinhos?
Parker – De modo geral, costumo degustar mais de 10 000 vinhos por ano. É muito, mas depende do tipo de vinho que se deguste. Se provo quarenta vinhos doces, começo a perder a sensibilidade e preciso parar. Na verdade, acho que minha capacidade atual de degustar está no auge por causa da experiência que acumulei. Na dúvida, já fiz um seguro. Se perder a sensibilidade, ganho 1 milhão de dólares.

Veja – Na degustação, o senhor cheira o vinho, coloca um pouco na boca, faz um bochecho e cospe fora. Qual é a graça?
Parker – Para um degustador profissional, esses poucos segundos são suficientes. É o tempo necessário para avaliar o produto. O que ainda ninguém pode afirmar com certeza é qual será a durabilidade do vinho. Dá apenas para fazer previsões.

Veja – Como o senhor definiria sua relação com os franceses?
Parker – É uma história de amor e ódio. Tenho vários amigos lá que reconhecem quanto meu trabalho trouxe de benefícios para o vinho francês. Por outro lado, há também os reacionários que têm muito poder. Como fazem vinhos de má qualidade, odeiam a idéia de críticos influentes. Querem vender com base na reputação. Estão sempre tentando atacar minha credibilidade.

Veja – Mas o senhor não acha que seu poder é realmente demasiado?
Parker – Nunca quis isso. Aconteceu, e não posso fazer nada. Para mim, essa influência é uma maldição. Cria mais problemas que soluções. Reconheço que tenho mais poder que qualquer outra pessoa no mundo dos vinhos. Mas, dito isso, é exagero afirmar que posso destruir uma vinícola. Sempre acreditei na nova geração de Bordeaux, e o mesmo vale para outras regiões. Pessoas que não pertencem a famílias tradicionais, mas que fazem bons vinhos. Degusto e, quando gosto, faço críticas positivas. Os tradicionalistas ficam enlouquecidos. Dizem que esses novatos precisam fazer bons vinhos durante 100 anos antes que alguém se disponha a elogiá-los. Não concordo. Não julgo o preço, a tradição nem a história. O que conheço e posso julgar é a qualidade do vinho. Acho isso revolucionário.

Veja – O senhor já foi ameaçado de morte na França. O senhor teme pela sua vida?
Parker – Não. Em 1990 tive de cancelar uma viagem à França para a promoção de um livro porque recebi várias ameaças aqui em meu escritório de Washington. Acho que era apenas um maluco solto. O problema maior são os produtores que ameaçam entrar com processos na Justiça. Já ganhei dois de produtores de Borgonha. Por precaução, tenho seguro e não vou deixar de dizer o que penso.

Veja – É verdade que o mercado mundial ficou mais homogêneo em razão de seu gosto?
Parker – Não concordo. As pessoas sempre tentam definir minhas preferências. A imprensa francesa vive me acusando de gostar apenas de vinhos com forte aroma de carvalho. Não levam em consideração que fui um dos maiores incentivadores dos vinhos brancos da Alsácia e dos feitos ao sul do Rhône. Esquecem que já critiquei vinhos por terem aroma excessivamente forte de carvalho.

Veja – Ou seja, nenhuma das críticas que fazem ao senhor é verdadeira?
Parker – O que, sim, é verdade é minha defesa de produções pequenas, menos industriais. Quando o viticultor diminui a produção, colhe um fruto com mais cor e açúcar. Acho que isso é uma evolução. Sou totalmente contra a homogeneização do mercado. Se todos os vinhos tiverem o mesmo gosto, o setor será destruído. Quero que um Malbec da Argentina continue diferente de um da França. Acredito na preservação de produtores artesanais. Não é possível fazer grandes vinhos em estruturas industriais do tipo que computadores decidem a hora certa de cada processo. Quando a lógica corporativa prevalece, o vinho não tem individualidade nem alma. Também é certo que fui responsável pelo repentino aumento do preço de determinados vinhos. Mas o que querem que eu faça? Minta sobre a qualidade deles para que os preços não subam?

Veja – O consumidor deveria, então, evitar vinhos de grandes corporações?
Parker – Não. Primeiro, porque a maioria das pessoas não toma um grande vinho todos os dias. Segundo, porque a qualidade também depende da variedade. Com as uvas cabernet sauvignon e chardonnay, é possível ter produções maiores. Com as merlot também. Mas com as pinot noir não há jeito. Existem grandes produtores que fazem grandes vinhos. O Penfolds, da Austrália, e a Casa Lapostolle, do Chile, são apenas dois exemplos.

Veja – Com que freqüência o senhor bebe vinho em casa?
Parker – Bebo meia garrafa todos os dias. Sempre na hora do jantar. Tem sido assim por trinta anos. Parece muito, mas eu tenho estrutura corporal para isso. Não corro o menor perigo de me tornar um alcoólatra. Se quiser parar, paro. Na verdade, duas vezes por ano fico algumas semanas sem beber.

Veja – Qual o vinho que o senhor escolheria para tomar se esse fosse seu último desejo?
Parker – Provavelmente um dos vinhedos do Guigal, um produtor da região do Rhône. Talvez um La Mouline ou um Petrus 1947 ou um Cheval Blanc 1947. Nasci em 1947, um ano de ótima colheita no Pomerol e em Saint-Émilion, duas sub-regiões de Bordeaux.

 
 
 
 
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