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Entrevista:
Robert
Parker
Preço
não é qualidade
Para o maior crítico de
vinhos
do mundo, o prazer da bebida
não tem a ver com tradição
nem com seu custo

Eduardo
Salgado
O
americano Robert Parker, de 56 anos, é um profissional único.
Não existe crítico literário ou musical que
tenha o poder de Parker em seu campo de atuação. Uma
crítica favorável pode lançar o preço
de um vinho às alturas. Por outro lado, uma resenha negativa
na publicação The Wine Advocate ou no site
www.erobertparker.com
pode arruinar as vendas de qualquer vinícola. Parker tem
dificuldade de se lembrar de detalhes visuais de fatos que presenciou
há apenas uma semana, mas conta com memória gustativa
e olfativa quase sobrenatural. Seu olfato está no seguro
pelo valor de 1 milhão de dólares. Parker fundou sua
reputação na capacidade extraordinária de distinguir
aromas e sabores e se recordar deles. Ele revolucionou a crítica
de vinhos, o que já lhe trouxe processos judiciais e até
ameaças de morte. Parker, que mora em Maryland, nos Estados
Unidos, falou a VEJA pelo telefone.
Veja O senhor já provou algum vinho brasileiro?
Parker
Nunca coloquei uma gota de vinho brasileiro na boca. Trabalho com
vinhos há 25 anos e jamais recebi algum telefonema de um
importador oferecendo degustação de vinhos brasileiros.
Nem fui procurado por um representante do governo brasileiro responsável
pela promoção de vinhos. Vivo viajando e sei que é
difícil me encontrar, mas tenho curiosidade de provar vinhos
de diferentes lugares. Compro muito em lojas da região de
Washington, onde moro, mas nunca vi o produto brasileiro à
venda. Se é verdade que o Brasil está fazendo bons
vinhos, é triste que ninguém os esteja promovendo.
Veja
A tradição do país produtor influencia
a decisão do consumidor na hora da compra?
Parker
É verdade que a tradição ainda é muito
importante. O fato de a França e a Itália produzirem
vinhos há séculos é levado em conta. Mas acho
que isso vem mudando um pouco. As pessoas mais jovens que estão
começando a beber vinho não dão tanta importância
à tradição. Querem qualidade. Isso acaba sendo
uma grande oportunidade para países como Austrália,
Nova Zelândia, Chile e Argentina. Se fazem vinhos bons e os
oferecem por preço justo, podem aumentar muito as vendas.
Especialmente no mercado dos Estados Unidos, porque os americanos
não dão muita bola para a origem do vinho.
Veja
Em que medida a geografia ainda é importante na
produção de vinhos?
Parker
Não
há dúvida de que é impossível fazer
bons vinhos em regiões muito geladas ou quentes. A maior
parte dos vinhos de qualidade vem de regiões com clima temperado.
Os vinhos do norte da África são satisfatórios,
mas estão longe de ser complexos. O mesmo vale para algumas
regiões da Califórnia. A geografia será sempre
um fator crucial. A qualidade do solo e o clima são essenciais.
Veja
O senhor é o crítico de vinhos mais influente
do mundo. Quando elogia um vinho barato e desconhecido, o preço
sobe às alturas. Como se define um preço que seja
justo?
Parker
O
que é justo para uma pessoa pode ser injusto para outra.
Posso dizer o que tento fazer. Minha filosofia é julgar o
vinho pelo que está no cálice. Degusto um vinho de
10 dólares da mesma forma que um de 300. Alguns desses vinhos
mais caros são, realmente, excelentes. Outros são
uma frustração. Não chegam aos pés de
alguns produtos que custam 15 dólares. Na hora de escrever,
procuro focar no público americano, que está disposto
a tomar um bom vinho por menos de 20 dólares a garrafa. Se
você sabe escolher, não vai gastar mais de 100 dólares
para tomar alguns dos melhores vinhos do mundo. Quem gasta mais
está interessado em comprar prestígio ou raridade.
Veja
Ou seja, não se deve julgar a qualidade de um vinho
pelo preço?
Parker
Para
algumas pessoas, o preço alto de um produto é sinônimo
de prestígio. Há muita gente extremamente rica sem
nenhum gosto para escolher e beber vinhos. Ter um diploma universitário
ou uma conta milionária não transforma ninguém
em especialista. O conhecimento nessa área é resultado
de degustações, leitura de críticas e contato
com vinhos de diferentes lugares. A primeira coisa que os consumidores
devem aprender é que o preço nem sempre é uma
indicação de qualidade. Muitos vinhos caros são
péssimos. Às vezes, o valor é alto porque o
vinho é raro ou porque é produzido em região
famosa. Brunello di Montalcino, na Itália, é um bom
exemplo disso. Está cheia de vinhos frustrantes e caros.
Na Borgonha, acontece a mesma coisa. Como nesses lugares também
há vinhos maravilhosos, é melhor o consumidor saber
o que está comprando. Descobrir vinhos baratos e fantásticos
é mais difícil. Recentemente escrevi sobre um produtor
espanhol chamado Las Rocas, que faz vinhos com uva grenache cujas
vinhas chegam a quase 100 anos de idade. São maravilhosos
e custam entre 10 e 15 dólares a garrafa.
Veja O senhor concorda que hoje há mais vinhos
bons e baratos que dez anos atrás?
Parker
Sim, sem dúvida. Eu diria que houve um grande progresso nos
últimos cinco anos. Várias regiões do mundo
melhoraram seus vinhos. Esse foi o caso da Côtes du Rhône,
no sul da França, da Espanha, da Itália ao sul de
Florença, dos vinhos com uva malbec da Argentina, do Chile
e da Austrália. Essas áreas eram desconhecidas dez
anos atrás. Hoje fazem vinhos de qualidade.
Veja
Quais são suas expectativas para os próximos
anos? Os vinhos vão continuar se tornando cada vez melhores
e mais acessíveis?
Parker
Nos anos 90, a economia mundial estava muito forte e vimos uma expansão
incrível das áreas plantadas. Era como se todo o mundo
civilizado fosse beber vinho. Com a desaceleração
da economia, houve um recuo, e, por isso, estamos vendo uma estagnação.
De qualquer forma, acredito que a competição fará
com que a busca da qualidade continue sendo um fator crucial. Os
franceses estão preocupados com os vinhos que estão
chegando da Austrália e da América do Sul. Sabem que
é possível fazer vinhos bons e baratos. Ou seja, abaixo
da marca dos 15 dólares.
Veja
Por que a maior parte dos restaurantes cobra muito caro
pelos vinhos que oferece?
Parker
Muitos restaurantes lucram muito mais com as bebidas que com a comida.
É uma espécie de tradição. Os exageros
são tão grandes que acabam prejudicando os amantes
do vinho. Acho que os consumidores deveriam boicotar os restaurantes
que cobram caro pelos vinhos.
Veja
Quais são os riscos de se tornar um apaixonado
por vinhos?
Parker
Várias pesquisas já provaram que beber vinho com moderação
é benéfico do ponto de vista médico. Faz bem
ao coração, ajuda a relaxar. Mas, obviamente, precisa
ser aproveitado sem excesso. Assim como fazemos com todas as coisas
boas da vida. Na França, o consumo per capita caiu nos últimos
anos, mas ainda é muito alto. Em função disso,
os casos de cirrose são altos.
Veja
Qual é a explicação para o fascínio
que o vinho exerce?
Parker
Eu sou um bom exemplo. Meus pais não bebiam nada de vinho.
Vivia numa fazenda sem a menor sofisticação. Conheci
o primeiro vinho quando fui visitar minha namorada, que viria a
ser minha mulher, na França. O que mais me fascinou foi o
fato de ser uma bebida com baixo teor alcoólico. Além
disso, complementa a comida perfeitamente. É por isso que
todos os grandes restaurantes têm uma carta de vinhos. A euforia
que dois ou três cálices provocam é bastante
moderada. Vai aumentando de forma sutil. É diferente das
bebidas destiladas e da cerveja. Para mim, o vinho é a bebida
perfeita.
Veja O senhor não tem medo de perder a capacidade
de sentir o aroma dos vinhos?
Parker
De modo geral, costumo degustar mais de 10 000 vinhos por ano. É
muito, mas depende do tipo de vinho que se deguste. Se provo quarenta
vinhos doces, começo a perder a sensibilidade e preciso parar.
Na verdade, acho que minha capacidade atual de degustar está
no auge por causa da experiência que acumulei. Na dúvida,
já fiz um seguro. Se perder a sensibilidade, ganho 1 milhão
de dólares.
Veja
Na degustação, o senhor cheira o vinho,
coloca um pouco na boca, faz um bochecho e cospe fora. Qual é
a graça?
Parker
Para um degustador profissional, esses poucos segundos são
suficientes. É o tempo necessário para avaliar o produto.
O que ainda ninguém pode afirmar com certeza é qual
será a durabilidade do vinho. Dá apenas para fazer
previsões.
Veja
Como o senhor definiria sua relação com
os franceses?
Parker
É uma história de amor e ódio. Tenho vários
amigos lá que reconhecem quanto meu trabalho trouxe de benefícios
para o vinho francês. Por outro lado, há também
os reacionários que têm muito poder. Como fazem vinhos
de má qualidade, odeiam a idéia de críticos
influentes. Querem vender com base na reputação. Estão
sempre tentando atacar minha credibilidade.
Veja
Mas o senhor não acha que seu poder é realmente
demasiado?
Parker
Nunca
quis isso. Aconteceu, e não posso fazer nada. Para mim, essa
influência é uma maldição. Cria mais
problemas que soluções. Reconheço que tenho
mais poder que qualquer outra pessoa no mundo dos vinhos. Mas, dito
isso, é exagero afirmar que posso destruir uma vinícola.
Sempre acreditei na nova geração de Bordeaux, e o
mesmo vale para outras regiões. Pessoas que não pertencem
a famílias tradicionais, mas que fazem bons vinhos. Degusto
e, quando gosto, faço críticas positivas. Os tradicionalistas
ficam enlouquecidos. Dizem que esses novatos precisam fazer bons
vinhos durante 100 anos antes que alguém se disponha a elogiá-los.
Não concordo. Não julgo o preço, a tradição
nem a história. O que conheço e posso julgar é
a qualidade do vinho. Acho isso revolucionário.
Veja O senhor já foi ameaçado de morte
na França. O senhor teme pela sua vida?
Parker
Não.
Em 1990 tive de cancelar uma viagem à França para
a promoção de um livro porque recebi várias
ameaças aqui em meu escritório de Washington. Acho
que era apenas um maluco solto. O problema maior são os produtores
que ameaçam entrar com processos na Justiça. Já
ganhei dois de produtores de Borgonha. Por precaução,
tenho seguro e não vou deixar de dizer o que penso.
Veja
É verdade que o mercado mundial ficou mais homogêneo
em razão de seu gosto?
Parker
Não concordo. As pessoas sempre tentam definir minhas preferências.
A imprensa francesa vive me acusando de gostar apenas de vinhos
com forte aroma de carvalho. Não levam em consideração
que fui um dos maiores incentivadores dos vinhos brancos da Alsácia
e dos feitos ao sul do Rhône. Esquecem que já critiquei
vinhos por terem aroma excessivamente forte de carvalho.
Veja
Ou seja, nenhuma das críticas que fazem ao senhor
é verdadeira?
Parker
O que, sim, é verdade é minha defesa de produções
pequenas, menos industriais. Quando o viticultor diminui a produção,
colhe um fruto com mais cor e açúcar. Acho que isso
é uma evolução. Sou totalmente contra a homogeneização
do mercado. Se todos os vinhos tiverem o mesmo gosto, o setor será
destruído. Quero que um Malbec da Argentina continue diferente
de um da França. Acredito na preservação de
produtores artesanais. Não é possível fazer
grandes vinhos em estruturas industriais do tipo que computadores
decidem a hora certa de cada processo. Quando a lógica corporativa
prevalece, o vinho não tem individualidade nem alma. Também
é certo que fui responsável pelo repentino aumento
do preço de determinados vinhos. Mas o que querem que eu
faça? Minta sobre a qualidade deles para que os preços
não subam?
Veja
O consumidor deveria, então, evitar vinhos de grandes
corporações?
Parker
Não. Primeiro, porque a maioria das pessoas não toma
um grande vinho todos os dias. Segundo, porque a qualidade também
depende da variedade. Com as uvas cabernet sauvignon e chardonnay,
é possível ter produções maiores. Com
as merlot também. Mas com as pinot noir não há
jeito. Existem grandes produtores que fazem grandes vinhos. O Penfolds,
da Austrália, e a Casa Lapostolle, do Chile, são apenas
dois exemplos.
Veja
Com que freqüência o senhor bebe vinho em casa?
Parker
Bebo meia garrafa todos os dias. Sempre na hora do jantar. Tem sido
assim por trinta anos. Parece muito, mas eu tenho estrutura corporal
para isso. Não corro o menor perigo de me tornar um alcoólatra.
Se quiser parar, paro. Na verdade, duas vezes por ano fico algumas
semanas sem beber.
Veja Qual o vinho que o senhor escolheria para tomar
se esse fosse seu último desejo?
Parker
Provavelmente
um dos vinhedos do Guigal, um produtor da região do Rhône.
Talvez um La Mouline ou um Petrus 1947 ou um Cheval Blanc 1947.
Nasci em 1947, um ano de ótima colheita no Pomerol e em Saint-Émilion,
duas sub-regiões de Bordeaux.
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