Em
foco: Gustavo Franco
Contas
públicas
e investimento
"O
que o governo deveria evitar
neste momento delicado para
fugir
da elevação do risco Brasil e da queda
no investimento privado"
Para
que o cidadão comum entenda o problema de nossas contas públicas
deveriam bastar uns poucos números: a receita, a despesa
e o déficit. É simples: o governo coleta impostos,
faz diversos tipos de gasto e a diferença é "lucro"
ou "prejuízo". Dar "lucro" não é propriamente
o que os governos devem procurar, exceto, talvez, se estiverem muito,
mas muito, endividados, e este não é bem nosso caso
(ou é?).
Ilustração Ale Setti
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Dar "prejuízo", por outro lado, também não
é o caminho, pois implica o governo tomar dinheiro emprestado
para fechar suas contas, e, se isso se tornar um hábito,
facilmente se transformará em vício, gerando dependência
progressiva e tudo o que acompanha esse ciclo degenerativo. Vivemos
uma hiperinflação, sabemos que não há
cura para alcoolismo, apenas abstinência.
Os
números básicos acima mencionados, medidos como porcentagens
do PIB, são aproximadamente os seguintes: a despesa pública
está na faixa de uns 35%, a receita (mais conhecida como
"a carga tributária"), em uns 31%, e a diferença entre
os dois (mais conhecida como "o déficit público" ou
ainda "o déficit nominal"), na faixa de 4%, sendo esse o
acréscimo que a dívida pública sofre a cada
ano.
Como
é fácil de ver, o setor público está
dando "prejuízo", pouco importa que dê "lucro" antes
do pagamento dos juros. Fomos ensinados a chamar esse conceito de
"lucro afora os juros" de "superávit primário". Quem
não é do ramo e ouve dizer que o governo tem um "superávit",
ainda mais "primário", nem sempre se dá conta de que
se trata apenas de uma definição contábil muito
específica cujo uso disseminado tem como conseqüência,
freqüentemente, dar a falsa impressão de que existe
dinheiro sobrando no cofre do ministro Palocci.
Tem
gente que acha que a situação de nossas contas públicas
não é periclitante porque, a despeito de a dívida
pública aumentar constantemente em valor, a razão
dívida pública/PIB mantém-se relativamente
estável ou levemente cadente. Ou seja, o estabelecimento
deve ao banco, mas o leitor deve ficar tranqüilo, pois a dívida
se mantém estável, por exemplo, como porcentagem do
faturamento.
Se
o leitor não gostar dessa explicação, estará
em muito boa companhia, pois são muitos os economistas que
acham que a situação de nossas contas públicas
não é apenas ruim, mas instável. Na verdade,
é exatamente por isso, ou principalmente por isso, que é
tão alto o chamado risco Brasil. Sendo este nada mais que
uma medida da capacidade do Tesouro Nacional de cumprir seus compromissos,
deve ser evidente que será tanto pior quanto maior, ou mais
volátil, a razão dívida/PIB.
Pois
bem, é neste momento delicado que se apresentam três
tipos de riscos que o governo faria bem em afastar.
O
primeiro é adotar truques contábeis para ocultar aumentos
no déficit público. Um desses artifícios, muito
falado ultimamente, é tirar do cálculo do "superávit
primário" as despesas de investimento, como se fossem gratuitas
ou pagas com dinheiro de mentirinha. Seria como um "superávit
secundário".
O
segundo é a perda de controle do processo de reforma tributária,
gerando com isso redução de carga tributária
(e não racionalização) combinada com aumento
de despesa, o que inevitavelmente se segue da elevação
nas transferências de receitas para Estados e municípios.
O
terceiro é repetir o desastre que ocorreu com os bancos estaduais,
agora tendo como protagonistas os fundos de pensão, que não
são instituições de fomento, tampouco "instrumentos"
da política econômica do governo. Os fundos de pensão
não podem gastar em fomento o dinheiro que vai gerar os recursos
para as aposentadorias de seus participantes, da mesma forma que
os bancos estaduais não podem fazer fomento com o dinheiro
de seus depositantes.
A
compreensível ansiedade do governo em acordar o investimento,
e com isso retomar o crescimento, não pode gerar decisões
que resultem em deteriorar as já combalidas contas do governo,
pois assim estaria produzindo um efeito exatamente oposto ao pretendido:
elevação do risco Brasil e queda no investimento privado.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco
Central
(gfranco@palavra.com,
www.gfranco.com.br)
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