Edição 1816 . 20 de agosto de 2003

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Em foco: Gustavo Franco
Contas públicas
e investimento

"O que o governo deveria evitar
neste momento delicado
para fugir
da elevação do risco Brasil e da queda
no investimento privado"

Para que o cidadão comum entenda o problema de nossas contas públicas deveriam bastar uns poucos números: a receita, a despesa e o déficit. É simples: o governo coleta impostos, faz diversos tipos de gasto e a diferença é "lucro" ou "prejuízo". Dar "lucro" não é propriamente o que os governos devem procurar, exceto, talvez, se estiverem muito, mas muito, endividados, e este não é bem nosso caso (ou é?).

Ilustração Ale Setti


Dar "prejuízo", por outro lado, também não é o caminho, pois implica o governo tomar dinheiro emprestado para fechar suas contas, e, se isso se tornar um hábito, facilmente se transformará em vício, gerando dependência progressiva e tudo o que acompanha esse ciclo degenerativo. Vivemos uma hiperinflação, sabemos que não há cura para alcoolismo, apenas abstinência.

Os números básicos acima mencionados, medidos como porcentagens do PIB, são aproximadamente os seguintes: a despesa pública está na faixa de uns 35%, a receita (mais conhecida como "a carga tributária"), em uns 31%, e a diferença entre os dois (mais conhecida como "o déficit público" ou ainda "o déficit nominal"), na faixa de 4%, sendo esse o acréscimo que a dívida pública sofre a cada ano.

Como é fácil de ver, o setor público está dando "prejuízo", pouco importa que dê "lucro" antes do pagamento dos juros. Fomos ensinados a chamar esse conceito de "lucro afora os juros" de "superávit primário". Quem não é do ramo e ouve dizer que o governo tem um "superávit", ainda mais "primário", nem sempre se dá conta de que se trata apenas de uma definição contábil muito específica cujo uso disseminado tem como conseqüência, freqüentemente, dar a falsa impressão de que existe dinheiro sobrando no cofre do ministro Palocci.

Tem gente que acha que a situação de nossas contas públicas não é periclitante porque, a despeito de a dívida pública aumentar constantemente em valor, a razão dívida pública/PIB mantém-se relativamente estável ou levemente cadente. Ou seja, o estabelecimento deve ao banco, mas o leitor deve ficar tranqüilo, pois a dívida se mantém estável, por exemplo, como porcentagem do faturamento.

Se o leitor não gostar dessa explicação, estará em muito boa companhia, pois são muitos os economistas que acham que a situação de nossas contas públicas não é apenas ruim, mas instável. Na verdade, é exatamente por isso, ou principalmente por isso, que é tão alto o chamado risco Brasil. Sendo este nada mais que uma medida da capacidade do Tesouro Nacional de cumprir seus compromissos, deve ser evidente que será tanto pior quanto maior, ou mais volátil, a razão dívida/PIB.

Pois bem, é neste momento delicado que se apresentam três tipos de riscos que o governo faria bem em afastar.

O primeiro é adotar truques contábeis para ocultar aumentos no déficit público. Um desses artifícios, muito falado ultimamente, é tirar do cálculo do "superávit primário" as despesas de investimento, como se fossem gratuitas ou pagas com dinheiro de mentirinha. Seria como um "superávit secundário".

O segundo é a perda de controle do processo de reforma tributária, gerando com isso redução de carga tributária (e não racionalização) combinada com aumento de despesa, o que inevitavelmente se segue da elevação nas transferências de receitas para Estados e municípios.

O terceiro é repetir o desastre que ocorreu com os bancos estaduais, agora tendo como protagonistas os fundos de pensão, que não são instituições de fomento, tampouco "instrumentos" da política econômica do governo. Os fundos de pensão não podem gastar em fomento o dinheiro que vai gerar os recursos para as aposentadorias de seus participantes, da mesma forma que os bancos estaduais não podem fazer fomento com o dinheiro de seus depositantes.

A compreensível ansiedade do governo em acordar o investimento, e com isso retomar o crescimento, não pode gerar decisões que resultem em deteriorar as já combalidas contas do governo, pois assim estaria produzindo um efeito exatamente oposto ao pretendido: elevação do risco Brasil e queda no investimento privado.

 

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com, www.gfranco.com.br)

 
 
 
 
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