Edição 1914 . 20 de julho de 2005

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Livros
A família dos best-sellers

Como a Sextante dominou as listas
de livros mais vendidos do país


Jerônimo Teixeira

 

Oscar Cabral
Geraldo, Marcos e Tomás Pereira: farejadores de obras de sucesso

A editora carioca Sextante emplacou onze livros na lista de mais vendidos de VEJA desta semana – ou seja, ocupou mais de um terço dela. É um resultado que vem se repetindo regularmente e confirma a Sextante, empresa de porte médio que ainda não completou dez anos de atividade, como o grande fenômeno do mercado editorial na atualidade. Seu maior sucesso é o thriller O Código Da Vinci, do americano Dan Brown, com 840.000 exemplares comercializados (e mais 30.000 de uma edição especial ilustrada). No entanto, o Código é um livro excepcional para a empresa, cujo sucesso está fundamentado num dos nichos mais lucrativos do mercado: a auto-ajuda. A Sextante – que em 2004 faturou 25 milhões de reais e neste ano espera chegar aos 30 milhões – é uma empresa familiar. Trata-se de uma sociedade entre os irmãos Marcos e Tomás Pereira e seu pai, Geraldo Pereira. O clã tem tradição na indústria livreira: Geraldo é filho de José Olympio, um dos editores mais importantes do país no século XX (veja quadro).

Apesar de serem conhecidos pela agressividade no mercado, os Pereira têm um jeitão boa-praça, sereno, muito de acordo com quem leva a vida publicando obras de aconselhamento espiritual. E sempre tiveram grande faro para garimpar obras de potencial no gênero. Um exemplo é Um Dia "Daqueles", do australiano Bradley Trevor Greive, publicado em 2001 – um livro simpático mas anódino, com frases inspiradoras acompanhadas de fotos de bichos. Os irmãos Pereira compraram os direitos do livro na Feira de Frankfurt, na Alemanha, por um adiantamento de 5.000 dólares. Só depois souberam que o preço era um tanto extorsivo: outra editora havia pago a mesma quantia para lançar a obra num mercado bem mais vigoroso, o Japão. "No avião de volta para o Brasil, eu me remoía de remorso", lembra Tomás. Mas o investimento foi rapidamente recuperado: Um Dia "Daqueles" é hoje o segundo livro mais vendido da editora, com 740.000 exemplares.

A fidelidade à linha editorial, aliás, quase custou à Sextante a perda de seu maior sucesso. Geraldo teve acesso ao livro de Dan Brown em 2003, antes de seu lançamento nos Estados Unidos. Marcos e Tomás não se animaram muito em comprar seus direitos, por julgarem-no fora da área de interesse da Sextante. Mas o pai devorou o livro e cismou que deveriam lançá-lo. "O argumento que nos convenceu foi que ele prometeu nunca mais insistir para publicarmos outro thriller", diz Marcos. O livro foi comprado com um adiantamento de 12.000 dólares, oferta que bateu por pouco a de um gigante editorial brasileiro. Em retrospecto, uma pechincha.

Foi graças a esse faro que a Sextante conseguiu expandir sua vendagem de 250.000 exemplares, em 1998, quando surgiu a empresa, para 2 milhões de livros no ano passado – e isso num período de retração do mercado (veja quadro abaixo). A família pretende continuar nessa toada. Neste ano, ainda vai lançar outro livro de Dan Brown, Ponto de Impacto, e espera fechar 2005 com 2,5 milhões de livros vendidos. No ano que vem, a Sextante fará sua primeira grande investida na área de não-ficção. Mas aí, definitivamente, o investimento não será tão às cegas: uma autobiografia de ninguém menos que Pelé.

 

 

Do Olimpo ao ocaso editorial

 

Arquivo pessoal
Olympio, com Drummond (à esq.) e Bandeira: era de glória

Geraldo Jordão Pereira, o editor veterano da Sextante, começou sua carreira no mundo editorial trabalhando na ante-sala de seu pai, José Olympio (1902-1990), nos anos 50. Não haveria lugar melhor para começar: por ali cruzavam autores como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Gilberto Freyre. Criada em 1931, a José Olympio foi uma das mais legendárias editoras brasileiras. Nos tempos ambíguos do Estado Novo de Getúlio Vargas, publicou obras do ditador – mas também Angústia, de Graciliano Ramos, lançado quando o autor era preso político do regime, em 1936. Geraldo lembra de episódios saborosos da época em que a editora era ponto de encontro de autores. Guimarães Rosa, por exemplo, era conhecido por cultivar uma bem-humorada vaidade. Certo dia, Geraldo saudou o autor de Grande Sertão: Veredas logo que ele entrou na casa: "Como vai o maior escritor do Brasil?". Rosa retrucou de pronto: "Por que a restrição?". E caiu na gargalhada. A José Olympio foi vítima da própria expansão: fez apostas arriscadas, como a edição de coleções ilustradas da Time-Life, caras e de vendagem pouco expressiva. A crise do petróleo, em 1973, levou a empresa a uma situação falimentar – e no ano seguinte um banco estatal encampou a editora. A José Olympio seria vendida a investidores privados nos anos 80, e em 2001 foi adquirida pelo grupo Record, no qual permanece como selo independente. Mas autores como Manuel Bandeira e Guimarães Rosa, que fizeram os anos dourados da editora, já não são mais de seu catálogo.

 
 
 
 
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