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Comportamento Guerra
de nervos Pesquisa mostra que homens e mulheres
se estressam mais ou menos no trabalho por diferentes motivos
 Rosana
Zakabi
Nélio
Rodrigues/1º Plano
 | | O
advogado Salles: "Gostaria de me reciclar, mas falta tempo" | |
O brasileiro trabalha em
média 52 horas por semana e a tendência é que essa carga horária
aumente consideravelmente na próxima década. Além disso,
as responsabilidades de cada profissional devem se tornar ainda mais pesadas,
com o gradativo acúmulo de funções (uma característica
da era pós-industrial) e o acirramento da competitividade em todos os setores
produtivos. É inevitável, portanto, que cresça também
o número de trabalhadores estressados e, conseqüentemente,
de estudos sobre o stress, uma área de pesquisa que dificilmente produz
algo que vá além do óbvio. Pois bem, um estudo não
tão óbvio acaba de ser divulgado pela filial brasileira da International
Stress Management Association (Isma), instituição formada por médicos
e psicólogos e presente em doze países. Ele mostra que mulheres
e homens se estressam mais ou menos no trabalho por diferentes razões.
Para o estudo, foram ouvidos 600 funcionários de quatro grandes empresas
em São Paulo, Porto Alegre e Belém. Numa primeira etapa, os participantes
foram perguntados sobre o que lhes causava mais perturbação no escritório.
Chegou-se a dezoito fatores, desde excesso de exigências por parte da chefia
até tensões provocadas pelas novas tecnologias (internet fora do
ar, celular sem sinal etc.). Em seguida, homens e mulheres foram entrevistados
separadamente, para que se identificassem os principais motivos de stress em cada
grupo. O que mais causa stress nas mulheres é
a sobrecarga de trabalho. Entre os homens, é o medo de perder o emprego
(veja quadro abaixo). "As mulheres acham que precisam se esforçar
mais e fazer várias coisas ao mesmo tempo para provar que são tão
capazes quanto os homens", diz a psicóloga gaúcha Ana Maria Rossi,
coordenadora da pesquisa. Por isso, segundo ela, as mulheres acumulam mais e mais
funções. "Para impor credibilidade, sinto que preciso me empenhar
mais do que meus colegas homens nas negociações com os clientes",
diz a administradora paulista Ana Carolina de Magalhães Cezário,
24 anos, que trabalha na área de logística ligada ao comércio
exterior. "Esse é um dos motivos pelos quais mantenho um ritmo de trabalho
muito puxado, com o celular ligado 24 horas por dia", ela diz. No caso dos homens,
a sobrecarga de trabalho aparece em quarto lugar. Outra grande preocupação
é saber quais são suas chances de progredir. "Estou sempre atento
às novas exigências do mercado porque quero crescer na carreira",
atesta o advogado mineiro Leonardo Guimarães Salles, 29 anos, que atua
na área criminal. "Gostaria de fazer mestrado e cursos de reciclagem, mas
não tenho conseguido por falta de tempo."
Otávio
Dias de Oliveira
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administradora Ana Carolina: "Acho que preciso me empenhar mais do que os homens"
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De acordo com os especialistas, as mulheres
em geral sofrem mais de stress do que os homens. "Elas trabalham tanto quanto
eles e, quando chegam em casa, têm outro 'emprego', o de cuidar dos afazeres
domésticos, do marido e dos filhos. É a dupla jornada de trabalho",
disse a VEJA o psicólogo americano Steven Sauter, do National Institute
for Occupational Safety and Health (Niosh), órgão do governo americano
que estabelece normas para a prevenção de doenças relacionadas
ao trabalho (veja entrevista no quadro abaixo). "As
mulheres também se sentem mais cobradas no escritório por questões
culturais", diz Sauter. "Só recentemente elas passaram a competir profissionalmente
com os homens." E essa competição ainda é muito desigual.
Nos últimos trinta anos, as mulheres conquistaram um grande espaço
no mercado de trabalho, mas no mundo inteiro continuam a ganhar menos que os homens.
No Brasil, segundo dados do IBGE, as mulheres têm escolaridade maior que
a dos homens, mas seus salários são em média 30% menores
que os deles. Uma pesquisa feita recentemente pela
Pontifícia Universidade Católica de Campinas também mostra
que as mulheres lidam com o stress de forma diferente da dos homens. "Elas são
mais emotivas, se envolvem mais com os vários aspectos de um problema antes
de atacá-lo de frente. Com isso, sofrem mais do que eles para tomar decisões",
diz a psicóloga Marilda Novaes Lipp, coordenadora da pesquisa. "Os homens
são mais objetivos", ela completa. Baseada nas pesquisas sobre o assunto,
Marilda acredita que nos próximos anos a psicologia irá propor,
para homens e mulheres, métodos diferenciados de tratamento de stress no
trabalho. Mas que seja no horário do batente, por favor. Porque ninguém
merece tratar de stress profissional nas poucas horas de folga.
"O stress traz prejuízo
para as empresas" À frente da Seção
de Ciência Organizacional e Fatores Humanos do National Institute for Occupational
Safety and Health (Niosh), órgão do governo americano, o psicólogo
Steven Sauter lida com a prevenção de doenças relacionadas
ao trabalho. Ele falou a VEJA. O STRESS
AUMENTOU NO AMBIENTE DE TRABALHO? Sim. As pessoas nunca estiveram tão
inseguras em relação a seu futuro profissional. Nos últimos
anos, surgiu um novo fator de stress, a terceirização da mão-de-obra.
Com o objetivo de aumentar a produtividade, as empresas reduzem cada vez mais
o quadro de funcionários e contratam autônomos. Estes trabalham com
contratos temporários que nunca sabem se serão renovados ou não.
QUAIS AS CONSEQÜENCIAS DO STRESS
NO ESCRITÓRIO? Existe uma crença hoje de que o stress nas
empresas é um mal necessário para aumentar a produtividade e os
lucros. Na verdade, ocorre exatamente o contrário. Várias pesquisas
mostram que a tensão no trabalho está associada ao aumento das faltas
de funcionários, atrasos e insatisfação com a carreira. Quanto
maior o número de funcionários estressados, maior o prejuízo
para as empresas. É VERDADE QUE
UM POUCO DE STRESS AJUDA A MOTIVAÇÃO PESSOAL NO DIA-A-DIA? Virou
moda dizer que stress pode ser bom. Stress positivo não existe. As pessoas
têm confundido stress com desafio. É importante haver desafio no
trabalho, pois é isso que nos dá energia, nos motiva a aprender
novas habilidades e crescer. Mas stress e desafio são coisas completamente
diferentes. | | |