Edição 1914 . 20 de julho de 2005

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Comportamento
Guerra de nervos

Pesquisa mostra que homens e mulheres
se estressam mais ou menos no trabalho
por diferentes motivos


Rosana Zakabi

Nélio Rodrigues/1º Plano
O advogado Salles: "Gostaria de me reciclar, mas falta tempo"
EXCLUSIVO ON-LINE
Entrevista completa com Steve Sauter


O brasileiro trabalha em média 52 horas por semana e a tendência é que essa carga horária aumente consideravelmente na próxima década. Além disso, as responsabilidades de cada profissional devem se tornar ainda mais pesadas, com o gradativo acúmulo de funções (uma característica da era pós-industrial) e o acirramento da competitividade em todos os setores produtivos. É inevitável, portanto, que cresça também o número de trabalhadores estressados – e, conseqüentemente, de estudos sobre o stress, uma área de pesquisa que dificilmente produz algo que vá além do óbvio. Pois bem, um estudo não tão óbvio acaba de ser divulgado pela filial brasileira da International Stress Management Association (Isma), instituição formada por médicos e psicólogos e presente em doze países. Ele mostra que mulheres e homens se estressam mais ou menos no trabalho por diferentes razões. Para o estudo, foram ouvidos 600 funcionários de quatro grandes empresas em São Paulo, Porto Alegre e Belém. Numa primeira etapa, os participantes foram perguntados sobre o que lhes causava mais perturbação no escritório. Chegou-se a dezoito fatores, desde excesso de exigências por parte da chefia até tensões provocadas pelas novas tecnologias (internet fora do ar, celular sem sinal etc.). Em seguida, homens e mulheres foram entrevistados separadamente, para que se identificassem os principais motivos de stress em cada grupo.

O que mais causa stress nas mulheres é a sobrecarga de trabalho. Entre os homens, é o medo de perder o emprego (veja quadro abaixo). "As mulheres acham que precisam se esforçar mais e fazer várias coisas ao mesmo tempo para provar que são tão capazes quanto os homens", diz a psicóloga gaúcha Ana Maria Rossi, coordenadora da pesquisa. Por isso, segundo ela, as mulheres acumulam mais e mais funções. "Para impor credibilidade, sinto que preciso me empenhar mais do que meus colegas homens nas negociações com os clientes", diz a administradora paulista Ana Carolina de Magalhães Cezário, 24 anos, que trabalha na área de logística ligada ao comércio exterior. "Esse é um dos motivos pelos quais mantenho um ritmo de trabalho muito puxado, com o celular ligado 24 horas por dia", ela diz. No caso dos homens, a sobrecarga de trabalho aparece em quarto lugar. Outra grande preocupação é saber quais são suas chances de progredir. "Estou sempre atento às novas exigências do mercado porque quero crescer na carreira", atesta o advogado mineiro Leonardo Guimarães Salles, 29 anos, que atua na área criminal. "Gostaria de fazer mestrado e cursos de reciclagem, mas não tenho conseguido por falta de tempo."

Otávio Dias de Oliveira
A administradora Ana Carolina: "Acho que preciso me empenhar mais do que os homens"

De acordo com os especialistas, as mulheres em geral sofrem mais de stress do que os homens. "Elas trabalham tanto quanto eles e, quando chegam em casa, têm outro 'emprego', o de cuidar dos afazeres domésticos, do marido e dos filhos. É a dupla jornada de trabalho", disse a VEJA o psicólogo americano Steven Sauter, do National Institute for Occupational Safety and Health (Niosh), órgão do governo americano que estabelece normas para a prevenção de doenças relacionadas ao trabalho (veja entrevista no quadro abaixo). "As mulheres também se sentem mais cobradas no escritório por questões culturais", diz Sauter. "Só recentemente elas passaram a competir profissionalmente com os homens." E essa competição ainda é muito desigual. Nos últimos trinta anos, as mulheres conquistaram um grande espaço no mercado de trabalho, mas no mundo inteiro continuam a ganhar menos que os homens. No Brasil, segundo dados do IBGE, as mulheres têm escolaridade maior que a dos homens, mas seus salários são em média 30% menores que os deles.

Uma pesquisa feita recentemente pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas também mostra que as mulheres lidam com o stress de forma diferente da dos homens. "Elas são mais emotivas, se envolvem mais com os vários aspectos de um problema antes de atacá-lo de frente. Com isso, sofrem mais do que eles para tomar decisões", diz a psicóloga Marilda Novaes Lipp, coordenadora da pesquisa. "Os homens são mais objetivos", ela completa. Baseada nas pesquisas sobre o assunto, Marilda acredita que nos próximos anos a psicologia irá propor, para homens e mulheres, métodos diferenciados de tratamento de stress no trabalho. Mas que seja no horário do batente, por favor. Porque ninguém merece tratar de stress profissional nas poucas horas de folga.

 

"O stress traz prejuízo para as empresas"  

À frente da Seção de Ciência Organizacional e Fatores Humanos do National Institute for Occupational Safety and Health (Niosh), órgão do governo americano, o psicólogo Steven Sauter lida com a prevenção de doenças relacionadas ao trabalho. Ele falou a VEJA.  

O STRESS AUMENTOU NO AMBIENTE DE TRABALHO?
Sim. As pessoas nunca estiveram tão inseguras em relação a seu futuro profissional. Nos últimos anos, surgiu um novo fator de stress, a terceirização da mão-de-obra. Com o objetivo de aumentar a produtividade, as empresas reduzem cada vez mais o quadro de funcionários e contratam autônomos. Estes trabalham com contratos temporários que nunca sabem se serão renovados ou não.  

QUAIS AS CONSEQÜENCIAS DO STRESS NO ESCRITÓRIO?
Existe uma crença hoje de que o stress nas empresas é um mal necessário para aumentar a produtividade e os lucros. Na verdade, ocorre exatamente o contrário. Várias pesquisas mostram que a tensão no trabalho está associada ao aumento das faltas de funcionários, atrasos e insatisfação com a carreira. Quanto maior o número de funcionários estressados, maior o prejuízo para as empresas.  

É VERDADE QUE UM POUCO DE STRESS AJUDA A MOTIVAÇÃO PESSOAL NO DIA-A-DIA?
Virou moda dizer que stress pode ser bom. Stress positivo não existe. As pessoas têm confundido stress com desafio. É importante haver desafio no trabalho, pois é isso que nos dá energia, nos motiva a aprender novas habilidades e crescer. Mas stress e desafio são coisas completamente diferentes.

 
 
 
 
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