|
|
Crise
"Por razões de Estado"
Foi essa a frase que o irmão de
Genoíno teria usado para pedir
a um advogado que assumisse
os dólares da cueca

Juliana Linhares, de Fortaleza, e
André Rizek
J. F. Diorio/AE
 |
OMERTÁ
Adalberto Vieira da Silva, o homem da cueca: solto depois de
seis dias preso na PF, não deu nem um pio até
agora |
Há pelo menos um petista mentiroso nessa história.
Na semana passada, o deputado estadual José Nobre Guimarães
(PT-CE), irmão do ex-presidente do PT José Genoíno,
veio a público para dizer que nada tinha a ver com os 100.000
dólares que a Polícia Federal encontrou escondidos
sob a cueca de seu assessor, José Adalberto Vieira da Silva.
Afirmou que nem mesmo sabia que o assessor havia viajado para São
Paulo, onde foi preso no último dia 8, com mais 200.000 reais
em uma sacola. Em sua defesa, Guimarães sugeriu que o dinheiro
encontrado pela polícia se destinava a engordar um negócio
particular de seu assessor. Exibiu um documento indicando que Adalberto
e um outro funcionário de seu gabinete haviam recentemente
aberto uma empresa de locação de carros em Fortaleza.
E apresentou o tal outro funcionário: José Vicente
Ferreira, que confirmou a existência do negócio e declarou
que Adalberto havia lhe dito que conseguiria o dinheiro para o empreendimento
com um advogado chamado Kennedy Moura. O advogado, fundador do PT
no Ceará e até três meses atrás membro
da executiva do partido no estado, vem a ser um velho amigo do deputado
Guimarães. Foi a primeira pessoa para quem Adalberto ligou
depois de ser preso. E começa aí o embate de versões
entre os petistas. Moura desmentiu a versão apresentada pelo
amigo Guimarães de que teria prometido colocar dinheiro
no negócio de Adalberto e afirmou que o deputado lhe
pediu que assumisse a responsabilidade pelo dinheiro encontrado
pela polícia. "Ele disse que o pedido era em nome de razões
de Estado" (veja entrevista).
Moura, segundo declara, foi indicado
pessoalmente pelo presidente Lula para ocupar uma diretoria no Departamento
Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs) em 2003. Diz que, na ocasião,
preferiu aceitar o convite para ser chefe de gabinete do petista
e economista Roberto Smith, indicado pelo deputado Guimarães
para presidir o Banco do Nordeste. Em dezembro de 2004, Moura foi
acusado de intermediar um contrato, feito sem licitação,
entre a empresa Cobra Tecnologia e o Banco do Nordeste. O contrato,
no valor de 130 milhões de reais, teve oito dos nove itens
rejeitados pelo Tribunal de Contas da União. Moura pediu
exoneração do cargo, mas, no lugar da demissão,
ganhou uma promoção. Tornou-se assessor especial do
Banco do Nordeste em Brasília.
Jarbas Oliveira/AE
 |
NÃO É
COMIGO
O deputado Guimarães, irmão do ex-presidente
do PT José Genoíno: cueca? Que cueca? |
Desde o estouro do episódio
já batizado de "Cuecagate", seu principal protagonista permanece
mudo. Adalberto, o assessor flagrado com a dinheirama, diz que só
fala em juízo. O problema é que a Justiça entendeu
que o fato de ele carregar dinheiro escondido não configura,
em si, um crime. A decisão da Justiça resultou na
soltura do assessor, na última quarta-feira, e num entrave
para as investigações. A polícia agora tem
de encontrar provas de que a origem das notas é ilícita.
Só assim o inquérito poderá virar um processo
judicial que possibilite que Adalberto seja denunciado e, assim,
obrigado a falar em juízo. Depois de ser libertado da carceragem
da PF em São Paulo, onde permaneceu por seis dias, Adalberto
hospedou-se na casa de um de seus advogados, José Roberto
Leal de Carvalho. Um dos mais famosos e caros criminalistas do Brasil,
Leal de Carvalho defende, entre outros clientes, Paulo Maluf, ex-prefeito
de São Paulo. Para poder pagar um profissional desse naipe,
deve haver mais cuecas com dólares por aí.
Até o momento, investigações
feitas pela Polícia Federal apontam para uma possibilidade:
a de que Kennedy Moura mente quando diz não ter nenhum envolvimento
com o dinheiro que o assessor do deputado Guimarães tentou
embarcar para Fortaleza. O Banco do Nordeste, para o qual o advogado
trabalhava, é uma instituição pública
federal que atua nos estados do Nordeste, no norte de Minas Gerais
e no Espírito Santo. Tem agências também em
São Paulo e no Rio. Seu objetivo é apoiar iniciativas
privadas que promovam o desenvolvimento regional. O Ministério
Público do Ceará tem indícios de que Moura,
de seu posto em Brasília, tinha o poder de comandar uma rede
nacional de superintendentes do banco que liberava, a título
de empréstimo, vultosas somas para empresários de
diversos estados do país, em especial de São Paulo.
A PF tem conhecimento de pelo menos um superintendente do Banco
do Nordeste em São Paulo, supostamente ligado a Moura, que
foi demitido sob acusação de fraude. O procurador
Márcio Torres, responsável pelas investigações
sobre o caso no Ministério Público Federal do Ceará,
diz que o principal interesse do MP é saber se esses empréstimos
eram mesmo concedidos. Há suspeitas de que eles poderiam
ser apenas uma forma de "lavar" um dinheiro que voltaria mais tarde
para as mãos de quem os teria liberado. A julgar por esse
raciocínio, Adalberto teria agido como "mula" da operação.
Na quinta-feira, véspera
de sua prisão, Adalberto esteve no escritório particular
de José de Freitas, diretor administrativo do Grupo Cavan,
da área da construção civil, em São
Paulo. Freitas prestou depoimento à polícia e suas
explicações sobre o motivo do encontro com Adalberto
foram consideradas pouco convincentes pelos investigadores. Em entrevista
a VEJA, Moura negou conhecer Freitas, mas revelou ter estado em
São Paulo dois dias antes da prisão de Adalberto.
Diz ter vindo visitar um escritório de advocacia. "Retornei
para Brasília na mesma noite e jantei com o deputado Guimarães."
A se confirmar a hipótese da polícia, sobre o envolvimento
de Moura no esquema, o próximo passo da investigação
será descobrir se ele agia em benefício próprio
ou sob o comando de um esquema maior, ligado ao partido ao qual
declara orgulhosamente pertencer há 25 anos.
|
"LULA ME
INDICOU PARA O GOVERNO"
Jarbas Oliveira
 |
CUECA
JUSTA
O advogado Moura: "Guimarães
pediu para que eu assumisse o dinheiro" |
POR QUE ADALBERTO LIGOU PARA O SENHOR QUANDO FOI PRESO?
Porque sou advogado e porque somos muitíssimo
amigos. Quando eu e minha esposa rompemos, ele serviu
de cupido para a reconciliação.
QUANDO O SENHOR
CONTOU AO DEPUTADO GUIMARÃES DA PRISÃO,
O QUE ELE DISSE?
Perguntou: "Ele falou alguma coisa?". Respondi:
"Não". Ele disse: "Graças a Deus".
VOCÊS VOLTARAM
A SE FALAR?
No sábado, depois da prisão do Adalberto,
Guimarães ligou e pediu que eu fosse imediatamente
para São Paulo. "Agora, por razões de
Estado", disse ele.
COMO FOI O ENCONTRO?
Foi no hotel Parthenon. Ele pediu que eu dissesse
em público que o dinheiro era meu, "em nome de
razões de Estado". Outras pessoas ouviram o pedido.
Eu me neguei.
O SENHOR TEM RELAÇÕES
COM O PRESIDENTE LULA?
Antes de eu ir para o banco, o presidente Lula
havia articulado para eu assumir uma diretoria no Dnocs.
Nós nos conhecemos há mais de 25 anos.
QUANTAS VEZES
O SENHOR JÁ ESTEVE COM ELE?
Muitas, não saberia dizer o número
exato.
|
|
|