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Brasil Escondeu
mas apareceu O petista João Paulo,
que andava silencioso, enrola-se com três visitas de sua mulher
ao Rural e gastos com o publicitário-lobista
 Alexandre
Oltramari Moacyr
Lopes Junior/Folha Imagem
 | SECRETÁRIA
TAMBÉM O deputado João Paulo: além da esposa,
sua secretária também foi à agência do mesadão |
Depois de José Dirceu, José Genoíno, Delúbio Soares,
Silvio Pereira, Marcelo Sereno, Luiz Gushiken ufa! , chegou a vez
de outro petista de primeira grandeza fazer sua estréia no escândalo
da hora. João Paulo Cunha, o ex-metalúrgico que virou presidente
da Câmara em seu terceiro mandato como deputado por São Paulo, está
enrolado. A CPI dos Correios descobriu que sua mulher, a jornalista Márcia
Regina Milanésio Cunha, esteve na suspeitíssima agência do
Banco Rural, em Brasília, a mesma da qual jorrava a dinheirama do publicitário-lobista
Marcos Valério para o bolso dos parlamentares brindados com o mensalão
petista. Conforme os registros da portaria do prédio, revelados pelo Jornal
Nacional, da Rede Globo, Márcia Cunha esteve três vezes na agência
do Rural, todas no dia 4 de setembro de 2003. Na primeira vez, às 14h01,
ela permaneceu oito minutos no banco. Na segunda, às 15h05, demorou exatamente
dezenove minutos. Por fim, na terceira vez, entrou às 16h46 e por lá
ficou doze minutos. O que a mulher
do deputado foi fazer no Banco Rural? Márcia Cunha conta que foi resolver
o problema de uma conta de sua empresa de TV a cabo, a TVA. O boleto, que vencia
no dia 13 de setembro, trazia o valor duplicado a conta do mês em
questão mais a do mês anterior, que, no entanto, já tinha
sido paga. Para evitar o pagamento em dobro, a mulher do deputado recorreu ao
Rural, instituição encarregada de receber as contas da TVA. "Ela
foi ao banco reclamar dessa conta, que estava errada", diz João Paulo.
"A conta foi paga alguns dias depois pela minha secretária, a Silvana Japiassú,
lá no Banco Rural", arremata. De fato, conforme o registro de ingresso
na portaria do prédio onde funciona a agência, a secretária
esteve mesmo no banco. Mas não "alguns dias depois", e sim sete meses depois.
João Paulo talvez tenha confundido "uns dias" com "uns meses". A secretária
Silvana Japiassú fez duas visitas ao Rural. A primeira ocorreu no dia 2
de abril de 2004, às 13h16, e durou seis minutos. A outra foi dias depois,
em 16 de abril, às 15h19, e também durou seis minutos.
Epitacio
Pessoa/AE
 | A
DÚVIDA DE MÁRCIA Mulher de João Paulo: saque
vultoso ou conta duplicada? |
A explicação da conta com valor errado é verossímil,
mas há outras mais comprometedoras. Até a semana passada, o deputado
João Paulo conseguiu manter em discrição absoluta o fato
de que sua mulher aparecia na lista dos clientes do Rural em Brasília.
A informação, porém, acabou vindo a público. Agora,
além de a visita ter sido noticiada, existe a suspeita de que a mulher
do deputado foi à agência para fazer um saque. A suspeita se dissipará
ou se confirmará em breve. Na semana passada, a 4ª Vara da Justiça
Federal recebeu documentos do Banco Rural em obediência à quebra
do sigilo bancário de Marcos Valério. A CPI dos Correios vai receber
também cópias da mesma papelada acrescida de mais documentos. Os
papéis cobrem os saques e depósitos de Valério e suas empresas
nos períodos em que se investiga o favorecimento de petistas em retribuição
a contratos de publicidade com órgãos do governo.
Desde que estourou o escândalo do mensalão, João Paulo foi
o primeiro, entre os petistas mais estrelados, a reconhecer que tinha relações
profissionais com Marcos Valério. Uma agência de publicidade do empresário,
a SMPB, fez sua campanha vitoriosa à presidência da Câmara.
Depois da eleição, a SMPB ganhou um contrato inicialmente de 9 milhões
de reais com a Câmara contrato que recebeu dois aditivos que, juntos,
engordaram a conta em mais 4,6 milhões de reais. Um naco desse dinheiro,
750.000 reais, foi usado por João Paulo para pagar uma pesquisa de opinião
encomendada pela agência de Valério ao Instituto Vox Populi, de Belo
Horizonte. A pesquisa paga com dinheiro público traz perguntas
que revelam um evidente interesse no futuro político de João Paulo.
Algumas indagam se o eleitor se lembra de seu nome e, também, se é
a favor ou contra a reeleição do presidente da Câmara. Além
disso, há um nítido descompasso técnico na mostra da pesquisa:
quase a metade dos entrevistados mora em São Paulo, reduto eleitoral do
deputado. São Paulo, porém, tem 22% dos eleitores do país,
e não 50% deles.
Os furos na blindagem de Lula
Os parlamentares governistas animaram-se com a divulgação de uma
pesquisa da CNT/Sensus. Os dados mostram que houve ligeira melhora na avaliação
do governo Lula e na do desempenho pessoal do presidente, apesar das denúncias
de corrupção. A variação foi de apenas 0,5 ponto porcentual
no primeiro caso e 2,5 no segundo. Ambas as situações estão
dentro da margem de erro da pesquisa, mas foram suficientes para que o governo
inferisse que a imagem de Lula não foi atingida pelas denúncias
de corrupção. É uma conclusão que não tem respaldo
nos dados da pesquisa. "O governo não tem o que comemorar. Os dados são
um alerta", avisa Ricardo Guedes, da Sensus. A quantidade de pessoas que acham
que a corrupção aumentou no governo Lula saltou de 31,2% para 40,3%.
Boa parte desse crescimento aconteceu entre os que acreditavam há dois
meses que a bandalha havia diminuído na gestão petista. É
sinal de que as denúncias arranharam a credibilidade do governo. O instituto
perguntou também qual será o critério mais importante na
escolha do próximo presidente. O mais citado foi "moralidade pública"
justamente o calcanhar-de-aquiles do governo.
Lula também comemorou os resultados dos cenários elaborados pela
CNT/Sensus para a sua sucessão. Pelos números, hoje só haveria
segundo turno se o prefeito de São Paulo, José Serra, estivesse
na disputa. Foi outra conclusão precipitada. "Na verdade, há grande
probabilidade de haver segundo turno em qualquer cenário, porque Lula tem
hoje desempenho abaixo do que teve no primeiro turno de 2002", diz Guedes. Naquela
ocasião, Lula teve 41,6% dos votos. Segundo a CNT/Sensus, Lula tem, na
simulação mais favorável, apenas 39,4%. Além disso,
em todos os quadros, a quantidade de indecisos ainda é grande o
que significa que é possível haver uma migração de
votos para outros candidatos, provocando o segundo turno. Os resultados da CNT/Sensus
corroboram os do instituto Ipsos, divulgados por VEJA na edição
passada. Os dois institutos perguntaram se Lula sabia da corrupção
em seu governo. A quantidade de eleitores que responderam "sim", segundo o Ipsos,
é de 39%. Para a CNT/Sensus, de 33,6%. A discrepância pode ser atribuída
às diferenças de metodologia e à margem de erro. Com essas
ressalvas, conclui-se também que os institutos chegaram à mesma
conclusão sobre a parcela dos eleitores que acreditam que Lula estava envolvido
na corrupção (16% para o Ipsos e 12% para a CNT/Sensus). "A pesquisa
CNT/Sensus foi boa para o ânimo do presidente, mas, do ponto de vista eleitoral,
os números são um desastre", diz um ministro de Lula. 
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