Edição 1914 . 20 de julho de 2005

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André Petry
Eles estão chocados

"Que providências eles vão exigir caso
alguém lhes conte que quase um terço dos
330 000 presos brasileiros não foi julgado
até hoje mas segue atrás das grades?"

A batida policial na Daslu e a prisão de sua dona, Eliana Tranchesi, tiveram um efeito semelhante ao dos milagres no Congresso Nacional do mensalão. Sob o choque da operação policial, um grupo de políticos, tal como cândidas donzelas, repentinamente descobriu um quadro de horror – um Brasil onde há violência policial e até prisões arbitrárias!

Arnaldo Faria de Sá, do PTB paulista, subiu à tribuna para denunciar que estamos vivendo sob um "estado policial" e para acusar a Polícia Federal de estar "tentando criar uma luta de classes" jogando os pobres contra os ricos.

Zulaiê Cobra, do PSDB de São Paulo, disse que tal arbitrariedade não pode acontecer "num governo democrático, do povo, chefiado por um homem que já foi pobre". O prefeito de São Paulo, o tucano José Serra, não compreendeu a prisão da dona da Daslu, "uma vez que ninguém ia fugir". O prefeito, ora pois, sabia que ninguém ia fugir.

Luiz Carlos Hauly, do PSDB do Paraná, disse que a operação era "cortina de fumaça" para proteger o presidente Lula das denúncias que o atingem. O deputado Onyx Lorenzoni, do PFL gaúcho, concordou. Disse que a batida policial não passou de uma "manobra diversionista".

Alberto Goldman, tucano de São Paulo, fez questão de dizer que não conhece a dona da Daslu e que nunca esteve na loja, nem no endereço antigo nem no atual, mas, mesmo por fora, sabe que o trabalho da polícia foi "uma ação política predeterminada".

Antônio Carlos Magalhães, do PFL baiano, amigo íntimo de Eliana Tranchesi, ficou desolado. Não entendeu como a polícia pôde ser tão cruel com "uma empresa que produz e que dá mais de 1 600 empregos".

Jorge Bornhausen, do PFL de Santa Catarina, ficou tão perplexo, mas tão perplexo, que previu até o risco da deflagração de uma crise econômica, pois, com uma polícia truculenta e abusada, quem vai querer investir no país?

É, eles estão chocados...

O que será que esses políticos farão no dia em que descobrirem que, no mesmo país onde eles moram, acontecem coisas piores? O que farão se ficarem sabendo que, de 1985 até 2002, houve pelo menos 6.330 prisões arbitrárias de trabalhadores rurais, apenas de trabalhadores rurais? Que providências vão exigir caso alguém lhes conte que quase um terço dos 330.000 presos brasileiros não foi julgado até hoje mas segue atrás das grades?

A Federação das Indústrias de São Paulo, a poderosa Fiesp, também ficou indignada com o tratamento policial dado à Daslu. Tão indignada que até planeja fazer um ato público para "defender o Estado Democrático de Direito". Com toda a razão, a Fiesp acha inadmissível que "alguém possa ser preso" sem que sua culpa esteja evidenciada.

Já pensou se contarem à Fiesp que já houve "alguém" preso e até assassinado nessas circunstâncias? Em agosto de 2003, o comerciante chinês Chan Kim Chang foi preso quando tentava embarcar para os Estados Unidos com 30.500 dólares sem declaração prévia e foi espancado até a morte.

É bom que nem a Fiesp nem os políticos tomem conhecimento dessas coisas terríveis. Eles ficariam escandalizados.

 
 
 
 
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