Felicidade (Happiness, Estados
Unidos, 1998. Lume) O diretor americano Todd Solondz se notabiliza pela
crueldade, destilada em filmes como Bem-Vindo à Casa de Bonecas, Histórias
Proibidas e neste Felicidade. O alvo do cineasta são aquelas
pessoas que vão pela vida aos tropeções e almejam tudo que
há de medíocre. Esse ponto de vista está longe de atrair
o consenso (pode-se argumentar que bater em quem já está por baixo
é covardia). Mas o fato é que Solondz trafega por uma linha fina
entre a maldade e a compreensão. Aqui, ele acompanha um punhado de personagens,
como um psiquiatra pedófilo e uma dona-de-casa que se crê objeto
de desejo de todos os homens e oferece uma espiadela dolorosa e compassiva
no despenhadeiro da condição humana.
Divulgação
Em Nome da Honra: o apartheid visto pelas
vítimas
Em Nome da Honra (Catch a Fire, Inglaterra/África do Sul/Estados
Unidos, 2006. Universal) O negro Patrick Chamusso (Derek Luke) tinha uma
tática para sobreviver na África do Sul do apartheid: passar despercebido.
Capataz numa refinaria, com bom salário, tinha mais sorte que a maioria.
Por causa de uma bobagem, porém não revelar que estava com
a amante numa certa noite, por medo da mulher ciumenta , foi preso como
suspeito num atentado. Acabou sendo transformado pelo regime sul-africano (personificado
aqui por Tim Robbins) naquilo que estava longe de ser: um ativista. Inspirado
na história verídica de Chamusso e dirigido pelo australiano Phillip
Noyce, Em Nome da Honra é o raro filme sobre a África em
que não são as experiências dos personagens brancos que importam.
Veja
cenas.
Nancy R. Schiff/Hulton Archive/Getty Images
Frank Zappa: letras satíricas e vocais
ocultos de Tina Turner
Apostrophe/Over-Nite Sensation: Classic Albuns, Frank Zappa (ST2)
Os discos Apostrophe e Over-Nite Sensation, da década de
70, cristalizaram o estilo que o guitarrista americano batizou de zappa
mistura de jazz, rock e música erudita contemporânea, com
letras satíricas. Neste documentário, os familiares do guitarrista,
morto em 1993, contam os bastidores das sessões de gravação.
O jornalista David Fricke, da Rolling Stone, e o guitarrista Steve Vai
falam do impacto que os discos causaram no cenário da época. Os
melhores momentos, porém, são as cenas em que Dweezil, filho de
Frank Zappa, senta a uma mesa de som e mostra detalhes que passam quase despercebidos
como os vocais de Tina Turner, escondidos numa faixa de Over-Nite Sensation.
LIVROS
Richard Perry/The New York
Times
J.M. Coetzee: páginas
que valem o Prêmio Nobel
Homem
Lento, de J.M. Coetzee (tradução de José Rubens Siqueira;
Companhia das Letras; 278 páginas; 46 reais) As primeiras páginas
deste novo romance do sul-africano J.M. Coetzee já bastariam para justificar
o Prêmio Nobel que lhe foi conferido em 2003. Trata-se da descrição
do atropelamento de um ciclista, com base na percepção confusa que
ele mesmo tem do evento. Seu nome é Paul Rayment, fotógrafo aposentado
em Adelaide, Austrália. Como é comum na produção do
autor basta lembrar sua obra-prima, Desonra , não há
muita esperança em Homem Lento. O romance acompanha a excruciante
recuperação de Paul, depois de ter a perna amputada uma história
na qual intervém a escritora Elizabeth Costello, personagem da obra anterior
de Coetzee. Leia
trecho.
E
a História Começa, de Amós Oz (tradução
de Adriana Lisboa; Ediouro; 134 páginas; 29,90 reais) Dar início
a um conto ou romance é o momento mais difícil do trabalho de um
escritor. Na expressão do israelense Amós Oz, a página em
branco é como "uma cratera na face da Lua", um lugar de "vazio e desespero".
A insegurança se explica: uma mesma história permite incontáveis
maneiras de abrir o relato. Neste livro, resultado de aulas e palestras que Oz
proferiu em Israel e nos Estados Unidos, o autor de Fima e Meu Michel,
entre outros grandes romances, disserta sobre a arte de começar uma história,
com análises minuciosas de uma seleção eclética de
autores de clássicos russos como Gogol e Tchekov a autores israelenses
menos conhecidos no Brasil, como S.Y. Agon e Yaakov Shabtai. Leia
trecho.
DISCOS
Divulgação
Soundscape: elogios da viúva
de Charles Mingus
Uncle
Charles, Soundscape (Guandama) A big band é uma instituição
do jazz de São Paulo. Liderada pelo baterista Bob Wyatt, pelo saxofonista
Maurício de Souza e pelo trompetista Junior Galante, ela conquistou admiradores
por seu virtuosismo instrumental. Uncle Charles, segundo disco da Soundscape,
acrescenta um detalhe que faltou no primeiro: uma produção de alta
qualidade, na qual se pode notar com clareza a boa performance de Wyatt e os solos
do trompetista Daniel D'Alcântara, um dos melhores de sua geração
(atente para os solos de Byrd Like e Thermo). A performance da Soundscape
no disco ganhou o elogio de uma ouvinte exigente Sue Mingus, viúva
do contrabaixista Charles Mingus, que aprovou a versão deles para Boogie
Stop Shuffle.
Divulgação
Bryan Ferry: Bob Dylan como Bob Dylan
nunca sonhou
Dylanesque,
Bryan Ferry (EMI) Discos de releituras existem aos montes, mas poucos conseguem
mostrar uma nova faceta do homenageado. Dylanesque, de Bryan Ferry, chegou
lá. O intérprete e compositor inglês canta onze faixas de
Bob Dylan de uma maneira que o poeta americano jamais sonhou. Ferry extirpou as
marcas registradas de Dylan, como os violões e os teclados. No máximo,
toca gaita e nessa categoria se mostra um instrumentista superior. E recrutou
artistas de universos musicais opostos à seara folk caso do produtor
e tecladista Brian Eno, que deu uma sonoridade etérea às músicas,
e do guitarrista Robin Trower, que faz um solo magistral em All Along the Watchtower.
O toque de classe fica por conta dos vocais de Ferry. Um disco à altura
de Bob Dylan.