"Não é
muito difícil ter filho com um homem casado que não queira se
separar, com um solteiro não disposto a se comprometer ou pelo
simples desejo de prolongar um casamento falido"
Não
tenho o menor interesse por escândalos públicos ou privados (sobre
os quais nunca se sabe a verdade toda), presentes ou passados há
coisas bem mais agradáveis, até fascinantes, a observar na condição
humana com suas glórias e suas trapalhadas. O que escrevo hoje nasce do
muito refletir sobre a questão dos gêneros masculino e feminino,
num eterno enfrentamento, que pode ser dança de sedução ou
feroz batalha.
Não
precisam ser as bruxas queimadas nas fogueiras católicas da Idade Média
ou as curandeiras temidas em tempos primitivos; não precisam ser poderosas
empresárias nem endeusadas modelos, jovens atrizes ou saltitantes socialites:
qualquer mulher tem poderes. São bons ou maus. Alguns elas desconhecem;
outros, manejam com perfídia. Ter um filho que o homem não queria,
não planejava nem sonhava (ou, se for muito jovem, não estava preparado
para assumir) é um dos mais negativos.
Produzir filhos, não por vontade amorosa de homem e mulher, mas para submeter
o pai a uma responsabilidade, um elo e uma ameaça, vem precedido de frases
como "Claro que estou me cuidando. Claro que boto o DIU, claro que tomo a pílula".
E depois: "A pílula deve ter falhado, amorzinho, olhaí, surpresa,
você vai ser papai". Por isso se desfazem casamentos, trocam-se acusações
e sofrem-se vexames, a vida muda, nem sempre para melhor. Tudo isso porque, em
determinada hora de paixão ou diversão, a mulher, sabedora de que
está pronta para isso, conhecedora ainda que inconsciente das artimanhas
de seu corpo, aproveita a cegueira masculina e se abre para ser fecundada.
Não me digam que o prazer nos emburrece totalmente, que todos os homens
são responsáveis e todas as mulheres leais. Não me digam
que os homens não conseguem usar camisinha, que as mulheres ignoram contraceptivos
ou desconhecem seu período fértil. E como exatamente nesse período,
por sabedoria da mãe natureza, a mulher é ainda mais desejável.
Não é difícil demais ter filho com um homem casado que não
queira se separar, um solteiro não disposto a se comprometer pelo
menos não com aquela mulher ou pelo desejo de prolongar um casamento
falido. Isso faz da criança um cofre (grande ou pequeno), um seguro e uma
arma. Não é uma regra: a imensa maioria dos filhos não nasce
assim, mas acontece.
Todos
conhecemos mais de uma mulher que, vendo ameaçada sua posição
de "esposa" ou de amante bem tratada (ou jovenzinha que quer casar com um moço
hesitante, pensando que todos os seus problemas serão resolvidos), se faz
mãe, o que pode ser uma assustadora imagem para muitos varões nossos.
Quanto dinheiro, quanta culpa, quanto erro, quanta infelicidade assim se gera!
Sobre filhos indesejados,
diziam minhas remotas avós: "Os homens são muito bobos nesses assuntos,
deixam-se enganar por qualquer espertalhona". Num barraco, numa mansão
ou num hotel de luxo, fazem-se crianças que servem aos interesses da mãe.
Se nem todas as mães solteiras ou mães de filhos de fim de casamento
são espertas, nem todas são coitadas. Aliás, acho pouco coitadas
as mulheres em sua maioria: submissas muitas são, nem sempre por fragilidade,
no jogo que também existe em qualquer relação, nem sempre
um jogo positivo. Às vezes algum interesse mais alto aí se levanta:
escapar da vida com os pais na ilusão de uma liberdade maior, manter o
status de casada que para algumas é importante, adquirir o status de mãe,
manter "unida" uma família neurótica e hostil, garantir a pensão
ou ameaçar com segredos de alcova, que tanto susto pregaram e tanto mal
fizeram a muito incauto dom-juan. O lema nesses casos é "Prenda seu homem
tendo um filho": a criança é o que menos importa.
Não é um poder muito nobre esse, não é uma postura
muito elegante, e é uma partezinha do poder feminino de que se fala pouco.
Penso que um duplo arquétipo muito forte de mulher e de mãe leva
tantos homens a cair no conto do filho-surpresa. No imaginário de cada
homem, a figura materna ergue um dedo ameaçador, e a feminina abre pernas
sedutoras. Ah, o poço sem fundo, a fenda fascinante que perturbou tantas
ingênuas ou brilhantes cabeças, fez dobrar o joelho os mais simplórios
e os mais ilustres, deixando-os na condição de réus.
Nunca achei que a natureza fosse sábia o tempo todo. Às vezes nos
prega peças, às vezes é cruel, às vezes parece obtusa
e às vezes há de estar dando risadinhas, balançando a cabeça
como uma velhíssima avó diante das trapalhadas juvenis da estranha
espécie que somos nós.