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20 de junho de 2007
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Televisão
Meu bem, meu mal

O sucesso de Bebel e Olavo em Paraíso Tropical
comprova: a moral já não é a mesma


Marcelo Marthe

Divulgação/TV Globo
A prostituta e o executivo: "Eu gosto é de cueca maneira"

Parceiro de Gilberto Braga na autoria de Paraíso Tropical, o noveleiro Ricardo Linhares acredita que um "novo folhetim" está se desenhando na TV brasileira. O eixo dessa mudança é um tipo de personagem que foge às classificações tradicionais de mocinho ou vilão. Seu diferencial é ser dúbio. "As pessoas ficaram mais lenientes com os desvios de caráter dos personagens de novela. Estão prontas a perdoá-los se os interesses finais, como sair da pobreza, lhes parecerem legítimos", diz Linhares. Essa opinião não é isolada. Em entrevista a VEJA no ano passado, seu colega Silvio de Abreu notou que a "esperteza desonesta" passou a ser tolerada pelos espectadores. Em Paraíso Tropical, os personagens que melhor exemplificam essa nova exploração dos desvios de moral são o casal Olavo (Wagner Moura) e Bebel (Camila Pitanga) – não por acaso, os de maior sucesso na trama das 8 da Globo. O crápula Olavo e a prostituta e golpista Bebel mantêm uma relação movida a humor e libido, mas com seu lado de paixão legítima – como as de qualquer dupla de galã e mocinha.

Depois de um começo trôpego, Paraíso Tropical firmou-se acima dos 40 pontos no ibope graças à força de seus personagens, e não da trama central. As situações em estilo "gata e rato" protagonizadas por Bebel e Olavo ajudaram a tirá-la da UTI. Até topar com a popozuda, o executivo era incapaz de ter laços com as mulheres. Mas Bebel, a quem chama de "vagabunda", pegou-o de jeito. Quando ela anunciou que partiria para a Alemanha com outro, Olavo explodiu. "Nem pense em fugir com o Chucrute", disse. E propôs se tornar um cliente "fixo". Bebel despachou então seu cafetão e se gabou às colegas de ter arrumado um "bacana": "Quem nasceu para a calçada nunca chega a madame. E eu gosto é de cueca maneira". Para compor a personagem, Camila foi a uma boate suspeita (com o marido, esclarece), leu tese sobre o tema e conviveu com moças do ramo. "No final, eu e elas entendemos que não existe um 'padrão prostituta' ou um 'padrão atriz'. Existem, sim, mulheres", filosofa.

No momento, Bebel investe num processo de aprendizado que inclui a troca daqueles modelitos abusados por roupas mais sóbrias. Uma pena: a Globo detectou que o visual dela atiça a imaginação feminina. "Em qualquer lugar civilizado, ninguém andaria daquele jeito. Fiquei perplexo ao ver que no Brasil acham o máximo", diz Linhares. A formação de Bebel inclui ainda aulas de português, já que ela é desdenhada por soltar pérolas como "penhar" em vez de "penhoar" e se auto-intitular uma mulher de "catiguria". Sem categoria, evidentemente.

Eis o truque desse tipo de personagem: os autores dão corda tanto a ela quanto a Olavo (mostrando que, afinal, até que não são desprovidos de coração), mas não deixam de puni-los. Eles são e permanecerão vilões. As armações do executivo sempre revertem contra ele. Na mais recente delas, ele é flagrado por uma câmera oculta no ato do pagamento de uma propina. Para não perder o emprego, se jogará nos braços da filha de um acionista da empresa – o que fará Bebel se roer de ciúme. Sabe-se que mais adiante será ela, com o aval de Olavo, quem se atirará para cima do patrão dele, Antenor (Tony Ramos). "Ninguém deseja uma filha como Bebel", diz Linhares. "Mas todo mundo a perdoa."

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