Ignorado por autores do
período clássico, o instrumento hoje brilha na música
erudita
Sérgio
Martins
Antes, eram o piano, o violino ou mesmo
a flauta. Favoritos dos grandes compositores dos períodos barroco, clássico
e romântico, esses instrumentos e seus intérpretes
davam as cartas no mundo erudito. No século XX, porém, um enjeitado,
tido quase sempre como mero "recheio" da orquestra, começou a ganhar lugar
de destaque nesse panorama: o violoncelo. A virada se deu em 1939, quando o espanhol
Pablo Casals gravou as Seis Suítes para Violoncelo, de Johann Sebastian
Bach. Até então consideradas um exercício de aprendizado,
as peças revelaram o potencial solístico desse instrumento: uma
sonoridade cheia, que passeia do melancólico ao dramático, mas é
sempre emotiva, e uma certa qualidade teatral na maneira como o músico
o abraça junto ao corpo. Desde então, solistas como o próprio
Casals e o russo Mstislav Rostropovich fizeram muito por conferir ao violoncelo
o respeito merecido. O instrumento teve até uma figura trágica,
item que sempre dá ibope a inglesa Jacqueline du Pré, um
talento de primeira grandeza, que terminou destruída pela esclerose múltipla.
Nos últimos anos, poucos artistas têm se dedicado a ele com o afinco,
e os excelentes resultados de público, de Yo-Yo Ma. O sino-americano de
51 anos está em todas. Nesta semana, desembarca no Brasil para recitais
em São Paulo e no Rio de Janeiro. Junto com a pianista inglesa Kathryn
Stott, ele vai executar obras dos compositores românticos Franz Schubert
e César Franck e do autor moderno Dmitri Shostakovich, além de dois
agrados ao público latino-americano um tango de Astor Piazzolla
e composições de Egberto Gismonti.
Descoberto pelo regente americano Leonard Bernstein quando tinha 8 anos de idade,
Yo-Yo Ma é um instrumentista excepcional e versátil, capaz de pular
da seriedade da obra de Bach a músicas do folclore indiano e do chinês.
Tal polivalência, aliás, motiva seus detratores a acusá-lo
de ter se tornado um arroz-de-festa, que volta e meia se dedica a trabalhos de
música popular brasileira e americana sem critério ou sensibilidade
estilística. O fato, porém, é que, goste-se dela ou não,
a "militância" de Yo-Yo Ma tem se mostrado indispensável na redefinição
do papel do instrumento. Mozart, por exemplo, compôs 27 Concertos para
Piano, mas nenhum para violoncelo. Graças à atividade de Casals
e Rostropovich, diversos compositores modernos e contemporâneos passaram
a criar peças para ele estima-se que apenas Rostropovich tenha estreado
240 obras, entre concertos e sonatas. Yo-Yo Ma vem complementando o trabalho de
seus antecessores, ao dar ao violoncelo um acento popular a ponto de o
nome do músico ter virado piada do seriado americano Seinfeld. Ma,
além disso, preenche todos os requisitos necessários na formação
de um grande instrumentista. É um solista requisitado, seja na música
de câmara, seja à frente de grupos sinfônicos. E é,
da mesma forma, capaz de integrar um naipe de violoncelos sem ter arroubos de
estrelismo ou querer roubar a cena de orquestra.
O papel do violoncelista dentro de uma orquestra é fundamental. Sua função
mais comum é construir a base harmônica de uma obra para que instrumentos
de tessitura aguda como violino, oboé e clarinete, entre outros
possam trabalhar a melodia. Em linguagem leiga, é praticamente o
mesmo papel do baixo numa banda de rock ou de soul music: o de segurar o ritmo
para que o guitarrista possa solar. A partir do século XIX, o instrumento
assumiu também esporadicamente a função de solista
a Quarta e a Sexta Sinfonia, de Tchaikovsky, e a Segunda Sinfonia,
de Brahms, possuem solos de violoncelo tão marcantes que volta e meia são
utilizados em audição para orquestras. Os violoncelistas pertencem
ainda a uma casta privilegiada. Tocam sentados e não têm dificuldades
no manuseio ao contrário da viola e do violino, em que os músicos
têm de torcer o pulso esquerdo para executar uma obra. Outra vantagem de
tocar violoncelo, apregoam os instrumentistas, é que ele é imune
às anedotas que pululam numa orquestra. "Existem centenas de piadas sobre
violistas, contrabaixistas e metais, mas não conheço uma boa sobre
violoncelista", diz o maestro Júlio Medaglia. Os mais modestos alegam que
isso se deve ao fato de os violoncelistas serem inteligentes e refinados. (E nem
um pouco egocêntricos, ironizariam os violinistas, rivais no gosto do público.)
Existe algo de especial no som do violoncelo.
Como a sonoridade dele se assemelha à da voz humana, poucos instrumentos
transmitem uma gama tão grande de sons. O autor Richard Strauss tinha plena
consciência dessa qualidade. No poema sinfônico Don Quixote,
coube ao violoncelo interpretar o personagem principal, e o grito de dor de Quixote
ao morrer está entre os temas mais pungentes da música sinfônica.
Às vezes um solo de violoncelo vale mais que discurso. Em 1968, enquanto
as tropas russas invadiam a Checoslováquia, Rostropovich fazia um concerto
no Royal Albert Hall, em Londres no qual tocou, em sinal de protesto, o
Concerto para Violoncelo, do checo Dvorák. Em outras ocasiões,
o violoncelo é a válvula de escape para uma personalidade problemática.
Habitualmente tímida e insegura, Jacqueline du Pré virava uma espécie
de super-heroína quando solava em seu violoncelo e é sintomático
que muitas mulheres tenham adotado o instrumento depois de ouvir sua versão
para o Concerto para Violoncelo, de Elgar, que hoje é uma referência
para o instrumento.
O violoncelo, quem
diria, tem ainda um certo dom para despertar instintos carnais. "As mulheres perdem
a linha quando o ouvem. Elas adoram aquela sonoridade", diz Júlio Medaglia.
O professor e violoncelista Luiz Hernane Barros de Carvalho, porém, acha
que o segredo está no manuseio. "Existe algo de sexual na combinação
de músico e instrumento. As posições em que se toca o violoncelo
são praticamente as mesmas em que se faz sexo", diz. Com tantas vantagens,
não é de admirar que seu reinado, hoje, pareça inabalável.
"DETESTO ESTRELISMO"
O violoncelista Yo-Yo Ma, que se apresenta nesta semana no Brasil, fala nesta
entrevista sobre sua relação com maestros e sobre seus dilemas ao
gravar as Seis Suítes para Violoncelo, de Johann Sebastian Bach
uma das peças centrais do repertório erudito.
UMA DAS PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DE SUA
CARREIRA É A INQUIETUDE. O SENHOR GRAVA NÃO APENAS O REPERTÓRIO
ERUDITO MAS TAMBÉM MÚSICA DE CINEMA, MPB. POR QUE DECIDIU EXPANDIR
SEU REPERTÓRIO? Porque nós, artistas, temos obrigação
de manter nossos ouvidos e nosso coração abertos para a música
e abraçá-la se ela for boa, não importa o rótulo com
o qual a classifiquem.
O SENHOR TEM
FAMA DE SER UMA DAS PESSOAS MAIS SIMPLES E ACESSÍVEIS DO MUNDO ERUDITO.
COMO FAZ PARA MANTER A HUMILDADE NUM MUNDO FAMOSO PELA EGOLATRIA? Eu detesto
pessoas vazias. E detesto pessoas que tratam mal artistas em início de
carreira. Procuro me afastar desse tipo de gente e viver a minha vida.
É COMUM QUE SOLISTAS E MAESTROS TENHAM IDÉIAS
DIVERGENTES SOBRE COMO DETERMINADA OBRA DEVE SOAR. O SENHOR COSTUMA IMPOR SUAS
CONCEPÇÕES? Por muito tempo fui tímido para fazer
isso. Quem me ajudou a discutir mais abertamente sobre as peças que eu
iria tocar foi Leonard Bernstein. Certa vez, ele pediu a minha opinião
sobre o andamento de um concerto e eu disse: "Posso sugerir algo diferente?".
"Claro que sim!", respondeu ele. Costumo ter uma relação respeitosa
com os regentes. A única vez em que aprontei com um deles foi num concerto
com André Previn. Eu coloquei falsos dentes de vampiro e ficava sorrindo
para ele. Não sei como não se desconcentrou.
POR DUAS VEZES O SENHOR GRAVOU AS SEIS SUÍTES
PARA VIOLONCELO, DE JOHANN SEBASTIAN BACH, TIDA COMO UMA DAS PRINCIPAIS OBRAS
DO INSTRUMENTO. COMO FOI INTERPRETAR ESSA PEÇA DE TÃO DIFÍCIL
EXECUÇÃO? As Suítes são um desafio
na carreira de todo instrumentista. Exigem muito do músico. Além
disso, desde que Pablo Casals gravou essa peça nos anos 1930, toda releitura
das Suítes é comparada com a dele e não existe
um violoncelista que não se sinta pressionado com isso. Comigo não
foi diferente. Gravei a obra duas vezes. A princípio, fiquei incomodado
com a comparação. Mas depois pensei: "Fiz o melhor que podia, deixei
minha marca na obra, e é o que importa".
EM
1999, O SENHOR ESQUECEU SEU VIOLONCELO AVALIADO EM 2,5 MILHÕES DE DÓLARES
DENTRO DE UM TÁXI EM NOVA YORK. QUAL FOI A SUA REAÇÃO?
Eu fiquei apavorado. Não apenas porque era um instrumento raro, mas também
porque me senti sem jeito de falar para os meus filhos como eles deveriam cuidar
de seus instrumentos. Na primeira bronca que dei em minha filha, ela me lembrou
do episódio em que esqueci o violoncelo!