Linda,
mas frívola, egoísta e um pouco vulgar, Kitty (Naomi Watts) casa-se
com o bacteriologista Walter Fane (Edward Norton) por mero pânico: recusou
pretendentes demais e agora sua irmã caçula ficou noiva antes dela.
Walter leva Kitty para Xangai, onde ela prontamente inicia um caso com o vice-cônsul
(Liev Schreiber). O marido descobre e, como vingança, leva-a para o interior
da China, onde uma epidemia de cólera vem dizimando a população.
Kitty despenca, assim, num inferno um lugar onde sua beleza nada conta,
onde estrangeiros são malvistos (está-se em 1925, no auge do nacionalismo),
onde a vida social inexiste e onde um simples copo d'água pode matar. E
não apenas ela perdeu o amante mundano e ficou presa a um marido sério
e severo, como este nem sequer olha mais na sua cara. Até onde Kitty sabe,
Walter levou-a até ali para que ela morra, e é assim mesmo que ela
se sente, como se houvesse morrido. O romance O Véu Pintado, do
inglês W. Somerset Maugham (1874-1965), trata da ressurreição
de Kitty, que aprende a colocar suas desgraças numa perspectiva mais realista
e também, finalmente, a amar Walter. Já a adaptação
do livro, que estréia nesta sexta-feira no país e vai pelo título
preguiçoso de O Despertar de uma Paixão (The Painted Veil,
China/Estados Unidos, 2006), dá um passo além, ao tornar Walter
um agente dessa metamorfose e dar também a ele chance de se transformar.
Para quem leu o original de Maugham, Despertar é uma aula sobre
como adaptar, preservando o que um livro tem de bom e aprimorando-o onde ele é
falho; para quem não o leu, é de qualquer forma um belo filme.
A grande força de Despertar
é Edward Norton, que batalhou durante anos para filmar o romance, teve
muito a dizer sobre ele ao roteirista Ron Nyswaner e ao diretor John Curran e,
como ator, atravessa uma fase esplêndida. Norton expõe muito de si
mesmo na paixão por essa história de um homem que ama em vão.
E revela independência também no fato de o autor desta ser Somerset
Maugham, um dos escritores mais populares da primeira metade do século
XX e um dos mais esquecidos e desprezados da sua segunda metade.
Somerset Maugham: "O primeiro escritor do segundo
escalão"
Sempre
alfinetado pela crítica, Maugham se definia, com ironia e não sem
amargura, como "o primeiro romancista do segundo escalão". Sua prosa, é
verdade, hoje às vezes soa superada. Mas o que ele tinha de sobra era experiência.
Nascido em Paris, órfão aos 10 anos e despachado para a Inglaterra
para viver com um tio pastor de igreja, Maugham desenvolveu uma gagueira que muito
o atormentaria. Formou-se médico, mas largou a profissão assim que
seus escritos começaram a render. Foi agente secreto, casou-se com uma
socialite e depois se divorciou em meio a um bas-fond (durante três
décadas, seu verdadeiro amante foi o americano Gerald Haxton), viajou o
mundo e conheceu todo mundo que era alguém em seu tempo. Viu e viveu de
tudo, enfim, e transpôs esse conhecimento para sua obra com uma largueza
que o credita, hoje, a uma redescoberta. O Véu Pintado, como a maioria
de seus textos, lida com a habilidade inata dos seres humanos para conciliar suas
divergências íntimas e assim se recriarem e, no que era uma
idéia nova e algo escandalosa à época, reconhece sem meios-tons
a necessidade do prazer sexual para uma mulher. Maugham, em suma, era não
apenas um grande contador de histórias, mas um sujeito bem mais moderno
do que se imagina. Qualidades que Norton, em seu belo trabalho de edição,
traz à tona com uma clareza exemplar.