BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
ACESSO LIVRE
Conheça as seções e áreas de VEJA.com
com acesso liberado
REVISTAS
VEJA
Edição 2013

20 de junho de 2007
ver capa
NESTA EDIÇÃO
Índice
COLUNAS
Millôr
Lya Luft
André Petry
Diogo Mainardi
Reinaldo Azevedo
Roberto Pompeu de Toledo
SEÇÕES
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA.com
Holofote
Contexto
Radar
Veja essa
Gente
Datas
Auto-retrato
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
Publicidade
 

Cinema
Um negócio da China

Em O Despertar de uma Paixão, Edward Norton
redescobre um autor – e o melhora


Isabela Boscov

Fotos Baron/Getty Images/Divulgação
Norton e Naomi, como o malfadado casal Fane, na China de 1925: amor em tempos de cólera

VEJA TAMBÉM
Da internet
Trailer do filme

Linda, mas frívola, egoísta e um pouco vulgar, Kitty (Naomi Watts) casa-se com o bacteriologista Walter Fane (Edward Norton) por mero pânico: recusou pretendentes demais e agora sua irmã caçula ficou noiva antes dela. Walter leva Kitty para Xangai, onde ela prontamente inicia um caso com o vice-cônsul (Liev Schreiber). O marido descobre e, como vingança, leva-a para o interior da China, onde uma epidemia de cólera vem dizimando a população. Kitty despenca, assim, num inferno – um lugar onde sua beleza nada conta, onde estrangeiros são malvistos (está-se em 1925, no auge do nacionalismo), onde a vida social inexiste e onde um simples copo d'água pode matar. E não apenas ela perdeu o amante mundano e ficou presa a um marido sério e severo, como este nem sequer olha mais na sua cara. Até onde Kitty sabe, Walter levou-a até ali para que ela morra, e é assim mesmo que ela se sente, como se houvesse morrido. O romance O Véu Pintado, do inglês W. Somerset Maugham (1874-1965), trata da ressurreição de Kitty, que aprende a colocar suas desgraças numa perspectiva mais realista – e também, finalmente, a amar Walter. Já a adaptação do livro, que estréia nesta sexta-feira no país e vai pelo título preguiçoso de O Despertar de uma Paixão (The Painted Veil, China/Estados Unidos, 2006), dá um passo além, ao tornar Walter um agente dessa metamorfose e dar também a ele chance de se transformar. Para quem leu o original de Maugham, Despertar é uma aula sobre como adaptar, preservando o que um livro tem de bom e aprimorando-o onde ele é falho; para quem não o leu, é de qualquer forma um belo filme.

A grande força de Despertar é Edward Norton, que batalhou durante anos para filmar o romance, teve muito a dizer sobre ele ao roteirista Ron Nyswaner e ao diretor John Curran e, como ator, atravessa uma fase esplêndida. Norton expõe muito de si mesmo na paixão por essa história de um homem que ama em vão. E revela independência também no fato de o autor desta ser Somerset Maugham, um dos escritores mais populares da primeira metade do século XX – e um dos mais esquecidos e desprezados da sua segunda metade.

Somerset Maugham: "O primeiro escritor do segundo escalão"

Sempre alfinetado pela crítica, Maugham se definia, com ironia e não sem amargura, como "o primeiro romancista do segundo escalão". Sua prosa, é verdade, hoje às vezes soa superada. Mas o que ele tinha de sobra era experiência. Nascido em Paris, órfão aos 10 anos e despachado para a Inglaterra para viver com um tio pastor de igreja, Maugham desenvolveu uma gagueira que muito o atormentaria. Formou-se médico, mas largou a profissão assim que seus escritos começaram a render. Foi agente secreto, casou-se com uma socialite e depois se divorciou em meio a um bas-fond (durante três décadas, seu verdadeiro amante foi o americano Gerald Haxton), viajou o mundo e conheceu todo mundo que era alguém em seu tempo. Viu e viveu de tudo, enfim, e transpôs esse conhecimento para sua obra com uma largueza que o credita, hoje, a uma redescoberta. O Véu Pintado, como a maioria de seus textos, lida com a habilidade inata dos seres humanos para conciliar suas divergências íntimas e assim se recriarem – e, no que era uma idéia nova e algo escandalosa à época, reconhece sem meios-tons a necessidade do prazer sexual para uma mulher. Maugham, em suma, era não apenas um grande contador de histórias, mas um sujeito bem mais moderno do que se imagina. Qualidades que Norton, em seu belo trabalho de edição, traz à tona com uma clareza exemplar.

  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |