Saudado
por gente de peso, como Ricardo Piglia e Roberto Bolaño, como um dos maiores
escritores latino-americanos vivos, o argentino Alan Pauls, de 48 anos, demorou
a se decidir pelo título de seu quarto romance. Pensou em chamá-lo
de A Mulher Zumbi, por causa da natureza fantasmagórica de Sofía,
cujo amor doentio pelo tradutor Rímini, seu ex-namorado, impulsiona a narrativa.
Considerou um título curto, Ex, até chegar ao simples e definitivo
O Passado (tradução de Josely Vianna Baptista; Cosac
Naify; 478 páginas; 55 reais). "O amor é uma torrente contínua",
diz um dos personagens, e este também seria um bom título: Torrente
Contínua. Trata-se, afinal, de um romanção que se lê
compulsivamente. O Passado é cheio de lacunas, descontinuidades
e mudanças de trajetória mas, a essa força desagregadora,
Alan Pauls opõe o poder da memória, que garante alguma constância
onde tudo se desfaz rapidamente.
Divulgação
Alan Pauls: um artista que se mutila e um tradutor
que esquece línguas
Muito bem arquitetada, a estrutura do livro envolve o leitor e o joga sempre à
frente, ao longo das várias fases da vida de Rímini. Separado de
Sofía depois de doze anos de amor, ele começa o livro como um tradutor
solitário, tentando se desintoxicar da paixão e das drogas que consumia
em excesso. Curado, torna-se um intérprete de palestras e se apaixona pela
ciumenta Vera, que virá a morrer tragicamente. Rímini começa
então a esquecer as línguas estrangeiras que eram sua ferramenta
de trabalho. É nesse período que se reencontra com Carmen, amiga
de faculdade. Os dois se casam e têm um filho, mas Sofía acaba provocando
a traumática separação do casal. Rímini se faz professor
de tênis e acaba amante de uma aluna rica.
Em cada uma dessas vidas, Rímini depara sempre com a sombra da amada, que
o persegue como um espectro. Uma mórbida paixão comum mantém
os dois ligados, mesmo depois do rompimento: a obra do pintor inglês (fictício)
Jeremy Riltse, criador da sick art, uma estranha vanguarda que procura
dar status artístico à doença. Depois de uma excursão
à Europa para ver o artista, no tempo em que ainda eram gêmeos siameses,
Rímini e Sofía passam a ser uma representação da própria
lógica artística de Riltse. Enquanto o inglês colocava pedaços
de seu corpo nas telas e sonhava ir mais fundo na automutilação
em nome da arte, o casal fazia de seu amor doentio uma verdadeira obra, passando
por contínuas experiências de doença, envelhecimento precoce
e degradação física. O Passado parece estabelecer
fronteiras entre livros muito diversos entre si por exemplo, Em Busca
do Tempo Perdido, do francês Marcel Proust, O Jogo da Amarelinha,
do argentino Julio Cortázar, e O Amor nos Tempos do Cólera,
do colombiano Gabriel García Márquez. E convida o leitor a se perder
num território de obsessões perigosas, que só se tornam claras
quando vistas pelas lentes deformadoras da arte.
O suicídio do artista
guru
"Jeremy Riltse matou-se
em Londres certa madrugada de 1995. Tinha 78 anos e nenhum herdeiro. Reconciliado
com a própria celebridade, estava na etapa burguesa em que os artistas
reivindicam seu direito à imobilidade, como gurus. Alguns poucos protegidos,
em geral jovens e pobres, que usava como modelos para seus quadros, onde depois
apareciam desfigurados em ridículas metamorfoses bestiais, amenizavam sua
existência com prestações eróticas expeditas. Essas
satisfações esporádicas nunca lhe criaram problemas; ao contrário,
talvez estejam na origem das obras mais importantes de seus últimos anos;
as mais importantes, não as melhores."