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20 de junho de 2007
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Medicina
Com fome de gordura

Pesquisadores americanos e espanhóis identificam
o gene associado à predileção por comidas gordurosas


Paula Neiva

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Nesta reportagem
Quadro: A influência dos genes nas preferências alimentares

Até bem pouquíssimo tempo atrás, acreditava-se que o paladar era definido essencialmente por fatores ambientais. A cultura, a religião e a geografia, entre outros, teriam papel preponderante nos gostos alimentares de uma pessoa. Nos últimos cinco anos, porém, um novo conjunto de pesquisas sobre nutrição – a nutrigenética – começou a mostrar que os nossos genes têm também forte influência sobre nossas preferências à mesa. O trabalho mais recente sobre o assunto foi publicado na revista Clinical Chemistry, da Associação Americana de Química Clínica. Conduzido por pesquisadores de cinco universidades americanas e uma espanhola, o estudo mostrou que os portadores de uma variante do gene APOA2, com os alelos CC, costumam ter um gosto mais acentuado para as comidas gordurosas. O APOA2 pertence a uma família de genes responsável por regular o acúmulo, o transporte e a queima de gordura pelo organismo. "É interessante constatar que os mesmos genes envolvidos no metabolismo de determinado nutriente (no caso a gordura) influenciam também a predileção por ele", disse a VEJA o bioquímico Jose Ordovas, autor do trabalho e diretor do laboratório de nutrição e genômica da Universidade Tufts, nos Estados Unidos. A medicina ainda não desvendou os mecanismos envolvidos nesse processo. A hipótese mais aceita é que os alelos CC inibiriam os centros de saciedade por gordura.

Ordovas e sua equipe analisaram a carga genética e os costumes alimentares de 1 078 pessoas. Os portadores dos alelos CC representavam 15% do total de participantes. Os pesquisadores constataram que, além da preferência deles por batatas fritas e afins, eles consumiam mais calorias por dia do que os outros participantes. Com esse perfil genético, o risco de obesidade é 70% maior. Descobertas como essa abrem caminho para o desenvolvimento de tratamentos capazes de bloquear a ação de genes desfavoráveis ao cardápio saudável e também para que se consiga chegar ao que os especialistas chamam de dieta individualizada. "No futuro será possível prescrever uma alimentação para prevenir ou tratar doenças como obesidade e diabetes, baseando-se na análise do código genético de cada paciente", diz a geneticista Fabiana de Andrade, especialista em nutrição do Rio Grande do Sul. Antes do APOA2, já haviam sido identificados outros genes que influenciam as preferências alimentares por cafeína e doces, por exemplo. O consumo de álcool também já foi associado ao DNA. Pesquisas recentes mostraram que determinadas variações nos genes do paladar podem tornar o álcool mais apetitoso e, dessa forma, estimular seu consumo excessivo.

Como o paladar não exerce um papel tão importante quanto a visão e a audição na forma como o ser humano interage com o mundo, muitos o consideram um sentido mais pobre. A ciência, porém, é rica em evidências contrárias. O paladar começa a se formar por volta do 54º dia de gestação e é essencial à sobrevivência humana, já que funciona como um alerta contra a ingestão de substâncias venenosas. É por isso que, ao nascer, o bebê prefere os alimentos doces aos amargos. Sabe-se agora que as determinações genéticas do paladar podem transformá-lo num perigo.

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