Inacreditável:
agora são os palestinos que se matam entre si. Pior ainda, quem ganha
são os radicais do Hamas, que desfecham guerra-relâmpago, assumem
o controle da Faixa de Gaza e anunciam governo islâmico
Diogo Schelp
Eyad Albaba/AP
BRIGA FRATRICIDA
Soldados do Hamas tomam o quartel da Segurança Preventiva, do Fatah, na
Faixa de Gaza: vitória da violência tribal e da radicalização
A
Faixa de Gaza teve, na semana passada, seus dias de Iraque. À semelhança
do cotidiano iraquiano de violência e culto à morte, em que os muçulmanos
se matam entre si em nível muito mais letal do que o dirigido às
forças de ocupação americana, os dois grupos palestinos que
disputam o poder foram à guerra. Os confrontos fratricidas entre o Hamas,
organização fundamentalista, e o Fatah, cuja origem remonta ao início
da resistência a Israel, na época liderada por Yasser Arafat, fizeram
110 mortos e deixaram o mundo estarrecido com a insensatez disso tudo. Os palestinos
já não sofrem horrores desde a criação do estado de
Israel, com a perda progressiva de suas terras, as guerras malfadadas, a ocupação
ou o cerco das forças israelenses? Pois nunca uma situação
é tão ruim que não possa ficar mais insuportável ainda.
A guerra-relâmpago foi desfechada pelo Hamas para conseguir o controle total
sobre Gaza, a fatia de território onde tem mais influência. Em questão
de dias, às vezes horas, as forças leais ao Fatah sumiram do mapa.
Delegacias de polícia, repartições públicas e até
o gabinete onde o presidente palestino, Mahmoud Abbas, deveria despachar em Gaza
(mas onde havia muito tempo não era louco de ir) foram tomados, saqueados,
incendiados e até implodidos. Abbas diagnosticou os acontecimentos como
uma tentativa de golpe de estado e dissolveu uma das experiências políticas
mais infelizes de todos os tempos, o governo de união nacional criado há
três meses com o objetivo de conciliar os interesses conflitantes do partido
do presidente, o Fatah, e do ex-primeiro-ministro Ismail Haniyeh, do Hamas. Um
porta-voz do Hamas desdenhou o anúncio de Abbas e previu o início
de uma nova era na Faixa de Gaza a de um governo islâmico. Não
é difícil imaginar como Israel reagirá às iniciativas
que virão do que já foi apelidado de Hamastão.
Mohammed Salem/Reuters
CULTO À
MORTE O corpo de um soldado da Guarda Presidencial de Mahmoud Abbas,
do Fatah, é carregado em Gaza: 110 mortos em uma semana e a percepção
de que todo o Oriente Médio caminha para uma situação ainda
mais conflituosa
Com
Gaza sob controle do Hamas, a Palestina está na prática dividida
em duas antes mesmo de conseguir se tornar um estado independente. O espantoso
nível de violência entre, teoricamente, irmãos se encaixa
na lógica tribal predominante. Para o Hamas, os integrantes do Fatah são
traidores vendidos a Israel e aos Estados Unidos, merecedores portanto dos piores
suplícios. O confronto final começou a ser escrito em janeiro do
ano passado, quando o Hamas venceu as eleições parlamentares, teve
direito a nomear o primeiro-ministro e criou uma situação diplomática
insuportável. Como a comunidade internacional poderia se relacionar com
um partido que prega oficialmente a destruição de Israel? Os Estados
Unidos e os países europeus tentaram isolar e enfraquecer o grupo islâmico.
Como ele estava no poder, a Autoridade Palestina como um todo foi afetada. A estratégia
de suspender a ajuda internacional e o repasse de impostos recolhidos pelo governo
israelense acabou tendo o efeito inverso. O Hamas fortaleceu-se com o boicote
porque os palestinos atribuem não ao partido islâmico, mas aos governos
estrangeiros, a deterioração geral dos já penosos serviços
públicos. Para piorar, Abbas, o homem com quem dá para negociar,
saiu mais enfraquecido ainda em virtude de um boicote que pretendia atingir seus
adversários.
O golpe
do Hamas em Gaza vem sendo planejado há tempos. Em janeiro houve a primeira
tentativa, contornada por intervenção direta da Arábia Saudita.
Agora, a situação degringolou, com atrocidades que só garantem
a perpetuação da violência. Um exemplo: o cozinheiro da Guarda
Presidencial de Abbas foi jogado pela janela de um prédio de quinze andares,
com as mãos e os pés amarrados, na Cidade de Gaza. Em resposta,
um clérigo ligado ao Hamas foi executado da mesma maneira por militantes
do Fatah. "A Faixa de Gaza pode se transformar em um novo sul do Líbano,
com um grupo terrorista dominando o território e lançando ataques
contra Israel", disse a VEJA o cientista político libanês Fawaz Gerges,
do Sarah Lawrence College, em Nova York. Nada pior para o processo de paz no Oriente
Médio. Em visita à Cisjordânia e a Israel, a reportagem de
VEJA encontrou os sinais da desesperança que tem dominado israelenses e
palestinos, especialmente os jovens, em relação ao conflito. O resultado
está nas páginas a seguir.