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20 de junho de 2007
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Internacional
Irmãos X irmãos

Inacreditável: agora são os palestinos que se matam
entre si. Pior ainda, quem ganha são os radicais do
Hamas, que desfecham guerra-relâmpago, assumem
o controle da Faixa de Gaza e anunciam governo islâmico


Diogo Schelp

Eyad Albaba/AP
BRIGA FRATRICIDA
Soldados do Hamas tomam o quartel da Segurança Preventiva, do Fatah, na Faixa de Gaza: vitória da violência tribal e da radicalização

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A Faixa de Gaza teve, na semana passada, seus dias de Iraque. À semelhança do cotidiano iraquiano de violência e culto à morte, em que os muçulmanos se matam entre si em nível muito mais letal do que o dirigido às forças de ocupação americana, os dois grupos palestinos que disputam o poder foram à guerra. Os confrontos fratricidas entre o Hamas, organização fundamentalista, e o Fatah, cuja origem remonta ao início da resistência a Israel, na época liderada por Yasser Arafat, fizeram 110 mortos e deixaram o mundo estarrecido com a insensatez disso tudo. Os palestinos já não sofrem horrores desde a criação do estado de Israel, com a perda progressiva de suas terras, as guerras malfadadas, a ocupação ou o cerco das forças israelenses? Pois nunca uma situação é tão ruim que não possa ficar mais insuportável ainda. A guerra-relâmpago foi desfechada pelo Hamas para conseguir o controle total sobre Gaza, a fatia de território onde tem mais influência. Em questão de dias, às vezes horas, as forças leais ao Fatah sumiram do mapa. Delegacias de polícia, repartições públicas e até o gabinete onde o presidente palestino, Mahmoud Abbas, deveria despachar em Gaza (mas onde havia muito tempo não era louco de ir) foram tomados, saqueados, incendiados e até implodidos. Abbas diagnosticou os acontecimentos como uma tentativa de golpe de estado e dissolveu uma das experiências políticas mais infelizes de todos os tempos, o governo de união nacional criado há três meses com o objetivo de conciliar os interesses conflitantes do partido do presidente, o Fatah, e do ex-primeiro-ministro Ismail Haniyeh, do Hamas. Um porta-voz do Hamas desdenhou o anúncio de Abbas e previu o início de uma nova era na Faixa de Gaza – a de um governo islâmico. Não é difícil imaginar como Israel reagirá às iniciativas que virão do que já foi apelidado de Hamastão.

Mohammed Salem/Reuters
CULTO À MORTE
O corpo de um soldado da Guarda Presidencial de Mahmoud Abbas, do Fatah, é carregado em Gaza: 110 mortos em uma semana e a percepção de que todo o Oriente Médio caminha para uma situação ainda mais conflituosa

Com Gaza sob controle do Hamas, a Palestina está na prática dividida em duas antes mesmo de conseguir se tornar um estado independente. O espantoso nível de violência entre, teoricamente, irmãos se encaixa na lógica tribal predominante. Para o Hamas, os integrantes do Fatah são traidores vendidos a Israel e aos Estados Unidos, merecedores portanto dos piores suplícios. O confronto final começou a ser escrito em janeiro do ano passado, quando o Hamas venceu as eleições parlamentares, teve direito a nomear o primeiro-ministro e criou uma situação diplomática insuportável. Como a comunidade internacional poderia se relacionar com um partido que prega oficialmente a destruição de Israel? Os Estados Unidos e os países europeus tentaram isolar e enfraquecer o grupo islâmico. Como ele estava no poder, a Autoridade Palestina como um todo foi afetada. A estratégia de suspender a ajuda internacional e o repasse de impostos recolhidos pelo governo israelense acabou tendo o efeito inverso. O Hamas fortaleceu-se com o boicote porque os palestinos atribuem não ao partido islâmico, mas aos governos estrangeiros, a deterioração geral dos já penosos serviços públicos. Para piorar, Abbas, o homem com quem dá para negociar, saiu mais enfraquecido ainda em virtude de um boicote que pretendia atingir seus adversários.

O golpe do Hamas em Gaza vem sendo planejado há tempos. Em janeiro houve a primeira tentativa, contornada por intervenção direta da Arábia Saudita. Agora, a situação degringolou, com atrocidades que só garantem a perpetuação da violência. Um exemplo: o cozinheiro da Guarda Presidencial de Abbas foi jogado pela janela de um prédio de quinze andares, com as mãos e os pés amarrados, na Cidade de Gaza. Em resposta, um clérigo ligado ao Hamas foi executado da mesma maneira por militantes do Fatah. "A Faixa de Gaza pode se transformar em um novo sul do Líbano, com um grupo terrorista dominando o território e lançando ataques contra Israel", disse a VEJA o cientista político libanês Fawaz Gerges, do Sarah Lawrence College, em Nova York. Nada pior para o processo de paz no Oriente Médio. Em visita à Cisjordânia e a Israel, a reportagem de VEJA encontrou os sinais da desesperança que tem dominado israelenses e palestinos, especialmente os jovens, em relação ao conflito. O resultado está nas páginas a seguir.

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