Conselho se esforça para poupar o presidente do Senado, enrolado com
lobista, bois e recibos falsos
Otávio
Cabral
Wilson
Dias/ABR
Renan
Calheiros: articulação com aliados para evitar processo de cassação
O Conselho de Ética do Senado deu na semana passada uma valiosa contribuição
para consolidar a péssima reputação da classe política
brasileira. Sem se preocupar em ao menos fazer de conta que pretendia investigar
alguma coisa, o senador Epitácio Cafeteira, do PTB do Maranhão,
concluiu que o presidente do Congresso, Renan Calheiros, não praticou atos
que ferissem o decoro parlamentar ao utilizar os serviços de um lobista
da empreiteira Mendes Júnior para pagar as despesas de uma filha durante
quase dois anos. Cafeteira também não viu nada de mais no fato de
esses serviços incluírem o empréstimo de um apartamento para
encontros particulares e o uso do escritório da empreiteira como se fosse
uma tesouraria de Renan Calheiros. O senador Epitácio também não
detectou conflito algum no fato de o presidente do Congresso manter relações
de amizade com um empreiteiro do calibre de Zuleido Veras, acusado de corrupção,
formação de quadrilha e fraude em licitações. Se aprovada,
a decisão de Cafeteira, além de constranger os políticos
sérios, cria um novo e vergonhoso patamar ético no Parlamento. Qualquer
senador pode sentir-se autorizado a receber um empreiteiro em sua casa, pedir-lhe
um favor financeiro e, depois, compensá-lo com a apresentação
de uma emenda ao Orçamento. Estará simplesmente seguindo a jurisprudência
criada pelo senador Cafeteira.
Fotos
Cristiano Mariz
As
fazendas do senador em Alagoas: lucros excepcionais com a venda de gado para um
lugar isolado pela febre aftosa
"A
decisão de arquivar o caso ocorreu antes de a investigação
começar. É um precedente perigoso, um convite à quebra de
decoro", protestou o senador Demostenes Torres, do DEM de Goiás, um dos
parlamentares que se insurgiram contra o relatório de Cafeteira. O que
se viu no Conselho de Ética foi a montagem de uma farsa para absolver Renan
Calheiros sem nenhuma investigação, e ela só não se
concretizou ainda porque o custo político poderia ser impagável
mesmo para o padrão daqueles senhores. Uma reportagem do Jornal Nacional,
da Rede Globo, fez o que a comissão não se interessou
em fazer. Os jornalistas tiveram acesso aos recibos que o senador Calheiros apresentou
para justificar a origem dos recursos que, segundo ele, foram usados para pagar
a pensão da filha. Renan não conseguiu provar que o dinheiro entregue
pelo lobista Cláudio Gontijo à jornalista Mônica Veloso, mãe
de sua filha, saiu de suas contas pessoais e tenta convencer que tinha condições
financeiras de fazer os pagamentos. Para comprovar pelo menos essa parte de sua
versão, o senador apresentou 64 recibos atestando a venda de 1 700 cabeças
de gado, que lhe rendeu cerca de 1,9 milhão de reais. Os documentos se
assemelham a uma versão rural da famosa Operação Uruguai
a fracassada armação feita pelo ex-presidente Fernando Collor
antes de seu impeachment.
Celso
Junior/AE
Reunião
do Conselho de Ética: encenação para livrar o senador Renan
Calheiros de uma investigação rigorosa
Desde
o início da semana, a operação Alagoas do presidente do Congresso
já chamava atenção pelos valores envolvidos nas transações.
Renan Calheiros declarou ganhos de 1,9 milhão de reais com a venda de gado
nos últimos quatro anos, transformando o senador em um fenômeno da
pecuária moderna. O estado de Alagoas está classificado como área
de risco da febre aftosa e não pode vender 1 quilo de carne para além
de suas fronteiras. Isso, é claro, fez o preço do boi cair e a produção
minguar na região, exceto para o rebanho de Renan Calheiros, que conseguiu
fazer negócios a valores bem acima dos de mercado. De acordo com as declarações
de renda do senador, a maior parte de sua criação foi vendida a
empresas de Maceió e até a uma da Paraíba, contrariando as
determinações de segurança sanitária. A reportagem
procurou os compradores dos bois de Renan Calheiros e descobriu surpreendentes
indícios de fraude. A empresa Carnal, segundo documentos assinados pelo
senador, comprou 127.000 reais em gado de sua fazenda. Em entrevista, o proprietário
da empresa, João Teixeira dos Santos, diz que nunca fez nenhum negócio
com o senador e que a empresa está desativada há tempos. Outra compradora
do gado de Renan Calheiros, de acordo com os recibos assinados, é a empresa
GF da Silva Costa. No endereço onde ela deveria funcionar mora uma família
que nunca ouviu falar nem da empresa nem de seu dono.
Fotos
reprodução
O
outro lado da venda de gado: o gerente da fazenda de Calheiros disse ao Jornal
Nacional que o rebanho é menor do que o anunciado e os "compradores" garantem
nunca ter feito negócio com o senador
Os
recibos parecem ter sido produzidos em série, num arquivo de computador.
São assinados pelo senador Renan Calheiros e foram entregues ao Conselho
de Ética acompanhados, em sua maioria, dos respectivos comprovantes de
depósitos bancários. Entre as empresas compradoras do gado do senador,
duas já foram multadas pela Secretaria da Fazenda de Alagoas por extravio
de notas fiscais. Renan Calheiros disse que tem como comprovar que as transações
efetivamente aconteceram e prometeu apresentar mais documentos. "Estão
querendo sujar o nosso nome", protestou José Marcolino Neto, dono do supermercado
Manaíra, em João Pessoa, que teria comprado 45 cabeças de
gado do senador. "Desconheço esse negócio e esse recibo." Segundo
Renan Calheiros, se houve algum problema nas vendas, a responsabilidade é
do veterinário Gualter Peixoto, que cuida de suas fazendas em Alagoas.
Peixoto não é um veterinário qualquer. Ele também
é o chefe do setor do Vigilância Sanitária da prefeitura de
Murici e tem como patrão Renan Calheiros Filho, o prefeito, filho do senador.
O veterinário-marchand desapareceu na semana passada. Em Murici, funcionários
da prefeitura informaram que ele dá expediente apenas na terça-feira,
do meio-dia às 6 da tarde. As informações agropecuárias
de Renan Calheiros foram desmentidas pelo próprio gerente de sua fazenda,
Everaldo de Lima Silva. Segundo ele, pastam nas fazendas de Renan 1 100 bois,
600 a menos do que informou o senador.
Alexandre
Schneider
A
VEJA, Mônica Veloso confirmou que os pagamentos eram feitos pelo lobista em dinheiro
Na sexta-feira, o Conselho de
Ética do Senado, que estava preparado para arquivar o caso, decidiu solicitar
uma perícia nos documentos apresentados por Renan Calheiros. Foi o penúltimo
ato de uma encenação que estava marcada para terminar naquele dia
e que só não acabou por causa das novas suspeitas de fraude. Foi
tudo tão escandalosamente armado que, nas últimas duas semanas,
coube ao senador Renan Calheiros ele mesmo, o investigado a tarefa
de avalizar a indicação dos membros do Conselho de Ética,
discutir com aliados o nome do relator e usar sua influência para controlar
o processo desde o início. Ninguém parecia constrangido em testemunhar
Renan usando o cargo de presidente do Congresso para promover as articulações
de sua própria absolvição. Na tarde de 30 de maio, por exemplo,
cinco dias depois de publicada a primeira denúncia de que o lobista da
Mendes Júnior pagava suas despesas pessoais, Renan se reuniu com o líder
do governo, Romero Jucá, do PMDB, e com a líder do PT, Ideli Salvatti,
para definir o nome do presidente do recém-indicado Conselho de Ética.
Os dois partidos são donos das maiores bancadas e, por isso, têm
a prerrogativa de indicar o presidente e o relator da comissão. Jucá
um raro exemplo de ética, principalmente quando o assunto é
fazenda sugeriu o nome do petista Sibá Machado para a presidência.
Renan, de início, não gostou. Na cabeça do senador, por trás
das denúncias havia uma conspiração de petistas querendo
sua derrocada, e Sibá não estava na lista de seus convivas. Ideli
Salvatti garantiu que Sibá faria tudo o que a cúpula do PT determinasse.
Renan concordou.
Joedson
Alves/AE
Jader
Barbalho: o conselheiro que foi obrigado a renunciar
Definido
o nome do presidente, passou-se à etapa seguinte, a escolha do relator,
missão para a qual os governistas já tinham o nome do senador Epitácio
Cafeteira como principal candidato. Ele possuía o perfil apropriado para
assumir o papel de impostor. Renan, de novo, estava à frente do processo
de escolha. Ele só deu sinal verde à indicação de
Cafeteira depois de ouvir do aliado José Sarney que o colega maranhense
era confiável e faria tudo o que fosse necessário para absolvê-lo
rapidamente, mesmo que para isso, como se viu, precisasse apresentar um suspeitíssimo
relatório, sem ouvir testemunhas, sem periciar documento, formando seu
juízo sobre o caso sentado numa privada. Nem a divulgação
dos recibos suspeitos impediu o senador de continuar a vergonhosa articulação.
Renan passou a madrugada de quinta para sexta-feira ao telefone. Um de seus principais
interlocutores foi o deputado Jader Barbalho, que renunciou em 2001 para não
ter o mandato cassado. A notícia atrapalhou os planos de encerrar o caso
na sexta-feira. Pegaria mal. Combinou-se então um novo ato, acertado no
gabinete do senador Marconi Perillo, do PSDB. O Conselho, com o aval da oposição,
aceitaria prorrogar em dois dias o início da votação do relatório
de Cafeteira para que os recibos fossem periciados e também tomados os
depoimentos do lobista Cláudio Gontijo e do advogado de Mônica Veloso
(ela, que é a principal testemunha, não foi convidada). Mas esqueceram-se
de combinar a nova versão com o senador Epitácio Cafeteira, que,
radical, anunciou que renunciaria se houvesse o adiamento. A renúncia de
Cafeteira era tudo que Renan Calheiros não queria. A sorte do senador é
que o celular de Cafeteira tocou durante a sessão. Era sua esposa, Maria
Isabel, pedindo que ele reconsiderasse. Ele reconsiderou. A votação
do relatório com postulados éticos de Cafeteira está marcada
para terça-feira.