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Auto-retrato Janeth
Arcain
Ernani
D'Almeida  |
Tetracampeã
na liga profissional americana, campeã mundial pela seleção
brasileira e medalha de prata e bronze em Olimpíadas, a jogadora de basquete
Janeth Arcain é uma das mulheres mais bem-sucedidas do esporte brasileiro.
Aos 38 anos, decidida a encerrar sua carreira depois dos Jogos Pan-Americanos,
Janeth falou à repórter Denise Dweck sobre sua aposentadoria.
POR QUE VOCÊ NÃO ESPERA PARA SE APOSENTAR DEPOIS DAS OLIMPÍADAS
DE PEQUIM, NO ANO QUE VEM? Eu poderia ir à minha quinta Olimpíada,
mas já abri mão de muita coisa da vida pessoal pelo basquete. Deixei
de fazer viagens e de ir a festas, por exemplo. É nisso que quero pensar
agora. Está na hora de pensar um pouco mais em mim e deixar o esporte em
segundo plano. Eu já jogo basquete há 25 anos. Da mesma forma como
antes eu estava decidida e preparada para jogar, agora estou decidida e preparada
para me retirar das quadras. UM
NAMORADO UMA VEZ LHE DEU UM ULTIMATO: OU ELE OU O BASQUETE. É DIFÍCIL
CONCILIAR O NAMORO COM O ESPORTE? Sim. O atleta leva uma vida cigana. Quando
vivi essa situação com meu então namorado, tive de lhe dizer:
"Amor eu posso encontrar hoje um aqui e, depois, outro lá. No esporte,
tenho de viver o momento. A minha dedicação vai ser para o basquete.
Se você não aceita isso, desculpe-me. Agora, estou amando o basquete".
VOCÊ NÃO SE
ARREPENDE? Não me arrependo de nada, mas brinco que era feliz quando
criança e não sabia. Eu podia fazer tudo, brincar de boneca, empinar
pipa, andar de patins. Hoje, nem namorar... E também não dá
para dizer que amanhã vou sair e virar a noite. Não tenho mais 18
anos. OS FILHOS TAMBÉM
FORAM ADIADOS... Não tive filhos e agora, aos 38 anos, vai ser difícil
tê-los. Cheguei a sonhar em ser mãe, mas isso já passou. Para
ter filhos, eu deveria ter parado de jogar basquete por pelo menos dois anos e,
nos últimos tempos, estava vivendo o meu auge. Na carreira de um ídolo
do basquete é difícil sair e voltar.
ATÉ RECENTEMENTE, HAVIA POUCAS ATLETAS NEGRAS NA SELEÇÃO
BRASILEIRA. POR QUÊ? É uma questão de oportunidade. Para
muitos negros, sai caro pagar para ser sócio de um clube, e essa é,
no Brasil, a principal porta de entrada para o basquete. Por isso os brancos,
que têm melhores condições financeiras, é que acabam
predominando nas equipes. HÁ
RACISMO NO ESPORTE? Racismo, não. Não me lembro de ter passado
por uma situação do gênero nem de alguém ter me insultado.
O que senti foi preconceito quando fui para os Estados Unidos, por ser sul-americana.
Por sorte, soube me impor, mostrando o meu jogo. VOCÊ
É A FAVOR DAS COTAS PARA NEGROS EM UNIVERSIDADES? Não. A quantidade
de vagas tem de ser igual para todo mundo, e a disputa, por meio de testes de
conhecimento. As cotas podem até gerar mais racismo. As pessoas podem pensar:
"Esses aí só conseguiram vaga porque são negros". A única
maneira que existe para diminuir as desigualdades é dar oportunidades de
estudo e treino para todos desde cedo, para que depois eles se dêem bem
na universidade ou no esporte. O
QUE VOCÊ FAZ PARA MANTER A FORMA? Sempre brinco que tenho corpinho de
18, rosto de 25 e a experiência de uma mulher de 38 anos. Não faço
nada em especial. Como de tudo sem exagerar e adoro tomar vinho. Só faço
dieta em dia de jogo e me exercito nos treinos. COMO
ERA JOGAR COM A PAULA E A HORTÊNCIA? HAVIA CIÚMES? Sempre há
ciumeira, ainda mais quando se trata de mulheres. Algumas jogadoras da seleção
ficavam com inveja porque só as duas apareciam na mídia. Sempre
fiquei na minha, esperando o meu momento, que acabou chegando. |