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20 de junho de 2007
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Auto-retrato
Janeth Arcain


Ernani D'Almeida


Tetracampeã na liga profissional americana, campeã mundial pela seleção brasileira e medalha de prata e bronze em Olimpíadas, a jogadora de basquete Janeth Arcain é uma das mulheres mais bem-sucedidas do esporte brasileiro. Aos 38 anos, decidida a encerrar sua carreira depois dos Jogos Pan-Americanos, Janeth falou à repórter Denise Dweck sobre sua aposentadoria.

POR QUE VOCÊ NÃO ESPERA PARA SE APOSENTAR DEPOIS DAS OLIMPÍADAS DE PEQUIM, NO ANO QUE VEM? Eu poderia ir à minha quinta Olimpíada, mas já abri mão de muita coisa da vida pessoal pelo basquete. Deixei de fazer viagens e de ir a festas, por exemplo. É nisso que quero pensar agora. Está na hora de pensar um pouco mais em mim e deixar o esporte em segundo plano. Eu já jogo basquete há 25 anos. Da mesma forma como antes eu estava decidida e preparada para jogar, agora estou decidida e preparada para me retirar das quadras.

UM NAMORADO UMA VEZ LHE DEU UM ULTIMATO: OU ELE OU O BASQUETE. É DIFÍCIL CONCILIAR O NAMORO COM O ESPORTE? Sim. O atleta leva uma vida cigana. Quando vivi essa situação com meu então namorado, tive de lhe dizer: "Amor eu posso encontrar hoje um aqui e, depois, outro lá. No esporte, tenho de viver o momento. A minha dedicação vai ser para o basquete. Se você não aceita isso, desculpe-me. Agora, estou amando o basquete".

VOCÊ NÃO SE ARREPENDE? Não me arrependo de nada, mas brinco que era feliz quando criança e não sabia. Eu podia fazer tudo, brincar de boneca, empinar pipa, andar de patins. Hoje, nem namorar... E também não dá para dizer que amanhã vou sair e virar a noite. Não tenho mais 18 anos.

OS FILHOS TAMBÉM FORAM ADIADOS... Não tive filhos e agora, aos 38 anos, vai ser difícil tê-los. Cheguei a sonhar em ser mãe, mas isso já passou. Para ter filhos, eu deveria ter parado de jogar basquete por pelo menos dois anos e, nos últimos tempos, estava vivendo o meu auge. Na carreira de um ídolo do basquete é difícil sair e voltar.

ATÉ RECENTEMENTE, HAVIA POUCAS ATLETAS NEGRAS NA SELEÇÃO BRASILEIRA. POR QUÊ? É uma questão de oportunidade. Para muitos negros, sai caro pagar para ser sócio de um clube, e essa é, no Brasil, a principal porta de entrada para o basquete. Por isso os brancos, que têm melhores condições financeiras, é que acabam predominando nas equipes.

HÁ RACISMO NO ESPORTE? Racismo, não. Não me lembro de ter passado por uma situação do gênero nem de alguém ter me insultado. O que senti foi preconceito quando fui para os Estados Unidos, por ser sul-americana. Por sorte, soube me impor, mostrando o meu jogo.

VOCÊ É A FAVOR DAS COTAS PARA NEGROS EM UNIVERSIDADES? Não. A quantidade de vagas tem de ser igual para todo mundo, e a disputa, por meio de testes de conhecimento. As cotas podem até gerar mais racismo. As pessoas podem pensar: "Esses aí só conseguiram vaga porque são negros". A única maneira que existe para diminuir as desigualdades é dar oportunidades de estudo e treino para todos desde cedo, para que depois eles se dêem bem na universidade ou no esporte.

O QUE VOCÊ FAZ PARA MANTER A FORMA? Sempre brinco que tenho corpinho de 18, rosto de 25 e a experiência de uma mulher de 38 anos. Não faço nada em especial. Como de tudo sem exagerar e adoro tomar vinho. Só faço dieta em dia de jogo e me exercito nos treinos.

COMO ERA JOGAR COM A PAULA E A HORTÊNCIA? HAVIA CIÚMES? Sempre há ciumeira, ainda mais quando se trata de mulheres. Algumas jogadoras da seleção ficavam com inveja porque só as duas apareciam na mídia. Sempre fiquei na minha, esperando o meu momento, que acabou chegando.

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