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Edição 1 705 - 20 de junho de 2001
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CINEMA

Marlene Bergamo/Ed Viggiani
Santoro, em cena: inferno


Bicho de Sete Cabeças
(Brasil/Itália/Suíça, 2001. Estréia nesta sexta-feira) – A tragédia familiar retratada pela diretora Laís Bodansky em seu primeiro longa-metragem é das mais devastadoras. Neto (Rodrigo Santoro) é um adolescente que atravessa aquela fase típica de desajuste. Evita os pais (Othon Bastos e Cássia Kiss), picha muros, fuma maconha. Sem saber o que fazer, seu pai o interna num manicômio. É o mesmo que despachá-lo para o inferno. Quanto mais Neto adentra essa experiência brutal, mais ela o aleija. Seria até possível fazer um ou outro reparo a Bicho de Sete Cabeças – por exemplo, o esquematismo da confusão familiar que deságua na internação de Neto –, mas eles são irrelevantes. A diretora acerta onde é essencial: na sensação de terror que toma conta do protagonista (e da platéia) a partir do momento em que ele abre os olhos no hospício pela primeira vez. Livremente inspirado no relato autobiográfico Canto dos Malditos, de Austregésilo Carrano Bueno, o filme tem ótimas atuações. A mais surpreendente é a de Santoro, em sua estréia no cinema.

 

DISCOS

The Invisible Band, Travis (Sony Music) – Surgido na cidade escocesa de Glasgow em meados dos anos 90, o quarteto Travis consegue a proeza de agradar tanto aos roqueiros mais tradicionais, como Paul McCartney, quanto aos baderneiros do Oasis. O segredo é a versatilidade do cantor e guitarrista Francis Healy. Sua capacidade de alternar rocks honestos com baladas que emocionariam um ogro fez com que a crítica o descrevesse como "mistura de U2 com Simon & Garfunkel". O Travis também encanta o público adolescente: seus maiores hits falam sobre os indefectíveis problemas amorosos da moçada. Esse terceiro CD do grupo traz algumas gemas, como Side, The Cage e Pipe Dreams.

Selmy Yassuda
Moacir Santos: MPB instrumental

Ouro Negro, Moacir Santos (MP,B) – Saxofonista, maestro, compositor e arranjador, Santos é uma espécie de músico dos músicos. Seu álbum Coisas (1965) é um marco da MPB instrumental. Além disso, ele foi professor de gente do quilate de Nara Leão e Baden Powell. Em Ouro Negro, o artista, que vive na Califórnia há 34 anos, tem sua obra recuperada pelo violonista Mario Adnet e pelo saxofonista Zé Nogueira. No CD duplo, com participações de Gilberto Gil, Milton Nascimento e João Bosco, vem à tona um estilo que casa jazz, bossa nova, música africana e nordestina sem causar indigestão. Além da versão original de Coisa Número 5, que nos anos 60 ganhou letra e foi sucesso nas vozes de Nara e Wilson Simonal, há que se prestar atenção à bela Maracatu, Nação do Amor.

 

LIVRO

Alice Boughton
James: contos cheios de ironia

A Vida Privada e Outras Histórias, de Henry James (tradução de Onédia C.P. de Queiroz; Nova Alexandria; 206 páginas; 23 reais) – O americano Henry James (1843-1916) é um autor bem traduzido no Brasil. Alguns de seus grandes romances, como Retrato de uma Senhora, encontram-se nas livrarias do país, assim como novelas célebres e coletâneas de histórias e ensaios. Faltava uma amostra de seus contos sobre a vida artística, um de seus temas prediletos. Esse livro reúne três textos que giram em torno do assunto. A Vida Privada, com toques fantásticos, fala do artista como criador e homem público. Em A Lição do Mestre, o protagonista é um romancista que impede o casamento de seu pupilo para tentar salvar-lhe o talento. Já O Desenho do Tapete trata das relações entre críticos e escritores e contém uma charada. Cheios de ironia, os contos estão certamente entre os melhores e mais divertidos de James.

 

JUVENIL

As Aves, de Aristófanes (tradução de Antonio Medina Rodrigues; 34; 168 páginas; 17 reais) – Nome central da dramaturgia clássica, Aristófanes revolucionou os fundamentos do teatro grego. Ele foi o primeiro a se utilizar das comédias para criticar a sociedade da época – antes dele, esse tipo de crítica era exclusividade das tragédias. Representada pela primeira vez em 411 a.C., As Aves conta a história de Evélpido e Pistétero, cidadãos atenienses que se cansam dos homens e resolvem viver com os pássaros. Traduzida diretamente do grego, a peça foi adaptada para o público adolescente. O texto contém gírias modernas e sua introdução é bem didática.

 

LITERATURA BRASILEIRA

Barco a Seco
Rubens Figueiredo;
Companhia das Letras;
191 páginas;
24,50 reais

Sexto livro de ficção do carioca Rubens Figueiredo, Barco a Seco não se entrega de mão beijada ao leitor. Não porque seja "difícil". Ele é curto, tem linguagem rica mas cristalina, um enredo simples e uma seqüência narrativa que, se não é linear, também não chega a confundir. Só uma leitura paciente, no entanto, é capaz de retirar de cada metáfora, cada personagem e situação o que o autor escondeu nesse belo romance.

O cenário é uma cidade grande, mas sem nome. O protagonista, Gaspar, um homem sem família, que escapou por pouco da indigência. Ajudado por uma professora e depois por Angelina, dona de uma galeria, ele ingressa na classe média e se torna especialista na obra de Emilio Vega, artista de vida obscura devotado à pintura de marinhas. Nos mendigos da cidade e nos velhos dos asilos, porém, Gaspar sempre encontra um lembrete de que o abandono é um destino possível. De sua aguda e dolorida consciência da miséria nasce uma repulsa silenciosa – tanto ao mundo de privações de onde ele veio quanto ao mundo de fartura voraz, irresponsável e egoísta dos ricos.

Gaspar procura um espaço seguro e neutro. Daí seu fascínio pelos quadros de Vega, especialmente por aqueles que representam barcos jogados sobre a areia, "cuja perfeição reside em não ter um lugar no mundo nem fora do mundo". Ele acredita estar a salvo até que dois acontecimentos o põem em perigo: uma crise ameaça o futuro da galeria onde trabalha e um velho, que diz ter conhecido Vega, abala suas teorias sobre o artista. O que se pode negociar? Até onde é legítimo mentir e falsificar para não perder o que se conquistou numa sociedade de oportunidades desiguais? Nessas perguntas se encontra o tema do romance de Figueiredo. O que o autor escondeu em seu texto, portanto, é algo notável: um romance de reflexão política e social, mas que passa longe de todos os truques surrados desse tipo de literatura e, por isso mesmo, não pode ser rotulado.

Carlos Graieb

 

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Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Nobel, Siciliano; Rio: Saraiva, Laselva, Sodiler, Siciliano; Porto Alegre: Saraiva, Livraria Ed. Porto Alegre, Siciliano; Brasília: Sodiler, Siciliano, Saraiva, Leitura; Maceió: Sodiler; Recife: Sodiler, Saraiva, Siciliano; Natal: Sodiler; Florianópolis: Siciliano; Goiânia: Siciliano; Fortaleza: Siciliano, Laselva; Salvador: Siciliano; Curitiba: Siciliano, Saraiva; Belo Horizonte: Siciliano, Leitura.
 
   
 
   
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