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CINEMA
Marlene Bergamo/Ed Viggiani
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| Santoro,
em cena: inferno |
Bicho de Sete Cabeças (Brasil/Itália/Suíça,
2001. Estréia nesta sexta-feira) A tragédia familiar
retratada pela diretora Laís Bodansky em seu primeiro longa-metragem
é das mais devastadoras. Neto (Rodrigo Santoro) é um adolescente
que atravessa aquela fase típica de desajuste. Evita os pais (Othon
Bastos e Cássia Kiss), picha muros, fuma maconha. Sem saber o que
fazer, seu pai o interna num manicômio. É o mesmo que despachá-lo
para o inferno. Quanto mais Neto adentra essa experiência brutal,
mais ela o aleija. Seria até possível fazer um ou outro
reparo a Bicho de Sete Cabeças por exemplo, o esquematismo
da confusão familiar que deságua na internação
de Neto , mas eles são irrelevantes. A diretora acerta onde
é essencial: na sensação de terror que toma conta
do protagonista (e da platéia) a partir do momento em que ele abre
os olhos no hospício pela primeira vez. Livremente inspirado no
relato autobiográfico Canto dos Malditos, de Austregésilo
Carrano Bueno, o filme tem ótimas atuações. A mais
surpreendente é a de Santoro, em sua estréia no cinema.
DISCOS
The
Invisible Band, Travis (Sony Music) Surgido na cidade escocesa
de Glasgow em meados dos anos 90, o quarteto Travis consegue a proeza
de agradar tanto aos roqueiros mais tradicionais, como Paul McCartney,
quanto aos baderneiros do Oasis. O segredo é a versatilidade do
cantor e guitarrista Francis Healy. Sua capacidade de alternar rocks honestos
com baladas que emocionariam um ogro fez com que a crítica o descrevesse
como "mistura de U2 com Simon & Garfunkel". O Travis também
encanta o público adolescente: seus maiores hits falam sobre os
indefectíveis problemas amorosos da moçada. Esse terceiro
CD do grupo traz algumas gemas, como Side, The Cage e Pipe Dreams.
Selmy Yassuda
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| Moacir
Santos: MPB instrumental |
Ouro
Negro, Moacir Santos (MP,B) Saxofonista, maestro, compositor
e arranjador, Santos é uma espécie de músico dos
músicos. Seu álbum Coisas (1965) é um marco
da MPB instrumental. Além disso, ele foi professor de gente do
quilate de Nara Leão e Baden Powell. Em Ouro Negro, o artista,
que vive na Califórnia há 34 anos, tem sua obra recuperada
pelo violonista Mario Adnet e pelo saxofonista Zé Nogueira. No
CD duplo, com participações de Gilberto Gil, Milton Nascimento
e João Bosco, vem à tona um estilo que casa jazz, bossa
nova, música africana e nordestina sem causar indigestão.
Além da versão original de Coisa Número 5, que
nos anos 60 ganhou letra e foi sucesso nas vozes de Nara e Wilson Simonal,
há que se prestar atenção à bela Maracatu,
Nação do Amor.
LIVRO
Alice Boughton
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| James:
contos cheios de ironia |
A
Vida Privada e Outras Histórias, de Henry James (tradução
de Onédia C.P. de Queiroz; Nova Alexandria; 206 páginas;
23 reais) O americano Henry James (1843-1916) é um autor
bem traduzido no Brasil. Alguns de seus grandes romances, como Retrato
de uma Senhora, encontram-se nas livrarias do país, assim como
novelas célebres e coletâneas de histórias e ensaios.
Faltava uma amostra de seus contos sobre a vida artística, um de
seus temas prediletos. Esse livro reúne três textos que giram
em torno do assunto. A Vida Privada, com toques fantásticos,
fala do artista como criador e homem público. Em A Lição
do Mestre, o protagonista é um romancista que impede o casamento
de seu pupilo para tentar salvar-lhe o talento. Já O Desenho
do Tapete trata das relações entre críticos e
escritores e contém uma charada. Cheios de ironia, os contos estão
certamente entre os melhores e mais divertidos de James.
JUVENIL
As
Aves, de Aristófanes (tradução de Antonio
Medina Rodrigues; 34; 168 páginas; 17 reais) Nome central
da dramaturgia clássica, Aristófanes revolucionou os fundamentos
do teatro grego. Ele foi o primeiro a se utilizar das comédias
para criticar a sociedade da época antes dele, esse tipo
de crítica era exclusividade das tragédias. Representada
pela primeira vez em 411 a.C., As Aves conta a história
de Evélpido e Pistétero, cidadãos atenienses que
se cansam dos homens e resolvem viver com os pássaros. Traduzida
diretamente do grego, a peça foi adaptada para o público
adolescente. O texto contém gírias modernas e sua introdução
é bem didática.
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LITERATURA
BRASILEIRA
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Barco
a Seco
Rubens Figueiredo;
Companhia das Letras;
191 páginas;
24,50 reais
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Sexto
livro de ficção do carioca Rubens Figueiredo, Barco
a Seco não se entrega de mão beijada ao leitor.
Não porque seja "difícil". Ele é curto, tem
linguagem rica mas cristalina, um enredo simples e uma seqüência
narrativa que, se não é linear, também não
chega a confundir. Só uma leitura paciente, no entanto, é
capaz de retirar de cada metáfora, cada personagem e situação
o que o autor escondeu nesse belo romance.
O
cenário é uma cidade grande, mas sem nome. O protagonista,
Gaspar, um homem sem família, que escapou por pouco da indigência.
Ajudado por uma professora e depois por Angelina, dona de uma galeria,
ele ingressa na classe média e se torna especialista na obra
de Emilio Vega, artista de vida obscura devotado à pintura
de marinhas. Nos mendigos da cidade e nos velhos dos asilos, porém,
Gaspar sempre encontra um lembrete de que o abandono é um
destino possível. De sua aguda e dolorida consciência
da miséria nasce uma repulsa silenciosa tanto ao mundo
de privações de onde ele veio quanto ao mundo de fartura
voraz, irresponsável e egoísta dos ricos.
Gaspar
procura um espaço seguro e neutro. Daí seu fascínio
pelos quadros de Vega, especialmente por aqueles que representam
barcos jogados sobre a areia, "cuja perfeição reside
em não ter um lugar no mundo nem fora do mundo". Ele acredita
estar a salvo até que dois acontecimentos o põem em
perigo: uma crise ameaça o futuro da galeria onde trabalha
e um velho, que diz ter conhecido Vega, abala suas teorias sobre
o artista. O que se pode negociar? Até onde é legítimo
mentir e falsificar para não perder o que se conquistou numa
sociedade de oportunidades desiguais? Nessas perguntas se encontra
o tema do romance de Figueiredo. O que o autor escondeu em seu texto,
portanto, é algo notável: um romance de reflexão
política e social, mas que passa longe de todos os truques
surrados desse tipo de literatura e, por isso mesmo, não
pode ser rotulado.
Carlos
Graieb
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