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A
ameaça verde
O
ótimo desenho Shrek consegue
o
que parecia impossível:
desafiar
a
primazia da Disney
Isabela Boscov
Walt Disney Pictures e 2001 Dreamworks
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| O
ogro Shrek e cena do novo animado da Disney, Atlantis (no detalhe):
guerra |
Para
os executivos da Disney, ele é uma criatura de pesadelo. E não
só por causa de sua pele verde, de sua pança exagerada ou
de seus hábitos repugnantes como o de comer rato tostado
no espeto ou o de fazer velas com a cera guardada no ouvido. Para o estúdio
do Mickey, o ogro Shrek é aterrorizante justamente por ser irresistível.
Há quase um mês o estupendo desenho animado que leva seu
nome se mantém no topo da bilheteria americana, na qual já
acumulou extraordinários 182 milhões de dólares e
colheu elogios rasgados da crítica. Desde O Rei Leão
ou, no máximo, desde os dois Toy Story produzidos em parceria
com a empresa Pixar, a Disney não desfruta tal unanimidade. O duro
é que todos esses louros são recebidos por um concorrente
palavra que nem sequer constava do vocabulário da empresa
quando o assunto era animação. Shrek (Estados
Unidos, 2001), que estréia nesta sexta-feira em circuito nacional,
é uma produção da DreamWorks, o estúdio fundado
por Steven Spielberg, Jeffrey Katzenberg e David Geffen. Sua vitória
é ainda mais dolorosa porque Shrek satiriza, da primeira
à última cena, as produções da Disney. E o
faz com conhecimento de causa. Katzenberg foi alto executivo do estúdio
e até sair de lá às turras supervisionou
a realização de nada menos que A Pequena Sereia, A Bela
e a Fera, Aladdin e O Rei Leão.
Não que Shrek lembre esses filmes. Para começar,
não há nenhum príncipe encantado à vista.
Não bastasse seu bafo de onça e sua silhueta rotunda, o
ogro Shrek (que na versão nacional é dublado pelo humorista
Bussunda) exibe uma singular falta de graças sociais. Mora sozinho
num pântano, não sabe conversar e não tem o menor
interesse em fazer amigos. Só aceita a ajuda do Burro, um quadrúpede
expansivo e tagarela, por força das circunstâncias. O despótico
Lorde Farquaad expulsou da vizinhança todas as figuras de contos
de fadas. Assim, Branca de Neve, os sete anões, os três porquinhos,
Cinderela e o Lobo-Mau (entre outros personagens que já freqüentaram
desenhos da Disney) invadem o pântano de Shrek em busca de asilo
político. Para livrar-se deles, o ogro faz um trato com Farquaad.
Ele libertará a linda princesa Fiona de sua torre, para que o nobre
possa casar-se com ela. Em troca, o malvado cuidará de devolver
a paz ao pântano de Shrek. O problema é que o ogro é
feio, mas tem um coração que não é exatamente
imune aos encantos de Fiona.
A exemplo de outros desenhos feitos em computação gráfica,
como Toy Story e Dinossauro, Shrek é um assombro
do ponto de vista técnico. Seus protagonistas têm até
900 "músculos" capazes de responder aos comandos dos desenhistas.
Só a princesa Fiona exigiu o trabalho de 25 dos 275 animadores
envolvidos no projeto. Eles se debruçaram sobre detalhes tão
mínimos quanto os trejeitos das suas pálpebras ou a relação
entre seu peso, por assim dizer, e seus movimentos corporais seu
andar é verossímil, sem aqueles saltitos das heroínas
de desenho. Mas é sintomático que esses avanços tecnológicos
não tenham merecido mais do que comentários passageiros
nas resenhas do filme. O vanguardismo de Shrek reside na irreverência
de seu roteiro.
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| O
expansivo Burro: caso raro de ajudante mais inteligente que o herói
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É
preciso topete para fazer troça de personagens que são adorados
há gerações por exemplo, colocar Branca de
Neve e Cinderela para trocar tapas. Também é novidade que
um herói seja celebrado por sua feiúra e conte com um ajudante
de intelecto muito superior ao seu ainda que ele se chame Burro.
Tampouco Fiona é uma princesa como as outras. É desbocada,
disputa concursos de arrotos e, numa cena que a platéia costuma
aplaudir, derrota o bando de Robin Hood com golpes de kung fu tirados
do filme Matrix. Essas farpas disparadas contra a Disney rendem
boas risadas. Numa paródia a Cinderela, Fiona faz um dueto com
um passarinho gorjeante e o leva à morte com seus agudos
ensurdecedores. Noutra seqüência, Shrek e o Burro descobrem
que o castelo de Farquaad é um parque temático que anda
às moscas, numa referência bem clara às dificuldades
enfrentadas ultimamente por esse setor da corporação Disney.
O lorde Farquaad tem semblante de príncipe encantado, exceto por
alguns detalhes: vive de barba por fazer, é covarde, estúpido,
cafona e nanico (aí o caso é quase de autoparódia,
uma vez que Jeffrey Katzenberg é conhecido por sua pouca estatura).
"Não há nada no filme que pretenda ser mesquinho ou desabonador
em relação à tradição da Disney", jura
Katzenberg. Acredite nessa afirmação quem quiser. Mas não
custa esclarecer que o sócio da DreamWorks ganhou uma quantia vultosa
no processo que moveu contra seu antigo patrão.
Shrek
não é a primeira investida de um estúdio contra a
hegemonia da Disney no desenho animado. A Fox, por exemplo, tentou abalroar
o campeão com Anastasia e Titan. Esse último
foi um fracasso tão grande que culminou no fechamento da divisão
de animação do estúdio. A Warner também desanimou
depois que O Gigante de Ferro, muito elogiado pela crítica,
recolheu uns meros caraminguás na bilheteria. Só a DreamWorks
se mantém firme no propósito. Começou com o enfadonho
O Príncipe do Egito, ousou com Formiguinhaz (considerado
mais divertido para os adultos que para as crianças) e se saiu
muito bem com A Fuga das Galinhas feito em parceria com
a produtora inglesa Aardman. Shrek, contudo, é o primeiro
caso em que a Disney reconhece haver motivo para preocupação.
"Ele é mesmo formidável", disse Thomas Schumacher, chefe
da divisão de animação da Disney, à revista
Newsweek. Logo esse páreo será decidido na ponta
do lápis, com a estréia em circuito amplo nos Estados Unidos
(e também no Brasil) de Atlantis, o novo desenho da Disney.
Para alguns analistas, é improvável que ele bata a bilheteria
de Shrek. Humilhação pior só se, em 2002,
quando for entregue o primeiro Oscar da história na categoria longa-metragem
de animação, o trio da DreamWorks receber a estatueta no
lugar do estúdio que inventou esse gênero de filme.
Fotos 2001 Dreamworks
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Fotos 2001 Dreamworks
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| O
desagradável lorde Farquaad e a princesa Fiona, que luta como em
Matrix: sinal dos tempos |
No
campo das finanças, o monstrinho verde da DreamWorks provoca uma
outra dor de cabeça na Disney. Todo desenho animado, hoje, é
concebido de forma a encher os cofres de seus produtores durante anos
a fio. Pode servir de tema para bonecos e outras bugigangas, rende vídeos
comprados às centenas de milhares pela criançada e às
vezes é metamorfoseado em atração de parque temático
ou até em espetáculo da Broadway como O Rei Leão,
que a revista Newsweek calcula ter proporcionado lucros (isso mesmo,
lucros líquidos) de cerca de 1 bilhão de dólares
desde seu lançamento, em 1994. Ou seja, cada título novo
pode significar uma concorrência que se estende por quase uma década.
Shrek
deflagrou um debate sobre os rumos da Disney. Apesar de seu monumental
know-how em desenhos animados de grande qualidade, ela está virando
refém de sua própria tradição para
conseguir fazer o inovador Toy Story, por exemplo, a Disney recorreu
à Pixar. A ordem agora é modernizar (e não só
no visual), a fim de acompanhar a esperteza da criançada. Não
é acaso que filmes que trazem uma visão menos romântica
do mundo, como A Fuga das Galinhas e o próprio Shrek,
façam tanto sucesso e venham tomando a vanguarda. Seus produtores
usufruem uma dupla vantagem: tiram proveito das fórmulas desenvolvidas
pelo campeão e se dão ao luxo de transgredi-las sempre que
julguem oportuno. Talvez fosse a hora de a Disney aprender com Jack Welch,
o lendário presidente da General Electric, que ao assumir seu posto
decretou que a empresa nunca mais fabricaria um daqueles seus famosos
ferros de passar roupa. Se não identificar rapidamente aquilo que
já está superado, o estúdio do Mickey corre o risco
de ficar comendo poeira.

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