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A vida
sem patrão
A
maioria das pessoas no Brasil já trabalha
sem carteira assinada e isso não é sinal de
empobrecimento. Muita gente está tentando
ganhar a vida por conta própria
Lia
Abbud
Claudio Rossi

A
REALIZAÇÃO DE UM SONHO
O casal Mathias e Eliana trocou dez anos de carreira na Rhodia pela
construção de uma pousada no interior de Minas Gerais.
O negócio deu certo e eles conseguiram manter um padrão
de vida muito semelhante ao da época em que trabalhavam como
empregados |
O casal Mathias e Eliana trocou dez anos de carreira na Rhodia pela
construção de uma pousada no interior de Minas Gerais.
O negócio deu certo e eles conseguiram manter um padrão
de vida muito semelhante ao da época em que trabalhavam como
empregados

Veja também |
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A
lista de sonhos da classe média sofreu uma alteração
significativa. Uma das metas favoritas dessa fatia da sociedade sempre
foi conseguir um bom emprego numa firma renomada ou numa estatal. Hoje
em dia, empregar-se com carteira assinada ainda fascina as pessoas, mas
não com igual intensidade. Muita gente descobriu o caminho paralelo
de trabalhar por conta própria, vivendo sem patrão. Alguns
aprendem isso porque sentiram a oportunidade no ar. Outros só perceberam
a possibilidade ao ser despedidos num mercado de trabalho com tendência
a encolher. Fato é que, de acordo com os estudos mais recentes
do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), quase
metade da população urbana do país já trabalha
sem assinar carteira ou receber ordenado. Segundo especialistas, pela
primeira vez, há mais gente ganhando a vida sem carteira de trabalho
do que com ela. "É uma das maiores mudanças já ocorridas
na estrutura e na dinâmica da economia brasileira", afirma o ex-ministro
da Fazenda Mailson da Nóbrega, sócio da consultoria econômica
Tendências.
Queiroga/Lumiar

JORNADA
DUPLA
Na época em que sua franquia de perfumes não
lhe dava retorno, a pernambucana Roberta Araújo de Albuquerque
trabalhava como caixa de um banco. A dupla jornada acabou quando o
negócio engrenou |
Em 1992, registrava-se um empate técnico entre o time dos que trabalhavam
empregados, com carteira e tudo, e o dos que atuavam por conta própria.
Cada um deles contava com cerca de 18 milhões de pessoas. A massa
de empregados permaneceu praticamente inalterada até hoje. Mas
o exército dos "sem-carteira" cresceu muito e ultrapassou a casa
de 23 milhões de pessoas. Como a carteira é uma conquista
da era Vargas que indiscutivelmente garantiu direitos básicos ao
empregado, trabalhar sem ela era o mesmo que estar subempregado. Afinal,
quem vivia sem registro? Entre os milhões nessa situação,
costuma-se citar os camelôs, os vendedores de bugigangas em semáforos,
as domésticas. Também entram na lista aqueles que fazem
bico enquanto aguardam uma oportunidade de emprego. São sempre
lembrados ainda os que, mesmo trabalhando numa firma qualquer, ficam sem
registro por ganância do patrão, que não quer arcar
com custos trabalhistas.
Essa
fatia mais humilde da sociedade continua na mesma situação
de penúria e gostaria muito de arranjar um bom e seguro emprego
regular. A grande novidade no campo do trabalho sem carteira é
o ingresso nesse clube de uma fatia expressiva formada por uma mão-de-obra
qualificada. São administradores, publicitários, bancários
e engenheiros, entre outros profissionais que pagam os impostos em dia
(pelo menos a maioria deles, segundo a Receita Federal) e não querem
ouvir falar em patrão. Essa gente se divide em três blocos
centrais: há os terceirizados, que permanecem vinculados à
empresa onde trabalhavam antes, só que na condição
de prestadores de serviço; há os consultores, que atuam
em diversas companhias; e há os empresários, que montaram
um negócio qualquer. Comércio e prestação
de serviço são as áreas mais procuradas, com cerca
de 35% da preferência. Estima-se que essa fatia mais qualificada
entre os 23 milhões de sem-carteira concentre nada menos que 12
milhões de pessoas.
Kiko Ferrite

ENGENHEIROS
"INFORMAIS"
O engenheiro Marco e a arquiteta Miriam Addor não trabalham
mais com carteira assinada desde que montaram um escritório,
em 1995 |
Claudio Rossi

PEDREIRO REGISTRADO
A exemplo de outros colegas, o pedreiro Brito conseguiu ser registrado
por uma construtora e receber alguns benefícios |
Historicamente, a remuneração dos sem-carteira situava-se
num patamar abaixo do auferido pela fatia empregada da sociedade. No correr
das décadas de 80 e 90, esse patamar foi subindo de forma expressiva
e deu um salto nos últimos anos. Hoje, um empregado ganha, em média,
560 reais por mês. Já a renda dos "sem-carteira" se aproxima
de 800 reais. Enquanto os empregados tiveram um incremento de 17% nos
vencimentos, os sem-carteira conseguiram melhorar em 40% seus ganhos.
"O Brasil se tornou uma nação de empreendedores, e essa
mudança vem se intensificando de forma silenciosa", afirma o cientista
político Sérgio Abranches, colunista de VEJA.
Nélio Rodrigues/Ag. 1° Plano

TENTATIVA
FRUSTRADA
Com o dinheiro do Fundo de Garantia, a
professora mineira Mirna Chipiakoff montou um café
num
bairro elegante de
Belo Horizonte. Por falta de movimento, o
negócio durou apenas
nove meses |
Sinais desse Brasil empreendedor podem ser conferidos em toda parte. Um
dado objetivo é uma consulta ao Departamento Nacional de Registro
do Comércio. De 1985 a 1989, cinco últimos anos da década
de 80, foram abertas, em média, 420 000 empresas por ano. Entre
1995 e 1999, essa média saltou para 496 000, um aumento de 18%.
São mais de 1 300 negócios surgindo diariamente quase
um por minuto. Há estudos mostrando que a maior parte dos novos
empresários era composta de funcionários de uma empresa
privada. Em São Paulo, esse número chegou a 59%. Outra indicação
do fenômeno empreendedor é um trabalho recente elaborado
pelo Babson College e pela London Business School. Os especialistas criaram
um ranking com os povos mais empreendedores do planeta. Foram avaliados
dados de 21 países. O Brasil ficou em primeiro lugar na lista.
Um em cada oito brasileiros adultos monta um negócio próprio.
Nos Estados Unidos, segundo colocado, a proporção é
de um para dez. Um dos motivos que contribuem para o alto índice
de empreendedores no Brasil é a legislação trabalhista
rígida, que impede contratações flexíveis.
Isso joga muitos candidatos a emprego na faixa dos que precisam se virar
sozinhos. Nos Estados Unidos ou na Austrália, um dono de restaurante
pode contratar garçons que trabalham apenas nos fins de semana
para engrossar o plantel fixo da casa. Uma mulher que precise cuidar de
uma pessoa inválida e dos quatro filhos ao mesmo tempo pode ser
contratada como secretária de uma firma para trabalhar apenas duas
horas por dia, dia sim, dia não. Não importa a combinação,
tudo é possível. No Brasil, não. O único modelo
aceito é o das oito horas diárias, com um mês de férias,
13° salário, indenização por demissão
e todo o resto. Em todo país com legislação trabalhista
rígida há mais desemprego.
No Brasil,
algumas pessoas abrem uma empresa para melhorar a qualidade de vida. Um
modelo imaginado por muitos é o casal Mathias de Abreu Lima Filho,
48 anos, e Eliana Chiocheti, 39. Ambos tinham bons cargos na Rhodia, em
São Paulo. Ele era gerente do departamento de pesquisa, ela coordenadora
de recursos humanos de uma das unidades da empresa. Depois de dez anos
de carreira, os dois se desligaram da empresa e, no ano passado, inauguraram
uma charmosa pousada em Monte Verde, no interior de Minas Gerais. Com
o rendimento da pousada, sustentam quatro filhos, três deles estudando
em escolas particulares. Têm casa própria, pagam plano de
saúde e levam uma vida de bom padrão. "Nosso rendimento
é ainda um pouco menor comparado ao da época em que éramos
empregados da Rhodia", afirma Lima Filho. "A diferença acaba sendo
compensada pelo prazer de tocar um projeto pessoal", completa ele.
Raul Junior
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Fotos Rogério Voltan
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NEGÓCIOS
EM
CASCATA
Segundo um estudo internacional,
os brasileiros estão em primeiro lugar no ranking dos povos
mais empreendedores. É uma vocação tão
forte que o mesmo negócio pode gerar uma série de "filhotes".
No mercado da moda, isso ocorre com freqüência. Depois
de trabalhar na Forum, do estilista Tufi Duek (1), o assessor Marcelo
Sommer (2) montou a própria grife em 1995. Emilene Galende
(3), ex-funcionária dessa nova empresa, seguiu o mesmo caminho
e hoje também possui uma marca própria. "Já participei
até de desfiles importantes", conta ela, orgulhosa |
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