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Precisa-se de reprodutores

Atenção, homens de 18 a 40 anos:
os bancos de sêmen brasileiros estão
à procura de doadores

Karina Pastore


Fotos Claudio Rossi
Fotos Claudio Rossi
Da sala com vídeos e revistas eróticas para o congelador: coleta e estoque de sêmen

Quando a sala D703 está ocupada, o silêncio tem de ser absoluto naquele corredor do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Se desavisados fazem barulho, as enfermeiras disparam um "psiu" e, num sussurro, explicam: "Ele precisa de concentração". Ele, no caso, é um doador de sêmen. Sozinho, munido de revistas eróticas e vídeos do tipo Fanáticas por Sexo ou Garotas em Transe, o samaritano encontra-se em processo artesanal de coleta de esperma. Melhor mesmo não atrapalhar: sêmen é hoje mercadoria em falta no Brasil. No Hospital Albert Einstein, fornecedor de esperma de sessenta das cerca de 100 clínicas de medicina reprodutiva espalhadas pelo país, seis homens se apresentam a cada mês como doadores. Para suprir a demanda, seriam necessários trinta, no mínimo. No Criolab, o segundo maior banco brasileiro, o número de candidatos deveria ser duas vezes maior. Em busca de doadores, com o apoio da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana, acaba de ser lançada a campanha "Doe sêmen e ajude a completar uma família". Uma peça publicitária, a ser veiculada em revistas masculinas, mostra um bebê segurando a foto de uma peladona e pede "uma mãozinha".



P.C.M., 33 anos, doador: "Não sou bonito, mas minha índole é boa"

Doar esperma, no entanto, não é tão simples quanto doar sangue. Ainda soa estranho à maioria dos homens distribuir seus espermatozóides por aí, como um zangão que não conhecerá a sua prole. Há os que se dispõem a fazê-lo porque testemunharam de perto o drama de casais que não conseguem ter filhos. Outros são movidos por uma espécie de narcisismo atávico – o do reprodutor ideal que garantirá a perfeita perpetuação da espécie. "Minha semente é boa. Por que não ajudar a construir um mundo melhor?", justifica o doador M.J.T., um empresário de 32 anos, casado há dez e pai de um filho. Difícil também não ver uma ponta de egolatria na explicação do engenheiro P.C.M., de 33 anos, separado e pai de um menino que raramente vê. Ele adentrou uma sala de coleta de esperma pela primeira vez há seis meses. Foi movido pela leitura de um cartaz que conclamava para a doação – o slogan era "Complete a felicidade de um casal". "Não sou bonito, mas tenho boa índole. Sou trabalhador e quero vencer na vida", afirma P.C.M.

O processo de doação requer paciência. "O voluntário tem de comparecer no mínimo três vezes", informa a médica Vera Fehér, coordenadora do banco de sêmen do Hospital Albert Einstein. Na primeira, ele é submetido a uma batelada de perguntas sobre sua vida sexual, seu histórico médico e o dos pais e avós. Também faz exames de tipo sanguíneo, Aids, sífilis, doença de Chagas e outras vinte doenças. Se aprovado, volta para fazer uma coleta – previamente avisado de que nos dois dias anteriores à data marcada terá de se abster de sexo. "Como a coisa só rola com a minha mulher nos fins de semana, eu sempre dôo às quartas-feiras", exemplifica o empresário M.J.T. A visita inaugural à sala da verdade é sempre um constrangimento. Alguns saem de lá envergonhados, por não conseguir realizar a tarefa. Outros ruborizam-se por causa da pouca quantidade conseguida. O recipiente é do tamanho de um copo. Tem de ser grande para que o primeiro jato não seja desperdiçado. Afinal de contas, é nele que estão 70% dos espermatozóides encontrados nos 2,5 mililitros de sêmen ejaculados por um homem saudável. "É muito estranho o fato de todo mundo saber o que você está fazendo trancado naquela salinha. Na primeira vez, quase pus tudo a perder porque ouvi um barulho do lado de fora. Achei que estavam me espionando", conta o engenheiro P.C.M.

Um bom doador apresenta mais de 20 milhões de espermatozóides por mililitro de sêmen. Deles, pelo menos a metade tem de se locomover em linha reta (há os que chacoalham sem sair do lugar e os que nem se mexem) e 30% devem apresentar formas normais – cabeça oval, cauda proporcional e esticada e tronco inserido bem no meio da cabeça. Os espermatozóides passam ainda pelo teste do congelamento. Armazenados em botijões de nitrogênio líquido a 190 graus Celsius negativos, eles são descongelados 24 horas depois. De volta à temperatura ambiente, 50% têm de estar vivos. Se tudo estiver bem, o voluntário retorna depois de seis meses, a fim de repetir os exames laboratoriais. Resultado negativo para todos os testes, o sêmen é liberado para uso. "Nesse processo, 85% dos candidatos são excluídos", contabiliza o urologista Jorge Hallak, diretor da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana.

Das 6.000 crianças brasileiras geradas em laboratório no ano passado, estima-se que 100 foram por meio de sêmen de doador. Nas clínicas de fertilização, aos futuros papai e mamãe é oferecido um "menu de doadores", com as características físicas, profissão e hobbies dos voluntários. Exemplos: há o comerciante muçulmano, de origem libanesa e fã de automobilismo, ou o engenheiro poliglota, de família judia vinda da Romênia, praticante de jogging e natação. É só escolher e marcar o dia da fertilização. O fenótipo mais procurado é o do branco, com olhos e cabelos castanhos e tipo sanguíneo O positivo. O mais raro de ser encontrado é o do oriental, com sangue tipo B. Com idade entre 18 e 40 anos, os doadores nacionais são obrigados a manter-se no anonimato e não ganham nada pelo sêmen. É o contrário do que ocorre nos Estados Unidos. Lá, é possível conferir as fotos dos rapazes altruístas nos sites dos principais bancos e os voluntários recebem até 140 dólares por doação. Entre os americanos, a oferta é tão grande que até enseja o contrabando de espermatozóides para o exterior. Quando não há doadores disponíveis, uma das maiores clínicas de reprodução assistida de São Paulo despacha uma paciente para os Estados Unidos. Com tudo pago, ela, além do sêmen para sua própria fertilização, traz amostras de esperma para outros quatro ou cinco casais. Se for parada na alfândega, a recomendação é que diga que se trata do "sêmen do meu marido morto". Simples assim.

   
 
   
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