
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
Crie
seu grupo

|
|
Mbeki
passeia,
o
país afunda
Na
Inglaterra, ele fez de
tudo,
menos falar dos
problemas
da África
do Sul
AFP
 |
AP
 |
| Com
a rainha (à esq.), nenhuma palavra sobre os 4,7 milhões de
sul-africanos com Aids |
Em
sua primeira visita oficial à Inglaterra, o presidente sul-africano
Thabo Mbeki realizou o sonho de qualquer plebeu. Passeou de carruagem
com a rainha, tomou chá com o primeiro-ministro Tony Blair e foi
homenageado por acadêmicos. Em alguns discursos, tentou vender um
panorama otimista da África do Sul. Mas o que todo mundo queria
ver uma postura mais firme de Mbeki no combate à Aids
simplesmente não aconteceu. O presidente da África do Sul,
que absurdamente ainda não acredita que o HIV seja a causa da Aids,
perdeu outra oportunidade de endireitar sua postura. Depois de sofrer
críticas de todos os lados por ignorar o óbvio, ele fechou
a cara e disse que não falava mais no assunto. O estrago já
estava feito. O sucessor de Nelson Mandela é responsabilizado por
médicos, cientistas e ativistas por perpetuar a agonia dos doentes
de Aids na África do Sul. São 4,7 milhões de infectados,
um quinto da população adulta, e 1.600 novos casos diagnosticados
por dia. A visão esdrúxula do presidente prejudica o trabalho
de conscientização sobre o uso de preservativos, afasta
as pessoas dos testes de HIV e ainda ajuda a disseminar a bobagem de que
o vírus não causa Aids.
A confusão é tanta que até funcionários ligados
ao governo já se encarregaram de espalhar as mesmas besteiras ditas
por Mbeki. Na semana passada, Sibongile Manana, secretária de Saúde
da província de Mpumalanga, proibiu que o coquetel anti-Aids fosse
distribuído a mulheres estupradas. Ela argumentou que as drogas
seriam um veneno, uma vez que o HIV não tinha relação
alguma com a doença. Inspirada nas convicções do
presidente, Sibongile afastou todos os voluntários que trabalhavam
com vítimas de estupro em hospitais públicos, acusando-os
de "tentar envenenar a população negra com as drogas anti-HIV".
Na Inglaterra, Mbeki tentou passar uma imagem positiva da África
do Sul, citando a estabilidade política e a relativa prosperidade
econômica, pelo menos quando comparada com os vizinhos africanos.
A realidade que o espera na volta para casa é mais sombria. Apesar
de ser a maior economia da África, a taxa de desemprego chega a
quase 40%, os investimentos externos caíram 52% e o crescimento
econômico não passou de 3% no ano passado. Se a economia
não vai bem das pernas, os indicadores sociais estão piores
ainda. Hoje, a África do Sul é um país nocauteado
por índices cada vez mais alarmantes de criminalidade. Em Johanesburgo
há quase o dobro de assassinatos per capita que em São Paulo
ou no Rio de Janeiro. O país continua sendo o campeão mundial
de estupros, com 1,7 milhão de casos registrados por ano, o que
equivale a uma mulher violentada a cada dezenove segundos. Duzentos policiais
são assassinados por ano, em média. Os 6 milhões
de turistas estrangeiros que visitam o país anualmente (1 milhão
a mais do que o Brasil recebe) tomam cada vez mais precauções
com medo da violência. Reverter esse quadro com investimentos externos
foi justamente a missão de Mbeki na Inglaterra. O presidente, contudo,
preferiu a paparicação da corte inglesa a abrir o jogo sobre
os terríveis problemas de seu país.
|
MAZELAS
SUL-AFRICANAS
Um
em cada cinco adultos da África do Sul está contaminado
com o vírus da Aids
Quatro em cada dez adultos estão desempregados
Um estupro a cada 19 segundos, a maior incidência do mundo
105 homicídios por grupo de 100 000 habitantes em Johanesburgo,
mais que em Bogotá, São Paulo ou Rio
|
|
|
 |