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Edição 1 705 - 20 de junho de 2001
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Mbeki passeia,
o país afunda

Na Inglaterra, ele fez de tudo,
menos falar
dos problemas
da
África do Sul

 
AFP
AP
Com a rainha (à esq.), nenhuma palavra sobre os 4,7 milhões de sul-africanos com Aids

Em sua primeira visita oficial à Inglaterra, o presidente sul-africano Thabo Mbeki realizou o sonho de qualquer plebeu. Passeou de carruagem com a rainha, tomou chá com o primeiro-ministro Tony Blair e foi homenageado por acadêmicos. Em alguns discursos, tentou vender um panorama otimista da África do Sul. Mas o que todo mundo queria ver – uma postura mais firme de Mbeki no combate à Aids – simplesmente não aconteceu. O presidente da África do Sul, que absurdamente ainda não acredita que o HIV seja a causa da Aids, perdeu outra oportunidade de endireitar sua postura. Depois de sofrer críticas de todos os lados por ignorar o óbvio, ele fechou a cara e disse que não falava mais no assunto. O estrago já estava feito. O sucessor de Nelson Mandela é responsabilizado por médicos, cientistas e ativistas por perpetuar a agonia dos doentes de Aids na África do Sul. São 4,7 milhões de infectados, um quinto da população adulta, e 1.600 novos casos diagnosticados por dia. A visão esdrúxula do presidente prejudica o trabalho de conscientização sobre o uso de preservativos, afasta as pessoas dos testes de HIV e ainda ajuda a disseminar a bobagem de que o vírus não causa Aids.

A confusão é tanta que até funcionários ligados ao governo já se encarregaram de espalhar as mesmas besteiras ditas por Mbeki. Na semana passada, Sibongile Manana, secretária de Saúde da província de Mpumalanga, proibiu que o coquetel anti-Aids fosse distribuído a mulheres estupradas. Ela argumentou que as drogas seriam um veneno, uma vez que o HIV não tinha relação alguma com a doença. Inspirada nas convicções do presidente, Sibongile afastou todos os voluntários que trabalhavam com vítimas de estupro em hospitais públicos, acusando-os de "tentar envenenar a população negra com as drogas anti-HIV". Na Inglaterra, Mbeki tentou passar uma imagem positiva da África do Sul, citando a estabilidade política e a relativa prosperidade econômica, pelo menos quando comparada com os vizinhos africanos. A realidade que o espera na volta para casa é mais sombria. Apesar de ser a maior economia da África, a taxa de desemprego chega a quase 40%, os investimentos externos caíram 52% e o crescimento econômico não passou de 3% no ano passado. Se a economia não vai bem das pernas, os indicadores sociais estão piores ainda. Hoje, a África do Sul é um país nocauteado por índices cada vez mais alarmantes de criminalidade. Em Johanesburgo há quase o dobro de assassinatos per capita que em São Paulo ou no Rio de Janeiro. O país continua sendo o campeão mundial de estupros, com 1,7 milhão de casos registrados por ano, o que equivale a uma mulher violentada a cada dezenove segundos. Duzentos policiais são assassinados por ano, em média. Os 6 milhões de turistas estrangeiros que visitam o país anualmente (1 milhão a mais do que o Brasil recebe) tomam cada vez mais precauções com medo da violência. Reverter esse quadro com investimentos externos foi justamente a missão de Mbeki na Inglaterra. O presidente, contudo, preferiu a paparicação da corte inglesa a abrir o jogo sobre os terríveis problemas de seu país.

 

MAZELAS SUL-AFRICANAS

Um em cada cinco adultos da África do Sul está contaminado com o vírus da Aids

Quatro em cada dez adultos estão desempregados

Um estupro a cada 19 segundos, a maior incidência do mundo

105 homicídios por grupo de 100 000 habitantes em Johanesburgo, mais que em Bogotá, São Paulo ou Rio

 

 
 
   
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