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Uma comissão
com gol de placa

Na CBF, até acordo com a AmBev
é uma caixinha de surpresas

Marcelo Carneiro


Roberto Price/Folha Imagem
Teixeira, o presidente: a maior parte da comissão paga pela AmBev foi para os amigos


A mais nova sensação do futebol brasileiro não faz lançamentos de 40 metros nem dribla três zagueiros de uma vez, mas é capaz de jogadas espetaculares. Trata-se da dupla Tiraboschi-Peixoto, dois jogadores anônimos, mas de uma eficiência incrível. Atenção: eles jogam fora dos gramados. No fim do mês passado, Renato Tiraboschi e Carlos Peixoto, os craques de que falamos, ganharam quase 8 milhões de dólares numa única jogada. A fortuna é o pagamento pela intermediação de um contrato entre a AmBev, gigante do setor de bebidas, e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF). A façanha de Tiraboschi e Peixoto é um gol de placa, mas causa estranheza quando se sabe que a dupla nunca havia atuado na área de marketing esportivo. O detalhe que explica a história está no único elo entre os dois e o futebol: esse elo se chama Ricardo Teixeira, o presidente da CBF. Teixeira é amigo da dupla. A apreensão de gente próxima ao negócio é de que haja muito mais do que amizade unindo o trio nesse contrato. Segundo suspeitas que rondam os gramados e os gabinetes, Tiraboschi e Peixoto seriam, na verdade, parceiros do cartola, que comanda a CBF desde 1989 e, nos últimos meses, tem enfrentado a artilharia pesada de duas CPIs, na Câmara e no Senado. Os parlamentares querem saber se Teixeira mistura seus negócios particulares com as finanças da entidade.

Na semana passada, quando o nome de Tiraboschi e o de Peixoto vieram a público como intermediários entre a AmBev e a CBF, os dois apressaram-se em dizer que as negociações começaram em março deste ano e chegaram a termo no fim de maio. Na verdade, os primeiros indícios de um namoro entre a cervejaria e a entidade surgiram em junho de 2000. Nessa época, os personagens principais eram os empresários cariocas Roberto Osório e Carlos Eduardo Jardim. Foi deles a idéia de oferecer à AmBev uma proposta de marketing em parceria com a CBF. Osório é amigo de um dos principais sócios da AmBev e Jardim, um estrategista de marketing, já foi vice-presidente da Kaiser. "Nós tivemos a idéia e fizemos a parte técnica", disse Osório a VEJA, na última quinta-feira. A dupla Tiraboschi-Peixoto, é claro, prefere chamar os louros para si. "Se durante a negociação o Osório abriu a boca seis vezes, foi muito. Eu participei de reuniões que duraram 35 horas", gaba-se Peixoto. O resultado do que seria essa maior carga de trabalho é uma substancial diferença de remuneração. Os amigos de Teixeira faturaram 85% da comissão de 9 milhões de dólares paga pela AmBev. Osório e Jardim ficaram com apenas 15%.

A elaboração do projeto durou sete meses. No início deste ano, Osório e Jardim falaram sobre a idéia com Peixoto. Só aí a turma do presidente da CBF ganhou assento nas negociações. A CBF não estava satisfeita com as bases do contrato com a Coca-Cola. No ano passado, ele havia rendido aos cofres da entidade apenas 2,5 milhões de dólares, sendo que 20% desse montante era repassado à empresa Traffic, intermediária do negócio. Coube a Osório um primeiro contato com a AmBev. Os executivos da companhia fizeram duas exigências: um telefonema de Ricardo Teixeira confirmando o interesse em um novo patrocínio e a garantia de que a CBF não usaria a proposta da AmBev como peça de barganha numa possível renegociação de contrato com a Coca-Cola. Teixeira atendeu. Foi a senha para que os negociadores começassem a falar em valores. Finalmente, depois de muita discussão, chegou-se à quantia de 10 milhões de dólares por ano.

Homem de confiança – Antes, porém, a negociação esteve por um fio, porque Ricardo Teixeira insistia em manter o contrato com a Coca-Cola, apenas renegociando os valores. Nesse momento, foi decisiva a entrada em campo de Renato Tiraboschi. Só então Teixeira decidiu romper com a Coca-Cola e cair nos braços da AmBev. A freqüência com que Teixeira e Tiraboschi, amigos há vinte anos, mantêm relações comerciais é um dado fundamental para entender a operação que resultou no contrato entre AmBev e CBF. O nome de Tiraboschi já havia circulado nos bastidores da CPI do Senado. O empresário é considerado um homem de confiança de Teixeira. Os deputados já sabem que Tiraboschi foi sócio do presidente da CBF em um restaurante e, em 1999, fez um empréstimo de 97.000 reais a Teixeira. A transação está declarada no imposto de renda do cartola. Na semana passada, VEJA descobriu que essas não foram as únicas operações comerciais entre os dois. Em junho de 1994, o presidente da CBF vendeu a Tiraboschi um apartamento na Barra da Tijuca. Seis anos depois, foi a vez de Tiraboschi negociar com Teixeira a venda de outro imóvel, também no Rio de Janeiro. O presidente da CBF rebate a idéia de que o acordo só foi em frente por causa da presença de seus amigos, e especialmente de Tiraboschi. "Quem quiser uma carta de autorização igual à que dei para a negociação com a AmBev receberá na hora", diz Teixeira, que na semana passada escapou de ser indiciado no relatório final da CPI da Câmara, por lavagem de dinheiro e evasão fiscal. Uma manobra comandada aos gritos pelos deputados Eurico Miranda (PPB-RJ) e José Lourenço (PMDB-BA) implodiu o relatório.

Pelos termos do contrato com a AmBev, a CBF receberá 180 milhões de dólares, ao longo de dezoito anos. Os 8 milhões que cabem a Tiraboschi e Peixoto fazem parte da comissão de 5% sobre o valor total da transação. A quantia será paga pela AmBev, também em dezoito parcelas anuais, de 500.000 dólares cada, à empresa MB Promoções, da qual Tiraboschi possui 99% das cotas. A MB, aliás, foi comprada pelo amigão de Teixeira somente em abril, um mês antes de o contrato com a AmBev ser assinado. É difícil entender por que a AmBev, uma potência empresarial com 17.000 funcionários, cinqüenta fábricas e um faturamento anual de 6 bilhões de dólares, firmou um contrato milionário de marketing esportivo com uma empresa que nunca organizou sequer um campeonato de peteca. Desafio semelhante é compreender o motivo que levaria a AmBev a pagar essa fortuna sem prever no contrato as tarefas que a empresa de Tiraboschi terá de realizar nos dezoito anos de vigência do acordo. É dinheiro demais, fácil demais, por tempo demais. São dúvidas como essa que fazem dos negócios envolvendo a CBF e Ricardo Teixeira uma caixinha de surpresas.

 

CONTRATO TEM ATÉ SAMBA

O contrato entre AmBev e CBF, um documento de 28 páginas, define até a participação de jogadores da seleção nas festas patrocinadas pela cervejaria no Carnaval. Veja, abaixo, alguns itens:

O contrato será automaticamente cancelado, sem multa ou indenização para ambas as partes, se a seleção não participar de duas Copas do Mundo consecutivas.

A AmBev tem direito à renda total de um amistoso da seleção, realizado no Brasil ou no exterior.

 

 
 
   
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