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Edição 1 705 - 20 de junho de 2001
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O ermitão milionário

Colecionador solitário e esquisito
deixa
aos primos 3 000 peças valiosas

Flávia Varella


Álbum de família
Paulo Jorge: solitário


O carioca Paulo Jorge Lopes morreu em fevereiro deste ano de um câncer na próstata. Tinha 76 anos. Os dez primos que ele indicara como herdeiros deram uma olhada no que havia para dividir no apartamento e decidiram entregar tudo a um profissional do ramo de leilões. Era sabido que Paulo Jorge era um homem esquisito. Vivia sozinho em seu apartamento de Copacabana, nunca trabalhara, mantinha-se com o que os pais lhe deixaram. Na rua, seria talvez confundido com um mendigo, barbudo e mal vestido. Em casa, era um homem que parecia viver em outro tempo e outro país, cercado de luxos e exuberância, com 3.000 peças de arte antiga atulhadas nos 300 metros quadrados do apartamento. "Ele sempre foi sozinho. Seu mundo era a arte. Lia, pesquisava, viajava muito, ia a balés e concertos. Falava cinco idiomas e aprendeu o alemão apenas para entender as óperas de Wagner e Strauss", conta o primo mais próximo, Fernando Polónia.

Recluso em seu apartamento, sem empregada nem geladeira, Paulo Jorge mantinha um ritual exótico. Cada refeição era feita com uma louça diferente. Café da manhã numa xícara com o retrato dourado de Napoleão, almoço num prato da Companhia das Índias do século XVIII e, à noite, vinho numa taça de opalina e cristal translúcido inglês. Os dez primos que receberam a herança não tinham idéia do que havia no apartamento, nem em quantidade nem em valor. Os primeiros a se espantar foram os oito coletores encarregados de inventariar e embalar o material. Havia pratos de porcelana empilhados no fundo de gavetas, quadro atrás do armário, pastora de porcelana no banheiro. Depois de dez dias de trabalho, terminaram o relatório: cerca de 3.000 peças, sendo 95 quadros, a maioria de pintura francesa do século XIX, 265 xícaras, quase 300 pratos, porcelanas da Companhia das Índias, de Sèvres e de Meissen, com exemplares do século XVIII e do XIX, e mais opalinas, cristais, figuras de marfim e bronze, seis vasos, três luminárias e duas fruteiras de Gallé, doze cômodas européias e outros móveis de época.

Fotos divulgação
Foto
Quadros de Romero de Torres (à esq.) e Boldini, que pode valer 1 milhão de dólares: lance inicial baixo para vender tudo

A coleção de Paulo Jorge Lopes ficou exposta no casarão da Leone Leilões de Artes, no Rio de Janeiro, durante três dias na semana passada, e será vendida em dez sessões até o próximo sábado. Foi visitada por 3.500 pessoas. Será, provavelmente, o maior leilão com objetos de uma única pessoa já realizado no Brasil. Apareceram compradores de outros Estados, da Argentina, da Espanha e de Portugal. "O mercado de arte está muito excitado", afirma Jones Bergamin, diretor da Bolsa de Arte do Rio de Janeiro. O que torna esse leilão o mais falado dos últimos tempos não é o valor exponencial das obras – não há nenhuma de milhões de dólares, por exemplo –, mas a quantidade e a variedade de peças, todas de qualidade, que Paulo Jorge juntou. Ainda assim, espera-se que o saldo final do leilão chegue aos 3 milhões de dólares. "Ele era um colecionador que conhecia muito bem pintura, porcelanas, móveis e vidros. Isso é muito raro", diz o antiquário Francisco Freire.

Paulo Jorge Lopes era de uma família de comerciantes portugueses. Seu avô e seu pai foram donos de uma das primeiras lojas de roupas femininas do centro carioca, A Moda. Filho único e solteiro, morou com os pais até a morte deles, há pouco mais de trinta anos. Ele herdou o apartamento de 300 metros quadrados em que viviam em Copacabana e outros imóveis. "Paulo Jorge não comprava com sentido de investimento, mas de beleza e gosto de usar", afirma o antiquário Manuel Guimarães, seu fornecedor e um dos poucos amigos. Em suas idas às lojas de antiguidade, estava sempre de bermuda amassada e com uma sacola na mão. Nela carregava as compras para preparar sua comida e o dinheiro para adquirir as antiguidades que o encantassem. Pagava sempre com dinheiro vivo. Ao abrir a boca, porém, qualquer suspeita de mendicância se dissipava. "Ele era culto e hermético na linguagem, além de completamente filosofal. Um ignorante não compreenderia nada", diz o antiquário Antônio Caetano.

Jarro de porcelana de Sèvres, par de xícaras francesas e fruteira da Companhia das Índias do século XVIII: uma louça a cada refeição

Na terça-feira passada, aconteceu a primeira das dez sessões do leilão. Depois das três primeiras, em que 410 lotes foram vendidos, o leiloeiro Antonio Leone alterou sua estimativa inicial do valor do espólio artístico que tinha em mãos. "Eu falava em 1,2 milhão de dólares. Mas, com o ritmo dos primeiros dias, acredito que tudo será arrematado por cerca de 3 milhões de dólares", afirma. Leone colocou no catálogo, propositadamente, lances mínimos de valor baixo. "Os herdeiros querem que tudo seja vendido", explica. O quadro A Pastora, do francês Charles-Amable Lenoir, por exemplo, tinha lance mínimo de 6.000 reais e foi vendido por 53.000 reais na primeira sessão. Um vaso de Gallé saiu por 6.800 reais e pratos e xícaras variaram de 200 a 10.000 reais.

O salto na avaliação de Leone aconteceu antes que as peças mais importantes fossem oferecidas. O expoente do leilão é uma pintura do italiano Giovanni Boldini, Moça com Véu. O preço inicial é 20.000 reais. "Esse quadro no mercado internacional vale mais de 1 milhão de dólares", afirma o especialista Jones Bergamin. A segunda pintura mais notável é uma de Julio Romero de Torres, que Bergamin avalia em cerca de 90.000 dólares. Esses dois quadros serão postos à venda nesta semana. Quando o leiloeiro bater o martelo (figurativamente, pois já não se usa mais esse instrumento nos leilões), na última sessão, no sábado que vem, a coleção, o prazer da vida do esquisito Paulo Jorge Lopes, terá sido pulverizada por centenas de casas e lojas no Brasil e no mundo.

 
 
   
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