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O Garoto e o bicho-papão
Com
o governador do Rio e o
excêntrico Enéas na disputa,
a sucessão começa a esquentar
Ronaldo França
O
governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, acelerou na corrida presidencial.
Na semana passada, liderou o que chamou de "Marcha contra o apagão
e pela CPI da Corrupção", organizada por partidos de esquerda,
no centro do Rio. Foi seu primeiro comício político com
pedigree. Até então, o governador evangélico que
fala como pastor disfarçava sua campanha como se só estivesse
fazendo pregação religiosa. A estratégia vinha dando
certo. O Ibope fechou, no final de maio, uma pesquisa ainda não
oficialmente divulgada que começa a tirá-lo da condição
de candidato regional. Com 9% da preferência do eleitorado, está
atrás apenas dos previsíveis Lula, Ciro Gomes e Itamar Franco
e, com isso, confirma sua presença na disputa. Aparece à
frente de José Serra, que patina nos 6%, apesar de ser um nome
nacional e manusear uma das canetas mais generosas da República,
a de ministro da Saúde. Outra revelação que surge
dos questionários do Ibope é que Serra, a despeito de toda
a sua movimentação de bastidores e do espaço que
ocupa no noticiário, está melancolicamente num empate técnico
com ninguém menos que ele, o barbudo e vociferante Enéas
Carneiro. O candidato do Prona tem 5% das intenções de voto.
Com Serra disputando posições com os retardatários,
Garotinho fica ainda mais solto para tentar a decolagem.
Em seus dois anos e meio como governador do Estado do Rio, Garotinho conseguiu
azeitar uma máquina eleitoral de potencial respeitável para
lutar pela Presidência. Para enfrentar o desafio, montou uma engrenagem
constituída por uma ampla rede de comunicação espalhada
pelo país. Ela é composta basicamente de emissoras de rádio
e TV evangélicas. Graças ao apoio do deputado federal evangélico
Francisco Silva, do PST do Rio de Janeiro, Garotinho, que começou
a vida como locutor de rádio, mantém um programa que vai
ao ar duas vezes por dia, em tom de boletim, sobre as realizações
de seu governo e temas nacionais. É retransmitido em dez cidades
de seis Estados, de segunda-feira a sábado. O programa A Paz
do Senhor Governador é gerado pela Rádio Melodia, do
Rio, de propriedade de Silva. Há dois anos, a Melodia também
propaga suas ondas em São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Piauí
e Distrito Federal. Garotinho ainda tem o apoio da Rede Boas Novas, de
um grupo evangélico, que retransmite sua voz por rádio para
o Amazonas e mais três Estados, além de veicular sua imagem
pela televisão, sempre que o noticiário lhe é favorável,
numa rede que soma mais de oitenta estações locais.
Renato Chaui
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| Enéas:
fora da mídia, mas lembrado pelo eleitor |
Com
isso, tem se fortalecido. A última pesquisa do instituto Vox Populi
lhe dá 8% das intenções de voto. Ela demonstra que
seus simpatizantes, apesar de ainda estarem muito concentrados no Sudeste
sobretudo no Rio de Janeiro , estão se espalhando
pelo país. Há um ano, segundo o mesmo Vox Populi, Garotinho
contava com apenas 4% e tinha seu eleitorado ainda mais concentrado. A
presença nacional de Garotinho é movida por um combustível
de alto desempenho: a fé dos evangélicos de que terão,
pela primeira vez, um candidato com chances reais de chegar à Presidência
da República. A Bíblia é sua grande aliada.
A Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo, abriu-lhe as
portas para o Fala, Governador, um programa semanal na TV Record,
que vai ao ar, por enquanto, somente no Rio de Janeiro. É o mesmo
nome do programa que ele tem, aos sábados, na Rádio Tupi,
com retransmissão para outras dezessete estações
do Estado. São duas horas no ar. O arsenal de mídia do candidato
é reforçado por um endereço na internet, o www.2002garotinho.com.br,
onde apresenta sua biografia. Também se dedica a um périplo
pelos programas populares de TV, aos quais credita boa parte de seu crescimento.
Ao carisma de político se juntam o talento de radialista e a mensagem
religiosa que encontra eco em milhões de eleitores. No início
deste mês, reuniu 700.000 pessoas num ato evangélico, em
São Paulo, intitulado "Marcha para Jesus". Foi uma demonstração
de força. Nesses encontros religiosos, o governador conta histórias
de sua conversão recentemente narradas no livro Virou
o Carro, Virou Minha Vida , cita passagens bíblicas,
parábolas religiosas e faz orações. O tom é
sempre dramático, com as ênfases e pausas típicas
dos pastores evangélicos. Aproveita a oportunidade para fazer críticas
aos candidatos que estão à sua frente na corrida eleitoral.
Garotinho sonha reunir os votos de metade dos 40 milhões de evangélicos
que, segundo o IBGE, existem no Brasil.
Na trama que começa a se desvendar agora no jogo sucessório,
o ministro José Serra tem, segundo o Ibope, desempenho ainda precário,
com seus 6% das intenções de voto. Se mídia fosse
solução, Serra seria imbatível. Com medidas de impacto
à frente do ministério e senso de oportunidade irretocável,
ele tem espaço garantido nos meios de comunicação.
Muito de seu desempenho ainda tímido se deve a dois fatores: a
recusa em assumir desde já sua candidatura e o racionamento de
popularidade do governo após a crise do apagão. Pesa também
a indefinição do PSDB sobre quem será o nome do partido
na corrida presidencial. Serra briga ainda em outra frente. Para que suas
chances cresçam, depende do apoio do PMDB, que no momento oscila
entre sua candidatura e uma própria, com Itamar Franco. Terá
também de seduzir o PFL, que prefere outros nomes tucanos, como
os governadores Geraldo Alckmin, de São Paulo, e Tasso Jereissati,
do Ceará. O ministro evita falar de sucessão. "Não
entro nesse assunto", afirma, para se trair em seguida. "Estou cuidando
é do Ministério da Saúde, mas há candidatos
que, apesar de terem funções executivas, ficam fazendo campanha",
afirma, numa clara alusão a Garotinho.
Nesse enredo, o cardiologista Enéas Ferreira Carneiro aparece como
o personagem exótico. Isolado nos recônditos de seu consultório
carioca, já tem 5% das intenções de voto pelo Ibope.
São 4% segundo o Vox Populi. Enéas é um espanto.
Com seu discurso de nacionalista raivoso, chegou a 4,5 milhões
de votos em 1994. Naquele ano, faltando quatro meses para a eleição,
ele detinha 3% das intenções de voto. Acabou com 7%, à
frente de Leonel Brizola e Orestes Quércia. Enéas é
o fantasma dos candidatos com poucos pontos no Ibope. Está sempre
nos calcanhares, às vezes à frente, de políticos
de tradição, como é o caso de Serra neste momento.
A presença de seu nome na cabeça do eleitor é determinada
pela insatisfação do brasileiro com os demais candidatos.
"A opção por Enéas é uma espécie de
voto nulo disfarçado", analisa o diretor do Ibope, Carlos Augusto
Montenegro.
Apesar do porcentual revelado pelo Ibope, Enéas praticamente não
tem atuação política entre uma e outra eleição.
Nesse tempo, dedica-se a aulas de eletrocardiografia em seu curso, que
é considerado um dos melhores do país pelos especialistas,
e ao expediente de seu consultório, no Rio de Janeiro. Até
o final deste ano, estará lançando mais um livro sobre cardiologia.
Mesmo assim, é certa sua presença entre os presidenciáveis.
"Qualquer brasileiro sabe que serei candidato. A menos que eu adoeça",
afirma. Se Enéas não vier a precisar da rede hospitalar,
estará de volta à televisão com aquele bordão
que 170 milhões de pessoas conhecem: "Meu nome é Enéas".
Visto de longe, é apenas um candidato exótico. De perto,
Enéas é um bicho-papão.
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