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Edição 1 705 - 20 de junho de 2001
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O Garoto e o bicho-papão

Com o governador do Rio e o
excêntrico Enéas na disputa,
a sucessão começa a esquentar

Ronaldo França

O governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, acelerou na corrida presidencial. Na semana passada, liderou o que chamou de "Marcha contra o apagão e pela CPI da Corrupção", organizada por partidos de esquerda, no centro do Rio. Foi seu primeiro comício político com pedigree. Até então, o governador evangélico que fala como pastor disfarçava sua campanha como se só estivesse fazendo pregação religiosa. A estratégia vinha dando certo. O Ibope fechou, no final de maio, uma pesquisa ainda não oficialmente divulgada que começa a tirá-lo da condição de candidato regional. Com 9% da preferência do eleitorado, está atrás apenas dos previsíveis Lula, Ciro Gomes e Itamar Franco e, com isso, confirma sua presença na disputa. Aparece à frente de José Serra, que patina nos 6%, apesar de ser um nome nacional e manusear uma das canetas mais generosas da República, a de ministro da Saúde. Outra revelação que surge dos questionários do Ibope é que Serra, a despeito de toda a sua movimentação de bastidores e do espaço que ocupa no noticiário, está melancolicamente num empate técnico com ninguém menos que ele, o barbudo e vociferante Enéas Carneiro. O candidato do Prona tem 5% das intenções de voto. Com Serra disputando posições com os retardatários, Garotinho fica ainda mais solto para tentar a decolagem.

Em seus dois anos e meio como governador do Estado do Rio, Garotinho conseguiu azeitar uma máquina eleitoral de potencial respeitável para lutar pela Presidência. Para enfrentar o desafio, montou uma engrenagem constituída por uma ampla rede de comunicação espalhada pelo país. Ela é composta basicamente de emissoras de rádio e TV evangélicas. Graças ao apoio do deputado federal evangélico Francisco Silva, do PST do Rio de Janeiro, Garotinho, que começou a vida como locutor de rádio, mantém um programa que vai ao ar duas vezes por dia, em tom de boletim, sobre as realizações de seu governo e temas nacionais. É retransmitido em dez cidades de seis Estados, de segunda-feira a sábado. O programa A Paz do Senhor Governador é gerado pela Rádio Melodia, do Rio, de propriedade de Silva. Há dois anos, a Melodia também propaga suas ondas em São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Piauí e Distrito Federal. Garotinho ainda tem o apoio da Rede Boas Novas, de um grupo evangélico, que retransmite sua voz por rádio para o Amazonas e mais três Estados, além de veicular sua imagem pela televisão, sempre que o noticiário lhe é favorável, numa rede que soma mais de oitenta estações locais.

 
Renato Chaui
Enéas: fora da mídia, mas lembrado pelo eleitor

Com isso, tem se fortalecido. A última pesquisa do instituto Vox Populi lhe dá 8% das intenções de voto. Ela demonstra que seus simpatizantes, apesar de ainda estarem muito concentrados no Sudeste – sobretudo no Rio de Janeiro –, estão se espalhando pelo país. Há um ano, segundo o mesmo Vox Populi, Garotinho contava com apenas 4% e tinha seu eleitorado ainda mais concentrado. A presença nacional de Garotinho é movida por um combustível de alto desempenho: a fé dos evangélicos de que terão, pela primeira vez, um candidato com chances reais de chegar à Presidência da República. A Bíblia é sua grande aliada. A Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo, abriu-lhe as portas para o Fala, Governador, um programa semanal na TV Record, que vai ao ar, por enquanto, somente no Rio de Janeiro. É o mesmo nome do programa que ele tem, aos sábados, na Rádio Tupi, com retransmissão para outras dezessete estações do Estado. São duas horas no ar. O arsenal de mídia do candidato é reforçado por um endereço na internet, o www.2002garotinho.com.br, onde apresenta sua biografia. Também se dedica a um périplo pelos programas populares de TV, aos quais credita boa parte de seu crescimento.

Ao carisma de político se juntam o talento de radialista e a mensagem religiosa que encontra eco em milhões de eleitores. No início deste mês, reuniu 700.000 pessoas num ato evangélico, em São Paulo, intitulado "Marcha para Jesus". Foi uma demonstração de força. Nesses encontros religiosos, o governador conta histórias de sua conversão – recentemente narradas no livro Virou o Carro, Virou Minha Vida –, cita passagens bíblicas, parábolas religiosas e faz orações. O tom é sempre dramático, com as ênfases e pausas típicas dos pastores evangélicos. Aproveita a oportunidade para fazer críticas aos candidatos que estão à sua frente na corrida eleitoral. Garotinho sonha reunir os votos de metade dos 40 milhões de evangélicos que, segundo o IBGE, existem no Brasil.

Na trama que começa a se desvendar agora no jogo sucessório, o ministro José Serra tem, segundo o Ibope, desempenho ainda precário, com seus 6% das intenções de voto. Se mídia fosse solução, Serra seria imbatível. Com medidas de impacto à frente do ministério e senso de oportunidade irretocável, ele tem espaço garantido nos meios de comunicação. Muito de seu desempenho ainda tímido se deve a dois fatores: a recusa em assumir desde já sua candidatura e o racionamento de popularidade do governo após a crise do apagão. Pesa também a indefinição do PSDB sobre quem será o nome do partido na corrida presidencial. Serra briga ainda em outra frente. Para que suas chances cresçam, depende do apoio do PMDB, que no momento oscila entre sua candidatura e uma própria, com Itamar Franco. Terá também de seduzir o PFL, que prefere outros nomes tucanos, como os governadores Geraldo Alckmin, de São Paulo, e Tasso Jereissati, do Ceará. O ministro evita falar de sucessão. "Não entro nesse assunto", afirma, para se trair em seguida. "Estou cuidando é do Ministério da Saúde, mas há candidatos que, apesar de terem funções executivas, ficam fazendo campanha", afirma, numa clara alusão a Garotinho.

Nesse enredo, o cardiologista Enéas Ferreira Carneiro aparece como o personagem exótico. Isolado nos recônditos de seu consultório carioca, já tem 5% das intenções de voto pelo Ibope. São 4% segundo o Vox Populi. Enéas é um espanto. Com seu discurso de nacionalista raivoso, chegou a 4,5 milhões de votos em 1994. Naquele ano, faltando quatro meses para a eleição, ele detinha 3% das intenções de voto. Acabou com 7%, à frente de Leonel Brizola e Orestes Quércia. Enéas é o fantasma dos candidatos com poucos pontos no Ibope. Está sempre nos calcanhares, às vezes à frente, de políticos de tradição, como é o caso de Serra neste momento. A presença de seu nome na cabeça do eleitor é determinada pela insatisfação do brasileiro com os demais candidatos. "A opção por Enéas é uma espécie de voto nulo disfarçado", analisa o diretor do Ibope, Carlos Augusto Montenegro.

Apesar do porcentual revelado pelo Ibope, Enéas praticamente não tem atuação política entre uma e outra eleição. Nesse tempo, dedica-se a aulas de eletrocardiografia em seu curso, que é considerado um dos melhores do país pelos especialistas, e ao expediente de seu consultório, no Rio de Janeiro. Até o final deste ano, estará lançando mais um livro sobre cardiologia. Mesmo assim, é certa sua presença entre os presidenciáveis. "Qualquer brasileiro sabe que serei candidato. A menos que eu adoeça", afirma. Se Enéas não vier a precisar da rede hospitalar, estará de volta à televisão com aquele bordão que 170 milhões de pessoas conhecem: "Meu nome é Enéas". Visto de longe, é apenas um candidato exótico. De perto, Enéas é um bicho-papão.

 
 

 

Fotos Antonio Milena/Domingues/Orlando Brito/Arthur Cavaliere/Alexandre Tokitaka/Ricardo Stuckert

 

   
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