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Edição 1 705 - 20 de junho de 2001
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A Bienal de Edemar

"A única coisa que conta nas
artes plásticas é o
dinheiro.
O resto é empulhação"

O Brasil entrou para o circuito internacional das artes plásticas. A largada foi dada na semana passada, com a Bienal de Veneza. Em setembro, o Museu Guggenheim, de Nova York, dedicará uma retrospectiva à arte brasileira. A mesma que, depois, irá para Bilbao, Londres e Paris.

O responsável por essa onda toda é Edemar Cid Ferreira. Eu já tinha ouvido muita boataria a seu respeito. Ele se transformou numa espécie de personagem mitológico. Todo mundo tem alguma história a contar sobre Edemar Cid Ferreira. Espero que nenhuma delas seja verdadeira. O fato é que, em pouquíssimo tempo, desde a Mostra do Descobrimento, ele tomou conta do ambiente artístico. Foi abocanhando tudo o que aparecia pela frente. Muito animado e afável, com seu terno de linho branco e os pés-de-galinha no rosto esticados por algum artista plástico, concedeu-me meia hora de seu tempo durante a inauguração do pavilhão brasileiro em Veneza.

Edemar Cid Ferreira é banqueiro. Não teve dificuldade para entender que a única coisa que conta nas artes plásticas é o dinheiro. O resto é empulhação. Contou-me que gastou 1 milhão de dólares para organizar a expedição brasileira a Veneza. Acho que gastou mais. Além de montar o pavilhão e outras três exposições espalhadas pela cidade, ele trouxe um séquito de jornalistas e personalidades do mundo das artes para testemunhar o evento. Imagine o que essa gente custou só de transporte e hospedagem. A seguir, Edemar Cid Ferreira me explicou como conseguiu conquistar os diretores do Museu Guggenheim: enfiou-os num jatinho particular e os levou para o Brasil, cercando-os das maiores mordomias. Ou seja, se o Guggenheim se interessou pelo Brasil, não foi porque seus diretores se renderam aos encantos da arte brasileira.

O único ponto maçante da conversa foi quando Edemar Cid Ferreira tentou me convencer de que sua iniciativa ajudará a reduzir os juros bancários aplicados ao Brasil. Repliquei que o maior culpado por esses juros foi a moratória decretada pelo governo de seu grande amigo José Sarney, também presente à Bienal de Veneza. Surpreendentemente, Edemar Cid Ferreira concordou comigo. Por fim, ele falou de sua boa relação com o curador das exposições brasileiras em Veneza, o crítico italiano Germano Celant. É compreensível. Nos anos 60, Celant foi o teórico da chamada "arte pobre", mas ele sabe muito bem que, de pobre, a arte não tem nada. Sua especialidade é o tráfico de influências. Leva a arte ao poder econômico e vice-versa. Sua última grande tacada foi juntar arte e moda, articulando a exposição de Giorgio Armani no Guggenheim de Nova York. Os puristas podem achar que um costureiro não tem nada a ver com arte, mas a verdade é que uma manifestação como a Bienal de Veneza é idêntica a um desfile de moda. Os artistas, como os costureiros na passarela, tentam chamar atenção para seus nomes com obras extravagantes ou escandalosas, mas o objetivo final é vender tailleurzinhos para pendurar na parede. É a arte prêt-à-porter.

O que menos importa nesse negócio são os artistas. Nem vale a pena tentar descrever e analisar as obras que trouxeram a Veneza. Nem vale a pena citá-los por nome. Não por falta de respeito, mas porque eles são supérfluos. Ou melhor: são intercambiáveis. Antes deles vêm os jatinhos privados, as festinhas, os Mercedes, as campanhas políticas e os jornalistas.

 
 
   
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