
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
Crie
seu grupo

|
|
A
Bienal de Edemar
"A
única coisa que conta nas
artes plásticas é o dinheiro.
O resto é empulhação"
O
Brasil entrou para o circuito internacional das artes plásticas.
A largada foi dada na semana passada, com a Bienal de Veneza. Em setembro,
o Museu Guggenheim, de Nova York, dedicará uma retrospectiva à
arte brasileira. A mesma que, depois, irá para Bilbao, Londres
e Paris.
O responsável por essa onda toda é Edemar Cid Ferreira.
Eu já tinha ouvido muita boataria a seu respeito. Ele se transformou
numa espécie de personagem mitológico. Todo mundo tem alguma
história a contar sobre Edemar Cid Ferreira. Espero que nenhuma
delas seja verdadeira. O fato é que, em pouquíssimo tempo,
desde a Mostra do Descobrimento, ele tomou conta do ambiente artístico.
Foi abocanhando tudo o que aparecia pela frente. Muito animado e afável,
com seu terno de linho branco e os pés-de-galinha no rosto esticados
por algum artista plástico, concedeu-me meia hora de seu tempo
durante a inauguração do pavilhão brasileiro em Veneza.
Edemar Cid Ferreira é banqueiro. Não teve dificuldade para
entender que a única coisa que conta nas artes plásticas
é o dinheiro. O resto é empulhação. Contou-me
que gastou 1 milhão de dólares para organizar a expedição
brasileira a Veneza. Acho que gastou mais. Além de montar o pavilhão
e outras três exposições espalhadas pela cidade, ele
trouxe um séquito de jornalistas e personalidades do mundo das
artes para testemunhar o evento. Imagine o que essa gente custou só
de transporte e hospedagem. A seguir, Edemar Cid Ferreira me explicou
como conseguiu conquistar os diretores do Museu Guggenheim: enfiou-os
num jatinho particular e os levou para o Brasil, cercando-os das maiores
mordomias. Ou seja, se o Guggenheim se interessou pelo Brasil, não
foi porque seus diretores se renderam aos encantos da arte brasileira.
O único ponto maçante da conversa foi quando Edemar Cid
Ferreira tentou me convencer de que sua iniciativa ajudará a reduzir
os juros bancários aplicados ao Brasil. Repliquei que o maior culpado
por esses juros foi a moratória decretada pelo governo de seu grande
amigo José Sarney, também presente à Bienal de Veneza.
Surpreendentemente, Edemar Cid Ferreira concordou comigo. Por fim, ele
falou de sua boa relação com o curador das exposições
brasileiras em Veneza, o crítico italiano Germano Celant. É
compreensível. Nos anos 60, Celant foi o teórico da chamada
"arte pobre", mas ele sabe muito bem que, de pobre, a arte não
tem nada. Sua especialidade é o tráfico de influências.
Leva a arte ao poder econômico e vice-versa. Sua última grande
tacada foi juntar arte e moda, articulando a exposição de
Giorgio Armani no Guggenheim de Nova York. Os puristas podem achar que
um costureiro não tem nada a ver com arte, mas a verdade é
que uma manifestação como a Bienal de Veneza é idêntica
a um desfile de moda. Os artistas, como os costureiros na passarela, tentam
chamar atenção para seus nomes com obras extravagantes ou
escandalosas, mas o objetivo final é vender tailleurzinhos para
pendurar na parede. É a arte prêt-à-porter.
O que menos importa nesse negócio são os artistas. Nem vale
a pena tentar descrever e analisar as obras que trouxeram a Veneza. Nem
vale a pena citá-los por nome. Não por falta de respeito,
mas porque eles são supérfluos. Ou melhor: são intercambiáveis.
Antes deles vêm os jatinhos privados, as festinhas, os Mercedes,
as campanhas políticas e os jornalistas.
|
|
 |