A
vanguarda sou eu
Um dos pais da música moderna,
o maestro e
compositor alemão
ataca
regentes famosos e
diz
que o gênero eletrônico ainda
pode causar uma revolução
Sérgio
Martins
Goste-se ou não das obras de Karlheinz Stockhausen, não
há como negar a importância do maestro alemão para
a música contemporânea. Nascido em 22 de agosto de 1928,
no vilarejo de Mödrath, perto da cidade de Colônia, ele é
considerado o maior compositor de seu país no período pós-guerra.
Suas ousadias incluem a criação de concertos que incorporam
barulhos da natureza e até um quarteto para helicópteros.
Acima de tudo, Stockhausen é considerado o pai da música
eletrônica. Por isso se tornou influente também no universo
pop. Dos Beatles ao Grateful Dead, banda preferida dos hippies californianos,
muitos foram os roqueiros seduzidos por seu vanguardismo. A nova geração
tecno continua a venerá-lo. Stockhausen é a principal atração
do Carlton Arts, festival que acontece de 25 de junho a 1º de julho
em São Paulo. Ele fará duas apresentações
na cidade, nas quais mostrará as obras Oktophonie, Kontakte
e Hymnen. Nesta entrevista, feita por telefone de sua casa em Kürten,
na Alemanha, Stockhausen não poupa críticas aos maestros
da música tradicional e diz que não gosta de manter contato
com o mundo exterior. "Atrapalha o meu trabalho."
Veja O senhor é considerado um dos pais da música
eletrônica...
Stockhausen
Na
Europa dizem mais: que sou o papa desse gênero musical. Esses títulos
me deixam orgulhoso.
Veja Quando o senhor decidiu que seria um compositor diferente?
Stockhausen
Desde cedo quis me diferenciar dos outros autores alemães. Eu tinha
aulas de música em um conservatório de Colônia e estava
estudando a sonata para dois pianos e percussão do húngaro
Béla Bartók. Foi quando ouvi no rádio uma obra de
Stravinsky. Fiquei impressionado: aquilo era muito melhor do que música
tradicional. Passei, então, a procurar outros estilos que fugiam
da mesmice. Como as composições atonais do austríaco
Anton Webern ou o lado mais experimental do jazz, como o bebop e o boogie-woogie.
Até hoje procuro seguir essa filosofia.
Veja O senhor era uma criança quando a II Guerra Mundial
começou. Quais lembranças tem desse período?
Stockhausen
Eu
era novo demais para lutar, mas perdi meu pai, vários primos e
amigos queridos no campo de batalha. Trabalhei em um hospital na minha
cidade natal, Colônia, e pude ver os milhares de feridos e a destruição
de algumas jóias da arquitetura medieval alemã.
Veja Como se sente a respeito do fato de maestros famosos,
como Herbert von Karajan e Wilhelm Furtwängler, terem aderido ao
nazismo?
Stockhausen
É melhor deixar os mortos repousar em paz.
Veja Qual a opinião do senhor em relação
ao crescimento do movimento neonazista na Alemanha?
Stockhausen
Eu não sei exatamente o que está ocorrendo, porque não
leio jornais, não vejo televisão e muito menos compro revistas.
Estou tão concentrado em minha obra que não tenho tempo
a perder com o que acontece no mundo. A minha única fonte de informação
é uma publicação sobre astronomia que um amigo me
envia dos Estados Unidos.
Veja O senhor acredita que existe vida em outros planetas?
Stockhausen
Em
outras galáxias, sim. Na minha imaginação, já
viajei para diversos planetas. Dessa maneira, consigo compor minhas melhores
obras. Como o meu quarteto para helicópteros, uma das peças
que me deixam mais orgulhoso.
Veja Pelo menos o senhor ficou sabendo da polêmica
com o maestro argentino Daniel Barenboim? Ele despertou a ira dos judeus
ao propor a apresentação de uma ópera de Wagner em
Jerusalém.
Stockhausen
Acho que os judeus deveriam separar a música de Wagner de seu passado
anti-semita. E ninguém melhor do que Barenboim, que é judeu,
para explicar isso e mostrar que Wagner é bom ainda que
ele nunca tenha me agradado. A única coisa que aturo de Wagner
é a abertura de Tristão e Isolda.
Veja O que o senhor pensa da obra de compositores clássicos
como Bach, Beethoven, Brahms e Mahler?
Stockhausen
Bach provou que realmente é possível louvar a Deus por meio
da música. Beethoven me ensinou a controlar um amplo leque de formas
de expressão. Com Brahms, aprendi a ir sempre em busca das fontes
originais. Mahler, finalmente, me fez ver que as emoções
musicais mais intensas são capazes de nos aproximar de Adão,
o primeiro homem.
Veja O senhor foi companheiro de classe do maestro francês
Pierre Boulez, outro talento da música moderna. Boulez é
conhecido por espinafrar maestros e escolas musicais. O senhor compartilha
dessas opiniões fortes?
Stockhausen
Eu conheci Pierre Boulez quando tinha 23 anos e fui estudar em Paris.
Fomos alunos do compositor Olivier Messiaen. Somos muito amigos, mas eu
não sei o que se passa na cabeça dele. Boulez gosta de espinafrar
outros maestros, mas está regendo de maneira cada vez mais porca.
Em 1997, eu o vi reger um concerto de Schumann em Osaka e foi terrível.
Ele também estragou a oitava sinfonia de Bruckner. Boulez gosta
de reger autores franceses sem expressão apenas para parecer moderno
mas esses concertos não acrescentam nada à sua carreira.
Veja O que acha do italiano Claudio Abbado, regente da Filarmônica
de Berlim?
Stockhausen
Ele é horroroso, fez coisas terríveis com as minhas
criações. Claudio Abbado regeu um concerto meu na Alemanha
e simplesmente estragou minha obra. Fiquei tão furioso que mandei
uma carta para ele. Abbado nunca me respondeu. Depois, vim a saber que
não havia ensaiado o suficiente. Dos catorze dias de ensaios previstos,
compareceu apenas a dois.
Veja É interessante, porque Claudio Abbado costuma
gabar-se das muitas horas de ensaio gastas com a Filarmônica de
Berlim.
Stockhausen
Sinceramente, ele não entende a minha obra. Claudio Abbado já
havia destruído uma criação minha quando regia a
orquestra do Alla Scalla de Milão. O problema desses maestros é
que eles não conseguem entender a precisão das minhas obras.
Elas têm de ser ensaiadas exaustivamente durante dez, doze dias
até ficar perfeitas. Mas os regentes não têm tempo
para isso. Eles sabem que podem ganhar até dez vezes mais tocando
obras de Beethoven e Bach. Um dos poucos maestros que entendem a minha
obra é o americano David Robertson.
Veja O senhor consegue executar as obras que escreve para
o piano?
Stockhausen
Você pode até não acreditar, mas sou um excelente
pianista... Um excelente pianista! Só que hoje não faço
mais solos. Apenas treino virtuoses.
Veja Quem é o melhor intérprete de suas obras?
Um homem ou um robô?
Stockhausen
Uma mulher. Qualquer uma.
Veja Não cheira a enganação apresentar
um concerto de música em que o senhor apenas aperta alguns botões?
Stockhausen
Minha
obra é bem mais do que apertar botões. Ela exige ambientação.
Os meus concertos costumam ser acompanhados de imagens projetadas num
telão, e a sala de concerto precisa ter uma acústica impecável,
com alto-falantes de boa qualidade. Vistoriar tudo isso dá muito
trabalho.
Veja Como o senhor lida com eventuais salas de concerto vazias
e gente que não gosta de seu estilo musical?
Stockhausen
Sinceramente, não tenho esse tipo de problema. As salas em que
toco estão sempre cheias e meus discos ainda vendem bem no mercado
erudito.
Veja Qual foi a pior reação dos admiradores
da música tradicional a uma criação sua?
Stockhausen
Em 1957, uma rádio de Colônia transmitiu trechos da minha
obra. A reação foi tremenda. Diversos críticos de
música clássica diziam que eu estava destroçando
uma arte divina. Um deles, chamado Blummer, sugeriu às estações
de rádio que proibissem a execução das minhas obras.
De repente parecia que estávamos de volta aos tempos do III Reich.
Mas eu já tinha me acostumado a isso. Na minha estréia como
compositor, em 1953, o mundo se dividiu entre os pró e contra Stockhausen.
Veja Diversos músicos gostam de dedicar suas obras
ao senhor. Já deparou com algumas dessas homenagens e teve vontade
de gritar: "Mas não é nada disso!"?
Stockhausen
Qualquer músico que respeita a minha obra é digno da minha
gratidão. Mesmo que o disco não esteja à altura do
meu trabalho.
Veja Hoje, parecem existir muito mais discípulos do
senhor na música pop do que na música clássica.
Stockhausen
Sem dúvida, eles gostam da minha criatividade. Karl Bartos, líder
do grupo alemão de música eletrônica Kraftwerk, chegou
a parar uma apresentação da banda para fazer elogios rasgados
à minha obra. Nos anos 60, quando dei aulas de música na
Califórnia, havia integrantes das bandas psicodélicas Jefferson
Airplane e Grateful Dead entre meus alunos.
Veja O senhor chegou a ser convidado a participar de Sgt.
Pepper's, o histórico álbum dos Beatles lançado
em 1967. Por que essa parceria não se concretizou?
Stockhausen
Os Beatles sempre foram fãs do meu trabalho. Assim como eu, eles
sempre tiveram muita criatividade. Fui procurado pelo empresário
deles na época, Brian Epstein. Ele queria que eu bolasse arranjos
para o grupo e fizesse um concerto ao lado deles. Mas Brian morreu e depois
não consegui me entender com os novos empresários da banda.
Por isso, minha participação em Sgt. Pepper's se
resumiu a uma aparição na foto da capa.
Veja O rock e o pop normalmente são associados ao
uso de drogas. O senhor já as experimentou?
Stockhausen
Nunca usei drogas em minha vida. Nem sei que gosto elas têm. Ouvi
dizer que Jefferson Airplane e Grateful Dead eram movidos a drogas, mas
nunca vi nada. Você tem de entender que esses grupos surgiram nos
anos 60, uma época em que todo mundo experimentava LSD. Eu também
soube que meu filho mais novo usou drogas quando estava na faculdade,
mas agora ele está levando uma vida normal.
Veja Qual o futuro da música eletrônica?
Stockhausen
Há quase cinqüenta anos tenho dito e escrito que a música
eletrônica será o gênero mais importante da evolução
musical. E isso não apenas por questões técnicas
ou pela maneira pouco ortodoxa com que lidamos com o tempo de execução
das obras. Ao revolucionar nossa maneira de ouvir, a música eletrônica
pode revolucionar nossa maneira de viver.
Veja Normalmente, os artistas de música eletrônica
costumam usar a técnica do sampler: pegam trechos de obras alheias
e não pagam direitos autorais. O senhor já foi sampleado?
Stockhausen
Eu
não me importo de ser sampleado e muito menos corro atrás
de direitos autorais. Até hoje apenas um músico alemão
desconhecido admitiu ter roubado minhas criações. Ele usou
trechos de três obras minhas para fazer outra música. O sampler
sempre existiu na história da música, apenas tinha nome
diferente. Chamavam de "copiar estilos". Johann Sebastian Bach, por exemplo,
foi o primeiro grande sampleador da história. Bach criou algumas
de suas obras a partir de trechos que roubou de outros autores barrocos.
Veja Um de seus discípulos, Holger Czukay, disse que
a melhor maneira para um músico não prostituir sua arte
é casar com uma mulher rica. O senhor compartilha da mesma opinião?
Stockhausen
Não, eu sempre tive condições de ganhar meu próprio
dinheiro. Desde criança, até os dias de hoje, minha música
garantiu tudo o que tenho.
Veja O senhor tem seis filhos. Procurou incutir neles o seu
gosto musical?
Stockhausen
Meus seis filhos têm interesses musicais muito diferentes dos meus.
Três deles são excelentes músicos profissionais. Eles
tocam composições mais suaves, e acho que o fazem de maneira
excelente. O quarto é flautista e professor de música e
os outros dois preferiram não seguir a mesma carreira do pai.
Veja Dizem que a música de Mozart e de outros compositores
clássicos ajuda a desenvolver a inteligência dos bebês.
O seu trabalho tem também um alcance educativo?
Stockhausen
Acho que sim. Muitas crianças foram criadas ao som de uma das minhas
obras mais importantes, Zodiac.
Veja A palavra "vanguarda" ainda faz sentido para o senhor?
Stockhausen
Pense de outro jeito. Enquanto eu estiver vivo, a palavra "vanguarda"
ainda fará sentido para o mundo.

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