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Gustavo
Franco
A
década pela metade
"Sem
as reformas que faltavam,
a taxa de investimento no Brasil
continuou medíocre, na faixa de
20% do PIB, o
que não nos permite
um crescimento muito melhor do
que já tivemos"
Ilustração Ale Setti
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Em maio de 1993, o então recém-nomeado ministro da Fazenda,
hoje presidente da República, podia ver da janela espelhada de
seu gabinete o piquete dos auditores do Tesouro em greve e ter, como todos
nós, na sala ao lado, a sensação de ar rarefeito,
causada pela inflação que já se aproximava dos 30%
mensais. Depois de perguntar o que fazer a seus economistas, alguns dos
quais pacoteiros experientes, veteranos do Plano Cruzado, ouviu um diagnóstico
frio e cortante: estávamos vivendo uma patologia séria,
originada da falência de um modelo de desenvolvimento, cuja expressão
mais visível era a hiperinflação. Alguém foi
mais além e disse que seriam necessários uns dez anos de
reformas para arrumar a casa e preparar o Brasil para um novo ciclo de
crescimento. Todos acharam graça, pois nenhum de nós pensava
que pudéssemos durar mais de dez semanas naqueles cargos, ainda
mais com essas ambiciosas intenções.
Pois bem, cinco anos depois, já tínhamos um cartel de realizações
impensável em 1993: ao trazer a inflação para níveis
internacionais tiramos 7,5 milhões de pessoas da linha de pobreza,
reinventamos a moeda nacional, privatizamos mais de 100 empresas, elevamos
o investimento direto estrangeiro de 1 bilhão para 30 bilhões
de dólares anuais, avançamos com a abertura, fazendo com
isso a produtividade do trabalho na indústria crescer 7,5% anuais
em média para os anos 90, para não falar em revoluções
setoriais, como em telecomunicações, siderurgia, bancos,
portos, petróleo e outros. O Brasil havia se transformado, em cinco
anos, numa velocidade e profundidade com um paralelo difícil de
encontrar.
Difícil era também convencer as pessoas, dentro do governo,
que isso era apenas metade do caminho e que estava faltando outro naco
de mudanças revolucionárias na economia, sem as quais passaríamos
do ataque à defesa. Tratava-se aí das reformas previdenciária,
tributária, trabalhista e nas leis, necessárias para o bom
funcionamento do mercado de capitais. Também estavam incompletos
alguns processos, como o de privatização, no setor elétrico
e no saneamento, por exemplo. Faltava avançar bem mais na moralização
do Orçamento público, de sorte a consolidar o equilíbrio
fiscal como cláusula pétrea da boa gestão econômica,
em conseqüência do que o Brasil poderia melhorar seu "rating",
reduzir os juros a níveis de Primeiro Mundo, ter um mercado de
capitais profundo e preparar-se para fazer a transição de
emergente para desenvolvido. Essa era a segunda metade da década
das reformas, que nunca aconteceu, lamentavelmente.
Com efeito, no quinto ano se verificou, no plano político, certa
fadiga de materiais em muito relacionada às supostas "vítimas"
do processo. Reformas beneficiam maiorias mudas em detrimento de minorias
privilegiadas. Estas, e por bons motivos, se tornam inimigas e passam
a dedicar sua existência a machucar a liderança que as expropriou
de suas prebendas. Com o tempo, a liderança deixa de ser uma unanimidade
e passa a sofrer desgaste, desconforto e sentimento de culpa. Uns vivem
melhor que outros com essa carga. Levado ao limite, o processo consome
a liderança. Mikhail Gorbachev, o maior de todos os reformistas,
o homem que desmontou o império soviético sem produzir uma
guerra civil-nuclear, não consegue eleger-se deputado estadual
em nenhuma das três dezenas de repúblicas que libertou.
O fato é que, enquanto a população que reelegeu o
presidente esperava "mais da mesma coisa", cresceu dentro do governo o
movimento no sentido de tornar mais leve o relacionamento com o Congresso.
O "destravamento das âncoras" era tolamente visto como a salvação
da lavoura, como se o câmbio flutuante, e não os cinco anos
restantes de reformas, fosse levar-nos ao crescimento sustentado. A ilusão
durou algum tempo, mas parece já ter sucumbido. Sem as reformas
que faltavam, a taxa de investimento no Brasil continuou medíocre,
na faixa de 20% do PIB, o que não nos permite um crescimento muito
melhor do que já tivemos. Como não teremos mais reformas
de verdade neste governo, a década das reformas parece terminada
e, infelizmente, pela metade.
Gustavo Franco
é economista da PUC-RJ e
ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.com)
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