Brasil
Caixa um no caixa dois?
Empresa
acusada de fazer doação ilegal a Yeda Crusius
mostra recibo
oficial do PSDB. O partido diz que o dinheiro
não aparece em suas contas
porque foi misturado a outros

Igor Paulin
Roberto Vinicius/Ag. Freelancer
 |
CONTRA-ATAQUE
TUCANO Yeda na entrevista em que acusou
VEJA de pagar por informação: é mais fácil atacar
o mensageiro que contraditar a denúncia |
A tucana
Yeda Crusius governa o Rio Grande do Sul há 125 semanas, mas nenhuma delas
foi tão dura para ela quanto a passada, depois que VEJA revelou a existência
de gravações que apontam que sua campanha eleitoral foi abastecida
com recursos provenientes de caixa dois. O PT e os demais partidos de oposição
redobraram seus esforços para tentar instalar na Assembleia Legislativa
uma CPI. Os procuradores eleitorais reabriram as prestações de contas
de Yeda e avisaram que requererão uma investigação da Polícia
Federal sobre as denúncias de financiamento ilegal. Querem ainda que seu
superior, o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, analise
se Yeda tinha dinheiro suficiente para comprar uma casa em um bairro nobre da
capital gaúcha em 2006, num caso que já havia sido arquivado. Para
completar, na última quinta-feira, manifestantes fizeram uma passeata em
Porto Alegre, para pedir o seu impeachment. Em meio às turbulências,
a governadora voou para Brasília para pedir ajuda à cúpula
de seu partido. Voltou de mãos abanando.
 |
ONDE FOI PARAR O RECURSO? Recibo
fornecido pelo PSDB mostra que o fabricante de cigarros Alliance One fez uma doação
legal. Curiosamente, ela não está discriminada na prestação
de contas de Yeda |
A
reportagem expôs áudios que estão em poder do Ministério
Público Federal desde 2008. Divulgou-os depois que encontrou uma fonte
fidedigna capaz de atestar sua autenticidade: a empresária Magda Koenigkan,
companheira do coordenador de campanha da tucana, Marcelo Cavalcante. O ex-assessor
de Yeda, que morreu afogado em Brasília em fevereiro passado, relatou nas
gravações fatos que constituem crimes eleitorais. A governadora
convocou uma entrevista para desqualificar as pessoas ouvidas pela revista. Também
agrediu o mensageiro que lhe trouxe a notícia ruim, ao insinuar que VEJA
pagou pelas informações (veja Carta
ao Leitor). O problema, para Yeda, é que os indícios
de caixa dois continuam aparecendo e eles merecem ser investigados. Nos
áudios, Cavalcante diz que recebeu 200 000 reais da Alliance One, uma fabricante
de cigarros. A contabilidade da campanha tucana não registra a doação,
mas a Alliance One enviou a VEJA uma cópia de um recibo emitido pelo PSDB.
"Até declaramos a doação em nosso imposto de renda",
diz Alexandre Strohs-choen, diretor da empresa. O PSDB justifica a divergência
com uma explicação que simplesmente não pode ser verificada.
Diz que a doação da Alliance One foi misturada a outras e incorporada
a um recibo de 596 000 reais no qual foram incluídos os recursos fornecidos
por companhias que também não são discriminadas.
Foto: Jefferson/Zero Hora  |
E ESSE MONTANTE, ONDE ESTÁ?
Em e-mail, o vice de Yeda, Paulo Feijó, diz
que recebeu 25 000 reais de uma concessionária de automóveis. Esse
valor também não foi declarado pelo PSDB |
Um
outro caso ainda mais intrigante transpira da correspondência eletrônica
do vice-governador, Paulo Feijó, do DEM, que participou da arrecadação
da campanha de Yeda. Depois da eleição, Feijó brigou com
a titular e passou a denunciar operações de caixa dois da governadora.
Chegou a elaborar um dossiê com os e-mails que trocou durante a eleição.
Desse material, sobressaem as negociações para uma doação
da Simpala, uma concessionária GM que não está listada entre
os doadores oficiais de Yeda. Nos e-mails reunidos por Feijó, quem fala
em nome da Simpala é o gerente de relações institucionais
da GM, Marco Kraemer. Procurado por VEJA, Kraemer confirmou que a correspondência
é sua, mas negou seu conteúdo. "Os e-mails são meus,
mas jamais intermediei doações", diz. Não é o
que se vê na sequência da correspondência. Na primeira semana
de setembro de 2006, ele escreveu: "Está confirmado... Favor procurar
(...) o diretor da Simpala. (...) Farei o possível para estar presente".
No dia 8 do mesmo mês, Feijó enviou a Rubens Bordini, então
tesoureiro da campanha de Yeda e hoje vice-presidente do Banrisul, a seguinte
mensagem: "Recebi R$ 25 000 em cash da simpala (sic)". Bordini respondeu:
"Que sorte que o pacote não estava bem feito e tiveste que reforçá-lo.
Agradeço os brindes que são de muito bom gosto e muito úteis".
Procurado por VEJA, o vice-governador esclareceu que os brindes aos quais o tesoureiro
se refere são agendas e garrafinhas da academia de ginástica que
pertence a Feijó, a Body One. Ele afirma que enviou o dinheiro a Bordini
dentro de uma mochila da mesma academia. O ex-tesoureiro diz que o PSDB o proíbe
de esclarecer assuntos relativos à campanha. Pelo que se vê nas ruas
de Porto Alegre, é melhor que o partido reveja essa orientação.