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Livros
Camilla rima com quê?
A difícil vida do poeta laureado
inglês, que tem de cantar em
versos os feitos da monarquia

Jerônimo Teixeira
Hugo Burnand/AP
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| Charles e Camilla: girando no "carrossel de
escândalos" |
Na semana passada, o escritor inglês Andrew Motion viu-se
diante de um grande desafio. Como poeta laureado da coroa britânica,
espera-se que ele componha versos para todas as datas significativas
da monarquia. Era seu dever, portanto, produzir um poema comemorativo
ao casamento do príncipe Charles com Camilla Parker Bowles.
O poeta laureado é daquelas instituições britânicas
que são vistas pelo resto do mundo como uma excentricidade
antiquada (embora muitos outros países tenham sua versão
do poeta oficial). O detentor dessa distinção vitalícia
recebe uma modesta remuneração de 500 libras (em torno
de 2 500 reais) por ano, acrescida de uma provisão de garrafas
de xerez para ajudar na inspiração. Em troca, produz
poemas sobre a casa de Windsor. Nos dias anteriores ao casamento,
a zombeteira imprensa britânica especulava que palavra Motion
usaria para rimar com "Camilla" (Godzilla? Vanilla?). Autor de alguns
versinhos de protesto contra a guerra no Iraque, Motion até
que se desincumbiu do encargo oficial com galhardia (veja tradução
livre na pág. ao lado). Com imagens bucólicas
e linguagem convencional, ele sugeriu que o amor dos recém-casados
conseguiu sobreviver a tudo até ao escândalo.
No Brasil não existe o posto de poeta
laureado. Mas VEJA propôs um exercício a dois autores
brasileiros. Glauco Mattoso e Nelson Ascher se imaginaram no cargo
por um dia para produzir os poemas sobre efemérides do governo
Lula que o leitor confere nesta página. Mattoso encarnou
um repentista homenagem às raízes nordestinas
do presidente para cantar, com mote e glosa, a comitiva oficial
que foi ao enterro do papa. Ascher preferiu a forma clássica
da oitava real estrofe consagrada pelo português Luís
de Camões em Os Lusíadas para celebrar
a viagem de Lula a Gana. Os dois poetas recorreram ao humor, opção
que Motion não tinha. Seu antecessor no cargo, o bem mais
reputado Ted Hughes, chegou a fazer, com toda a seriedade, um poema
sobre os cãezinhos da rainha.
A tradição do poeta laureado
remonta ao dramaturgo Ben Jonson o grande rival de William
Shakespeare nos palcos londrinos , que em 1616 recebeu uma
pensão do rei James I. O cargo só seria oficializado
em 1668, quando o poeta John Dryden assumiu a láurea (ele
acabaria destituído por questões políticas).
William Wordsworth e Alfred Tennyson estão entre os grandes
poetas que receberam a distinção real. Mas, na lista
de laureados, predominam mediocridades como Colley Cibber, que assumiu
o posto em 1730. Seu nome só é lembrado por constar
de um poema satírico de Alexander Pope, este sim um mestre
do verso e da verve. Pope dizia que Cibber acumulava dois cargos
no reino: era o poeta e o bobo da corte. Fora da Inglaterra, a láurea
poética só pegou nos Estados Unidos. Lá, expandiu-se
para todos os níveis da federação: há
um laureado nacional e laureados estaduais e municipais. Em São
Francisco, por exemplo, o poeta municipal é Lawrence Ferlinghetti,
um dos fundadores, nos anos 50, do contestador movimento Beat. Deve
ter sido curioso ouvir esse rebelde histórico proferindo
seu discurso oficial, diante do prefeito, para agradecer a distinção,
em 1998. Felizmente para ele e para Ted Kooser, o poeta federal
, o país é uma república. Não
existe família real para cantar em verso. O poeta laureado
atua apenas como uma espécie de divulgador da poesia.
Se o cargo de poeta laureado existe apenas
na Inglaterra e nos Estados Unidos, a busca de respaldo institucional
para a carreira literária é bem mais comum. O modelo
francês da Academia de Letras que o brasileiro Machado
de Assis importou é uma forma eficiente de multiplicar
as láureas: são quarenta em vez de uma só.
No Brasil, o poeta oficial tem sua tradição estabelecida
desde a colônia. Em O Uraguai, épico sobre a
guerra contra as missões jesuíticas, no século
XVIII, Basílio da Gama pintou os jesuítas como padres
balofos, corruptos e covardes tudo para ganhar pontos com
o marquês de Pombal, ministro que expulsou a Companhia de
Jesus de Portugal. Depois da Independência, o emprego público
tornou-se a mais consagrada versão nacional da láurea:
instalado nos gabinetes da burocracia, o bardo brasileiro risca
seus versos em papel timbrado. Entre os contemporâneos, um
bom candidato aos louros de poeta federal é o ex-funcionário
público Affonso Romano de Sant'Anna. É ele o autor
do poema sobre Tancredo Neves que foi lido na TV Globo quando o
presidente morreu. O também funcionário Carlos Drummond
de Andrade ironizou todos os escritores oficiais no poema-piada
Política Literária: enquanto o poeta municipal
e o estadual discutem quem pode bater o poeta federal, este "tira
ouro do nariz".
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Núpcias de primavera
Levei para fora a notícia e então
caminhei
Calado em minha nesga de jardim,
Onde podia abafar a algaravia de razões,
Ignorar o carrossel de escândalos a girar sem
fim
E ouvir, em vez disso, o estopim verde explodir
Em uma flor, a brisa a estender dedos de sombra
Em cujas pontas desabrocham flores,
Os melros a cantar e, em seu canto, se afirmarem.
Levei para fora a notícia e descobri que a primavera
Havia honrado sua promessa e começado a
Revelar como os princípios da Terra
Podem entrar em acordo com os do coração.
O coração que vacila e se desvia como
um riacho
Obstruído em sua nascente pelo gelo invernal,
Mas que no devido tempo, e com a chuva redentora,
Se liberta e rejubila em seu curso natural.
Andrew
Motion, poeta laureado da Inglaterra
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Lírica lulista
E se o poeta laureado existisse no Brasil?
A convite de VEJA, dois autores criam versos sobre o
governo Lula
Glauco Mattoso
Divulgação
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Episódio: a comitiva
presidencial viaja para o enterro do papa
MOTE
Mal Lula estréia seu jato, já não
cabe a comitiva.
GLOSA
"Seu custo não foi barato
e a carona estoura a cota:
só de ministros já lota
mal Lula estréia seu jato.
Nova nave compra e, grato
à panela que o incentiva,
quer dar cadeira cativa
aos poetas populares...
mas, mesmo com mil lugares,
já não cabe a comitiva!"
Nelson Ascher
Joedson Alves/AE
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Episódio: a viagem
do presidente à África
"Lula, viajando esta semana
ao continente de onde vem
muito de nossa gente, em Gana
encontrou os Tabons também
e a irmandade afro-americana
que une estas terras às de além-
mar foi no almoço celebrada
com uma atlântica feijoada."
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