Edição 1901 . 20 de abril de 2005

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Camilla rima com quê?

A difícil vida do poeta laureado
inglês, que tem de cantar em
versos os feitos da monarquia


Jerônimo Teixeira

Hugo Burnand/AP
Charles e Camilla: girando no "carrossel de escândalos"


Na semana passada, o escritor inglês Andrew Motion viu-se diante de um grande desafio. Como poeta laureado da coroa britânica, espera-se que ele componha versos para todas as datas significativas da monarquia. Era seu dever, portanto, produzir um poema comemorativo ao casamento do príncipe Charles com Camilla Parker Bowles. O poeta laureado é daquelas instituições britânicas que são vistas pelo resto do mundo como uma excentricidade antiquada (embora muitos outros países tenham sua versão do poeta oficial). O detentor dessa distinção vitalícia recebe uma modesta remuneração de 500 libras (em torno de 2 500 reais) por ano, acrescida de uma provisão de garrafas de xerez para ajudar na inspiração. Em troca, produz poemas sobre a casa de Windsor. Nos dias anteriores ao casamento, a zombeteira imprensa britânica especulava que palavra Motion usaria para rimar com "Camilla" (Godzilla? Vanilla?). Autor de alguns versinhos de protesto contra a guerra no Iraque, Motion até que se desincumbiu do encargo oficial com galhardia (veja tradução livre na pág. ao lado). Com imagens bucólicas e linguagem convencional, ele sugeriu que o amor dos recém-casados conseguiu sobreviver a tudo – até ao escândalo.

No Brasil não existe o posto de poeta laureado. Mas VEJA propôs um exercício a dois autores brasileiros. Glauco Mattoso e Nelson Ascher se imaginaram no cargo por um dia para produzir os poemas sobre efemérides do governo Lula que o leitor confere nesta página. Mattoso encarnou um repentista – homenagem às raízes nordestinas do presidente – para cantar, com mote e glosa, a comitiva oficial que foi ao enterro do papa. Ascher preferiu a forma clássica da oitava real – estrofe consagrada pelo português Luís de Camões em Os Lusíadas – para celebrar a viagem de Lula a Gana. Os dois poetas recorreram ao humor, opção que Motion não tinha. Seu antecessor no cargo, o bem mais reputado Ted Hughes, chegou a fazer, com toda a seriedade, um poema sobre os cãezinhos da rainha.

A tradição do poeta laureado remonta ao dramaturgo Ben Jonson – o grande rival de William Shakespeare nos palcos londrinos –, que em 1616 recebeu uma pensão do rei James I. O cargo só seria oficializado em 1668, quando o poeta John Dryden assumiu a láurea (ele acabaria destituído por questões políticas). William Wordsworth e Alfred Tennyson estão entre os grandes poetas que receberam a distinção real. Mas, na lista de laureados, predominam mediocridades como Colley Cibber, que assumiu o posto em 1730. Seu nome só é lembrado por constar de um poema satírico de Alexander Pope, este sim um mestre do verso e da verve. Pope dizia que Cibber acumulava dois cargos no reino: era o poeta e o bobo da corte. Fora da Inglaterra, a láurea poética só pegou nos Estados Unidos. Lá, expandiu-se para todos os níveis da federação: há um laureado nacional e laureados estaduais e municipais. Em São Francisco, por exemplo, o poeta municipal é Lawrence Ferlinghetti, um dos fundadores, nos anos 50, do contestador movimento Beat. Deve ter sido curioso ouvir esse rebelde histórico proferindo seu discurso oficial, diante do prefeito, para agradecer a distinção, em 1998. Felizmente para ele – e para Ted Kooser, o poeta federal –, o país é uma república. Não existe família real para cantar em verso. O poeta laureado atua apenas como uma espécie de divulgador da poesia.

Se o cargo de poeta laureado existe apenas na Inglaterra e nos Estados Unidos, a busca de respaldo institucional para a carreira literária é bem mais comum. O modelo francês da Academia de Letras – que o brasileiro Machado de Assis importou – é uma forma eficiente de multiplicar as láureas: são quarenta em vez de uma só. No Brasil, o poeta oficial tem sua tradição estabelecida desde a colônia. Em O Uraguai, épico sobre a guerra contra as missões jesuíticas, no século XVIII, Basílio da Gama pintou os jesuítas como padres balofos, corruptos e covardes – tudo para ganhar pontos com o marquês de Pombal, ministro que expulsou a Companhia de Jesus de Portugal. Depois da Independência, o emprego público tornou-se a mais consagrada versão nacional da láurea: instalado nos gabinetes da burocracia, o bardo brasileiro risca seus versos em papel timbrado. Entre os contemporâneos, um bom candidato aos louros de poeta federal é o ex-funcionário público Affonso Romano de Sant'Anna. É ele o autor do poema sobre Tancredo Neves que foi lido na TV Globo quando o presidente morreu. O também funcionário Carlos Drummond de Andrade ironizou todos os escritores oficiais no poema-piada Política Literária: enquanto o poeta municipal e o estadual discutem quem pode bater o poeta federal, este "tira ouro do nariz".

 

Núpcias de primavera

Levei para fora a notícia e então caminhei
Calado em minha nesga de jardim,
Onde podia abafar a algaravia de razões,
Ignorar o carrossel de escândalos a girar sem fim
E ouvir, em vez disso, o estopim verde explodir
Em uma flor, a brisa a estender dedos de sombra
Em cujas pontas desabrocham flores,
Os melros a cantar e, em seu canto, se afirmarem.
Levei para fora a notícia e descobri que a primavera
Havia honrado sua promessa e começado a
Revelar como os princípios da Terra
Podem entrar em acordo com os do coração.
O coração que vacila e se desvia como um riacho
Obstruído em sua nascente pelo gelo invernal,
Mas que no devido tempo, e com a chuva redentora,
Se liberta e rejubila em seu curso natural.

Andrew Motion, poeta laureado da Inglaterra

 

Lírica lulista

E se o poeta laureado existisse no Brasil? A convite de VEJA, dois autores criam versos sobre o governo Lula

Glauco Mattoso


Divulgação

Episódio: a comitiva presidencial viaja para o enterro do papa

MOTE
Mal Lula estréia seu jato, já não cabe a comitiva.

GLOSA
"Seu custo não foi barato
e a carona estoura a cota:
só de ministros já lota
mal Lula estréia seu jato.
Nova nave compra e, grato
à panela que o incentiva,
quer dar cadeira cativa
aos poetas populares...
mas, mesmo com mil lugares,
já não cabe a comitiva!"

 

Nelson Ascher

Joedson Alves/AE

Episódio: a viagem do presidente à África

"Lula, viajando esta semana
ao continente de onde vem
muito de nossa gente, em Gana
encontrou os Tabons também
e a irmandade afro-americana
que une estas terras às de além-
mar foi no almoço celebrada
com uma atlântica feijoada."

 
 
 
 
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