Edição 1901 . 20 de abril de 2005

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Brasil
Crise de identidade

Documento mostra que o PT ainda
está perplexo diante da realidade
– e luta para saber o que fazer

 

Claudrio Versiani
Manifestação do PT: afinal, é reformista ou socialista?

As correntes moderadas do PT, que respondem por 70% do partido, produziram um documento importante em seu último encontro, no Rio de Janeiro. Com 44 páginas, o documento, batizado de Bases de um Projeto para o Brasil, é um retrato do enorme impacto que o exercício do poder em Brasília vem causando no PT. Percebe-se que o partido está mais realista, pragmático e objetivo. Seu discurso está mais equilibrado, sem o pessimismo abissal das oposições nem o otimismo exagerado dos demagogos. Até sua linguagem está mais direta, com raras concessões aos arroubos retóricos de outrora. E mesmo a antiga arrogância programática, segundo a qual o PT conhecia todas as soluções para todos os grandes problemas, foi dramaticamente substituída pela humildade da experiência.

Tudo isso é positivo, mas chama atenção no documento a profunda crise de identidade do partido. A começar por sua própria definição ideológica. Por exemplo: na página 5, o PT é declaradamente uma legenda reformista, mas na página 16 já é tido como "partido socialista". Uma parte da esquizofrenia do PT se explica pela eterna disputa entre os ministros Antonio Palocci, da Fazenda, e José Dirceu, da Casa Civil. O documento incorpora ao ideário petista – pelo menos ao ideário das alas moderadas – os princípios econômicos defendidos e levados à prática por Palocci, como o equilíbrio fiscal e o controle rigoroso da inflação. A defesa de tais princípios está no documento sem meias palavras. Mas, para compensar a gangorra do poder interno, também se contemplam as idéias caras ao ministro José Dirceu, como a necessidade de um Estado mais intervencionista, "regulador e forte", capaz de atuar como "planejador e indutor da economia". Na página 23, em homenagem a Dirceu, o documento pede a redução da taxa de juros, referindo-se eufemisticamente à necessidade de "buscar o caminho progressivo do alívio da política monetária". Mais adiante, na página 31, em nome de Palocci, faz uma didática defesa da autonomia das agências reguladoras, ao afirmar que elas são "condição básica para a atração de novos investimentos privados" e representam uma mensagem clara da "estabilidade das regras econômicas".

 

Ed Ferreira/AE
Lula: o presidente ficou muito maior do que o PT

A crise de identidade do partido, porém, vai além das disputas entre Palocci e Dirceu. As velhas certezas do PT implodiram no exercício do poder e aparecem substituídas por dúvidas profundas. No documento, o PT defende a adoção de um projeto nacional de desenvolvimento, mas fica claríssimo que o partido não sabe exatamente por onde ir, como fazer ou o que buscar. Até na área social, terreno em que o PT sempre se julgou mais bem apetrechado que seus rivais, tudo virou incerteza. "O que fazer para que os programas sociais sejam mais efetivos no combate à pobreza?", indaga-se, na página 35. A resposta, melancólica, recorre ao bordão de sempre quando não se sabe o que dizer: "Esse é um debate a ser travado por toda a sociedade". No campo social, o documento se limita a idéias modestíssimas, como elogiar a unificação dos programas sociais, defender o atendimento personalizado das famílias pobres e propor uma melhor coordenação entre as políticas sociais dos três níveis de governo. O aspecto positivo disso tudo é que, pelo menos, está evidente que o PT não está cego às dificuldades – e parece pouco disposto a inventar a roda. Fica claro como cristal também que, se chegou ao poder equiparado a seu candidato Luiz Inácio Lula da Silva, o PT é hoje bem menor do que o presidente. Lula, querendo ou não, ficou maior do que o partido e sua firmeza na definição da política econômica cedo ou tarde se espraiará pelo PT.

 
 
 
 
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