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Brasil Crise
de identidade Documento mostra que o PT ainda
está perplexo diante da realidade e luta para saber o que fazer
Claudrio
Versiani
 | | Manifestação
do PT: afinal, é reformista ou socialista? |
As correntes moderadas do PT, que respondem por 70% do partido, produziram um
documento importante em seu último encontro, no Rio de Janeiro. Com 44
páginas, o documento, batizado de Bases de um Projeto para o Brasil, é
um retrato do enorme impacto que o exercício do poder em Brasília
vem causando no PT. Percebe-se que o partido está mais realista, pragmático
e objetivo. Seu discurso está mais equilibrado, sem o pessimismo abissal
das oposições nem o otimismo exagerado dos demagogos. Até
sua linguagem está mais direta, com raras concessões aos arroubos
retóricos de outrora. E mesmo a antiga arrogância programática,
segundo a qual o PT conhecia todas as soluções para todos os grandes
problemas, foi dramaticamente substituída pela humildade da experiência.
Tudo isso é positivo, mas chama atenção
no documento a profunda crise de identidade do partido. A começar por sua
própria definição ideológica. Por exemplo: na página
5, o PT é declaradamente uma legenda reformista, mas na página 16
já é tido como "partido socialista". Uma parte da esquizofrenia
do PT se explica pela eterna disputa entre os ministros Antonio Palocci, da Fazenda,
e José Dirceu, da Casa Civil. O documento incorpora ao ideário petista
pelo menos ao ideário das alas moderadas os princípios
econômicos defendidos e levados à prática por Palocci, como
o equilíbrio fiscal e o controle rigoroso da inflação. A
defesa de tais princípios está no documento sem meias palavras.
Mas, para compensar a gangorra do poder interno, também se contemplam as
idéias caras ao ministro José Dirceu, como a necessidade de um Estado
mais intervencionista, "regulador e forte", capaz de atuar como "planejador e
indutor da economia". Na página 23, em homenagem a Dirceu, o documento
pede a redução da taxa de juros, referindo-se eufemisticamente à
necessidade de "buscar o caminho progressivo do alívio da política
monetária". Mais adiante, na página 31, em nome de Palocci, faz
uma didática defesa da autonomia das agências reguladoras, ao afirmar
que elas são "condição básica para a atração
de novos investimentos privados" e representam uma mensagem clara da "estabilidade
das regras econômicas". Ed
Ferreira/AE
 | | Lula:
o presidente ficou muito maior do que o PT |
A crise de identidade do partido, porém, vai além das disputas entre
Palocci e Dirceu. As velhas certezas do PT implodiram no exercício do poder
e aparecem substituídas por dúvidas profundas. No documento, o PT
defende a adoção de um projeto nacional de desenvolvimento, mas
fica claríssimo que o partido não sabe exatamente por onde ir, como
fazer ou o que buscar. Até na área social, terreno em que o PT sempre
se julgou mais bem apetrechado que seus rivais, tudo virou incerteza. "O que fazer
para que os programas sociais sejam mais efetivos no combate à pobreza?",
indaga-se, na página 35. A resposta, melancólica, recorre ao bordão
de sempre quando não se sabe o que dizer: "Esse é um debate a ser
travado por toda a sociedade". No campo social, o documento se limita a idéias
modestíssimas, como elogiar a unificação dos programas sociais,
defender o atendimento personalizado das famílias pobres e propor uma melhor
coordenação entre as políticas sociais dos três níveis
de governo. O aspecto positivo disso tudo é que, pelo menos, está
evidente que o PT não está cego às dificuldades e
parece pouco disposto a inventar a roda. Fica claro como cristal também
que, se chegou ao poder equiparado a seu candidato Luiz Inácio Lula da
Silva, o PT é hoje bem menor do que o presidente. Lula, querendo ou não,
ficou maior do que o partido e sua firmeza na definição da política
econômica cedo ou tarde se espraiará pelo PT. |